Palestina

Crise no Fatá: Abbas elege o próprio filho e dá golpe no partido

Enquanto a direção prepara uma sucessão familiar, a base do Fatá consagra prisioneiros políticos nas urnas.

O partido palestino Fatá concluiu a sua 8ª Conferência Geral, a primeira em uma década, com resultados que não deixam dúvidas sobre a crise interna que vive o outrora partido mais popular entre os palestinos: a pressão imperialista para a adoção de uma linha ainda mais subserviente e a continuação da política de Abbas, e a pressão da base que exige um posicionamento mais firme de enfrentamento contra “Israel”.

Nos resultados anunciados nesta semana de maio de 2026, o atual presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, de 91 anos, não apenas se reelegeu para seguir no comando da sigla, como viu seu filho, o empresário Iasser Abbas, de 64 anos, que nunca tinha tido nenhum papel de liderança no partido, ser eleito para o Comitê Central. O órgão, composto por 18 assentos, é o núcleo mais poderoso de tomada de decisões do movimento e da política palestina. Embora esse seja um sinal claro de que o partido seguirá a linha política imperialista de subserviência a “Israel”, muitos indícios deixam claro que talvez isso fique cada vez mais difícil.

Os bastidores e a logística da votação

A 8ª Conferência Geral do Fatá ocorreu de forma simultânea em quatro frentes distintas: Ramallah (na Cisjordânia), Gaza, Cairo (Egito) e Beirute (Líbano). A fragmentação territorial, no entanto, não inibiu o engajamento partidário. O congresso registrou uma taxa de comparecimento de 94,64%, mobilizando mais de 2.500 delegados com direito a voto.

A disputa central atraiu 59 candidatos concorrendo às 18 cobiçadas vagas do Comitê Central, além da reformulação dos 80 assentos do Conselho Revolucionário, que atua como o braço legislativo do movimento. Apesar do alto quórum, o processo foi marcado por tensões nos bastidores. As urnas foram fechadas no sábado, mas a divulgação dos resultados oficiais se arrastou até a segunda-feira, um hiato que gerou controvérsias e alimentou a apreensão interna.

Quando os números finalmente vieram a público, o resultado surpreendeu: 50% do Comitê Central foi alterado, com a entrada de nove novos membros. Contudo, a queda de metade da velha guarda chamou a atenção — incluindo a substituição de quase todos os antigos representantes de Gaza. Ao contrário do que se poderia esperar de um partido sob fortes pressões da base para adotar uma atitude mais combativa, o resultado foi em prol de uma direção ainda mais engessada e subserviente. Fontes palestinas apontam que o partido tem substituído lideranças históricas por uma casta de funcionários da própria Autoridade Palestina.

Dentre eles, está Majed Faraj, chefe do Serviço Geral de Inteligência da Autoridade Palestina e figura central no esquema de segurança de Mahmoud Abbas. Na eleição para o Comitê Central, Faraj foi, inclusive, o segundo candidato mais votado, ficando atrás apenas de Marwan Barghouti, líder palestino que se encontra preso e é cotado como principal sucessor político do líder histórico Iasser Arafat. Outro nome ligado à atual estrutura administrativa eleito para o comitê foi Leila Ghannam, que ocupa o cargo de governadora do distrito de Ramallah e é considerada uma aliada bastante próxima da presidência. Além deles, o próprio Hussein Al-Sheikh, que é ministro de Assuntos Civis e secretário-geral do Comitê Executivo da OLP (atuando na prática como vice-presidente de Abbas e lidando diariamente com os “israelenses”), manteve e fortaleceu sua posição.

O preparo para a sucessão

Abbas hoje tem 91 anos e não poderá permanecer no cargo para sempre; por isso, prepara uma transição gradual para não perder o controle do Fatá, da Autoridade Palestina e da OLP (Organização de Libertação da Palestina), essas duas últimas controladas pelo Fatá. O símbolo mais nítido dessa transição controlada foi a eleição de Iasser Abbas, de 64 anos. Filho do presidente Mahmoud Abbas, Iasser é um empresário milionário que passa a maioria de seu tempo no Canadá e que nunca havia ocupado um cargo oficial na estrutura do Fatá. Sua emergência na cena política foi gradual, atuando nos últimos cinco anos como um “representante especial” do pai, até culminar na conquista de um assento no cobiçado Comitê Central.

Essa manobra não foi um caso isolado: no Conselho Revolucionário, observou-se a entrada de filhos de ex-líderes sem histórico prévio de militância na sigla, a exemplo de Dalal Erekat, filha do falecido negociador-chefe palestino Saeb Erekat.

Naturalmente, esse golpe contra o partido gerou uma resposta contundente de alguns setores. O Dr. Nasser al-Qudwa, única figura de peso a boicotar abertamente o congresso, declarou que o presidente projetou a reunião exclusivamente para “produzir o resultado que queria”, subjugando o Fatá à sua vontade. O sentimento foi ecoado por uma fonte anônima do alto escalão à rede Al Jazeera, que definiu os novos membros de forma taxativa: “Eles não são líderes. São funcionários. Farão o que for ordenado”.

A movimentação de Iasser Abbas inevitavelmente reacende o debate sobre a sucessão de Mahmoud Abbas. Segundo Ali Jarbawi, analista da Universidade de Birzeit, mesmo com a aquisição do assento no comitê, isso não coloca Iasser em uma linha direta para a presidência.

Quem é Barghouti, o candidato mais votado?

Se o desenho da nova cúpula partidária reflete, por um lado, o fortalecimento da máquina burocrática de Mahmoud Abbas, a base do Fatá mostrou fortemente sua oposição nas urnas.

O candidato que obteve o maior número de votos para o Comitê Central em todo o congresso foi Marwan Barghouti. Detido desde 2002 e condenado a cinco penas de prisão perpétua mais 40 anos em uma prisão “israelense” pelo seu papel na Segunda Intifada, Barghouti mantém uma popularidade inabalável. Mesmo isolado atrás das grades há mais de duas décadas, ele é amplamente considerado pelas ruas como o único sucessor natural e legítimo para a presidência palestina. O próprio Hamas luta arduamente pela sua libertação e tem essa como uma de suas metas centrais, vendo em Barghouti um líder querido por todos os palestinos, com alta capacidade de unificação do país.

Outro candidato que manda esse recado é o estreante Zakaria Zubeidi. Aos 50 anos, o ex-comandante das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa — braço armado do Fatá — no campo de refugiados de Jenin garantiu seu assento no principal órgão do partido. Zubeidi, que ganhou as manchetes globais após uma fuga cinematográfica da prisão de Gilboa em 2021, havia sido liberto no ano passado (2025) como parte de um acordo de troca de prisioneiros com o Hamas em meio à guerra de Gaza. Sua entrada triunfal no comitê simboliza o imenso peso político que a pauta dos prisioneiros palestinos carrega internamente.

O que o futuro reserva para o Fatá?

O congresso do Fatá e suas manobras de renovação são, em grande medida, uma resposta direta a um cenário de crises existenciais para a Autoridade Palestina (AP). Com sua legitimidade profundamente corroída por anos de subserviência a “Israel”, acusações generalizadas de corrupção e a completa ausência de eleições nacionais desde o ano de 2006, a cúpula do partido tenta usar essas mudanças para passar um verniz democrático em resposta às bases — o que pode acabar provocando o efeito inverso — e para angariar ainda mais apoio do imperialismo, dando o recado de que segue alinhado com os seus interesses.

Os Estados Unidos estabeleceram uma reformulação profunda e transparente da Autoridade Palestina como pré-condição inegociável para que a administração de Abbas assuma qualquer papel de peso no governo da Faixa de Gaza após o fim da atual guerra e do genocídio promovido por “Israel”.

No entanto, o Fatá tem que convencer não apenas os diplomatas estrangeiros, mas a própria população palestina, uma tarefa francamente impossível. A decepção crônica com a inércia da velha guarda foi o que pavimentou o caminho para que o Hamas consolidasse ganhos políticos formidáveis nas últimas duas décadas e, hoje, se consolidasse como a verdadeira autoridade dos palestinos, desmoralizando completamente o Fatá. Hoje, a nova cúpula nomeada por Abbas precisa provar sua relevância enquanto tenta governar uma Cisjordânia sob asfixia: lidando diariamente com a retenção sistemática de impostos pelo governo “israelense”, o avanço agressivo e letal de colonos e a incapacidade de pagar os salários de seus próprios servidores civis.

Para agravar a sensação de desconexão entre a liderança e a base, o congresso deixou um precedente alarmante. Pela primeira vez na história do movimento, a vasta diáspora palestina espalhada pelo mundo ficou sem nenhuma representação no Comitê Central. O Fatá encerra sua 8ª Conferência sobrevivendo como pode aos seus rachas e elegendo sua ala burocrática.

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