A principal liderança da extrema direita nacional, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso desde novembro do ano passado, declarou apoio à pré-candidatura do filho, Flávio Bolsonaro, em carta dirigida aos brasileiros. No documento, divulgado nas redes sociais, Bolsonaro trata brevemente das divisões no interior do bolsonarismo e faz um chamado à unidade em torno da pré-candidatura de Flávio, a quem apresentou como sua “voz, na qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e a prosperidade”.
Chamado à unidade
A carta conclama o bolsonarismo a se unir contra a esquerda e a direita tradicional, a chamada terceira via. Sua divulgação ocorre justamente quando aumenta a pressão desse setor da direita contra a pré-candidatura de Flávio, às vésperas das definições eleitorais.
Na carta, Bolsonaro afirma: “O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.
Uma política fracassada
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou o bloqueio de até R$119,2 milhões em bens de Valdemar da Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), sigla de Jair Bolsonaro.
Mesmo diante de parecer contrário da Procuradoria-Geral da República (PGR), Dino ordenou o bloqueio do valor correspondente a 21 emendas que, segundo a investigação da Operação Transparência, foram destinadas irregularmente a pedido do dirigente do PL, embora ele não exerça mandato parlamentar.
A decisão atingiu prefeituras dirigidas pelo PL, que ficaram sem os recursos indicados por parlamentares apontados por Dino como “laranjas” de Valdemar. Trata-se de uma pressão direta contra a pré-candidatura do partido.
Dino, que chegou ao STF após integrar o governo Lula, atua como um dos principais representantes da chamada terceira via no Judiciário. Derrotado nas urnas, esse setor procura utilizar o Supremo para arbitrar as disputas políticas, controlar o Congresso Nacional e perseguir seus adversários.
Outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, proibiu o senador Flávio Bolsonaro de visitar o pai, que cumpre prisão domiciliar, após a divulgação da carta e sua repercussão eleitoral. Moraes alegou que Bolsonaro havia desrespeitado a proibição de utilizar as redes sociais.
A medida constitui uma interferência política evidente e foi criticada até mesmo pela moderada Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sobretudo porque o senador, além de filho de Bolsonaro, está legalmente constituído como um dos advogados do ex-presidente.
Nas últimas semanas, Michelle Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, o MBL, de Renan Santos, e setores do PP também passaram a atacar ou a se afastar da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. O movimento reúne os setores da direita mais ligados ao capital financeiro e expressa a tentativa de organizar uma alternativa eleitoral ao bolsonarismo.
Para a esquerda, acompanhar a direita em sua perseguição ao bolsonarismo é o caminho para a derrota.
A terceira via procura retomar o controle do País sem depender do bolsonarismo nem da esquerda, a fim de aprofundar a política neoliberal e pró-imperialista em prejuízo dos trabalhadores. Essa ofensiva, porém, pode produzir o resultado inverso.
Em vez de enfraquecer o bolsonarismo, pode agrupar em torno dele um amplo setor da população brasileira descontente com a situação do País e ampliar sua influência sobre o regime político.
A crise aberta no interior da direita não anuncia o fim do bolsonarismo. Ela pode entregar a Jair Bolsonaro justamente aquilo que seus adversários pretendem retirar dele: o comando da direita e uma força ainda maior no Congresso. Para derrotar politicamente a direita e o bolsonarismo, a esquerda precisa manter uma política de independência de classe.





