Carla Dórea Bartz

Jornalista e pesquisadora, é doutora em Estudos Culturais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde defendeu a tese “Ninfomaníaca, de Lars von Trier: narrar em tempos perversos”. Desde 2021, escreve uma coluna semanal no Diário da Causa Operária.

Coluna

Da miséria à consciência de classe em O Fim de São Petersburgo

Realizado em 1927, O Fim de São Petersburgo, de Pudovkin, transforma a trajetória de um camponês pobre em uma poderosa reflexão sobre consciência de classe

Um dos filmes mais famosos sobre a Revolução Russa é Outubro, de Sergei Eisenstein. Lançado em 1927, ele é reconhecido tanto por sua forma, exemplo das considerações do cineasta sobre a montagem, e por seu conteúdo, que busca representar o povo russo em ação revolucionária.

Recentemente, no entanto, tive a oportunidade de assistir a O Fim de São Petersburgo, dirigido por Vsevolod Pudovkin e lançado também em 1927. Trata-se de um irmão menos famoso, mas igualmente importante, principalmente para a compreensão sobre como o povo russo chegou à tomada do Palácio de Inverno pelos olhos de quem a viveu.

Ambos os filmes foram realizados no contexto das comemorações dos dez anos da Revolução de Outubro e pertencem a um período da grande inovação do cinema soviético. Pudovkin já era então um dos grandes nomes dessa geração.

Em 1927, a União Soviética vivia uma etapa de consolidação e disputa. A NEP ainda estava em vigor, embora seus dias já estivessem contados, e o país atravessava um momento em que a memória da Revolução começava a ser organizada como narrativa oficial.

A NEP foi a Nova Política Econômica, lançada por Lênin em 1921. Ela foi uma espécie de recuo tático que buscou melhorar as condições econômicas após a guerra civil. Em termos práticos, manteve o controle estatal dos setores centrais da economia, como bancos, comércio exterior e grandes indústrias, mas reabriu espaço para iniciativa privada limitada, especialmente no pequeno comércio, na agricultura e em pequenos negócios. O objetivo era reconstruir a economia, aumentar a produção e estabilizar o país.

Na época do lançamento dos filmes, o cargo de chefe de Estado era exercido por Mikhail Kalinin, que presidia o Comitê Executivo Central da URSS. Mas o nome politicamente decisivo já era Josef Stalin que, como secretário-geral do Partido Comunista, concentrava o poder real crescente dentro do regime.

Nesse ambiente, o cinema ocupava uma posição privilegiada como arte de massas e como laboratório de inovação que buscava refletir sobre o ponto de inflexão que o país atravessava.

Era uma fase em que a experimentação estética possuía força e prestígio, antes do endurecimento cultural que marcaria os anos seguintes, conhecido como realismo socialista. Stalin havia conquistado a maioria no Politburo, e o horizonte político soviético se encaminhava para outra etapa, mais centralizada e mais rígida.

A importância do filme está em sua habilidade de transformar a Revolução em processo de formação política. Pudovkin busca representar como um homem comum, arrancado do campo pela miséria, lançado à cidade e esmagado pelas engrenagens da exploração, toma consciência de sua própria condição de classe. Na figura desse personagem, a Revolução surge como resultado de uma experiência social e histórica concreta.

O fio narrativo é simples e muito forte. Um camponês muito pobre deixa sua terra em busca de sobrevivência e chega a São Petersburgo sem compreender o universo urbano que passa a habitar. Traz consigo apenas a necessidade imediata de viver. Na cidade, em meio ao desemprego e à fome, ele acaba por colaborar involuntariamente com a repressão a um operário, seu parente e, ao mesmo tempo, organizador de uma greve na fábrica onde trabalha.

Esse gesto lhe rende um posto na empresa. A princípio, poderia parecer uma ascensão mínima, uma chance de integração. Ao perceber a armadilha e a posição de traidor de sua classe, o operário parte para cima dos patrões e é demitido.

A representação é didática. Pudovkin mostra que a consciência política não surge de uma revelação moral repentina. Ela é fruto da prática política. O protagonista toma consciência de que foi manipulado, vê o que acontece consigo e com os outros e experimenta a verdade da ordem social. O filme mostra que a consciência de classe não é um dado psicológico, mas um produto da experiência histórica.

Por isso a trajetória do personagem tem tanta força. O camponês que chega à cidade é, no começo, alguém disperso, isolado, incapaz de ligar o próprio destino às estruturas que o determinam. Seu primeiro movimento é individual: ele quer escapar da pobreza, conseguir trabalho, sobreviver. Mas a cidade capitalista não lhe oferece emancipação. Oferece apenas outra forma de sujeição. A fábrica, longe de significar integração, aparece como espaço de disciplina, vigilância, obediência e violência.

Um dos aspectos mais ricos da obra é a maneira como ela articula campo, cidade, fábrica e guerra como locais de uma mesma totalidade social. O campo é um território de carência, de atraso e de expulsão. A cidade é onde a miséria muda de forma, mas não de essência. A fábrica concentra a disciplina do capital. A guerra amplia essa lógica até o extremo. Em vez de compartimentalizar essas esferas, o filme as encadeia. Mostra que a pobreza no campo, a exploração do trabalho urbano e a carnificina militar pertencem à mesma lógica de quem as produz.

O personagem se torna soldado na Primeira Guerra Mundial. Pudovkin a representa como continuação da violência de classe por outros meios. O trabalhador e o camponês, já expropriados e humilhados em tempos de paz, tornam-se agora matéria-prima para o massacre em escala industrial. A ordem que antes o explorava no trabalho passa a consumi-lo no front.

O momento em que essa percepção se torna mais visível é a montagem paralela entre o campo de batalha e a bolsa de valores. É uma das grandes sequências do filme. De um lado, vemos a morte, a lama e os soldados tombando. De outro, vemos a euforia do mercado, os rostos contorcidos pela cobiça, a excitação dos especuladores diante do aumento dos ganhos. A montagem faz uma associação objetiva entre dois mundos que a ideologia burguesa separa: o massacre e o lucro.

É um novo momento didático do filme. A montagem não deixa dúvidas de que o lucro é resultado do que está acontecendo no front. Não muito diferente da lógica de guerra que vemos hoje.

Ao aproximar a destruição dos soldados e a valorização do capital nos centros financeiros, o filme torna visível a guerra imperialista como um mecanismo econômico brutal. O capital transforma o sangue em mercadoria.

A transformação final do protagonista acontece quando o exército russo sai da guerra e volta para casa para se juntar às forças revolucionárias. De camponês ingênuo a revolucionário: essa é a jornada. Há uma cena que mostra essa adesão, quando um batalhão inteiro se volta contra seus comandantes. É a ação coletiva que inicia a mudança.

O Fim de São Petersburgo é uma obra pedagógica voltada para o trabalhador soviético da época e também para as gerações futuras. Pudovkin filma a passagem da vivência imediata ao entendimento político, do desespero pessoal à ação revolucionária. Seu filme ensina porque mostra que o processo revolucionário não pode ser reduzido ao instante da tomada do poder. Antes disso, há o longo trabalho da realidade sobre os homens: trabalho brutal, contraditório, doloroso, mas também formador.

Ver O Fim de São Petersburgo hoje é perceber que nenhuma transformação histórica profunda nasce do nada. Ela amadurece dentro das contradições do mundo social. É isso que o filme encena. Não apenas o fim de uma cidade simbolicamente associada à velha ordem, mas o fim de um modo de existência marcado pela submissão cega e o nascimento de um sujeito capaz de se reconhecer como agente da própria transformação histórica.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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