A Casas Bahia realizou na quinta-feira (20) um leilão de eletrodomésticos e eletrônicos anunciado como uma oportunidade para comprar produtos com descontos de até 67%. As condições da venda, porém, mostram que o negócio estava muito longe de ser vantajoso para o consumidor.
Foram oferecidos 391 produtos. Entre os exemplos divulgados estavam um conjunto de sete televisores arrematado por R$ 5.082,00 e um fogão vendido por R$ 407,70.
O preço do lance, contudo, não era o preço efetivamente pago. O comprador ainda precisava acrescentar 5% de comissão do leiloeiro e 15% de despesas administrativas, elevando em 20% o valor da arrematação.
O pagamento deveria ser feito por Pix em até um dia útil. Já quem desistisse da compra poderia ter de pagar a comissão e uma cobrança equivalente a 30% do lance, além de ficar sujeito a outras medidas previstas no edital.
As exigências para receber o dinheiro eram rigorosas. As obrigações da Casas Bahia em relação ao produto vendido, não.
As mercadorias eram entregues no estado em que se encontravam, sem qualquer garantia de funcionamento. Poderiam ter avarias, sujeira, peças faltando, ausência de manual ou bloqueios por senha. Em determinados aparelhos, havia inclusive a possibilidade de bloqueio eletrônico que impediria o uso normal.
Não havia direito a troca ou devolução.
O comprador também não podia examinar presencialmente a mercadoria antes de participar do leilão. Assim, alguém poderia pagar por um televisor, geladeira ou outro aparelho sem saber ao certo em que condições o produto se encontrava.
Até as embalagens poderiam não corresponder à marca, ao modelo ou ao tamanho do que estava sendo vendido.
A farsa dos enormes descontos começa justamente aí.
Não se pode comparar diretamente o preço de um produto novo, vendido normalmente numa loja, com o preço de uma mercadoria sem garantia de funcionamento, sem possibilidade de troca e que o comprador nem sequer pôde examinar.
O desconto de 67% servia para chamar a atenção. O risco real ficava com quem comprava.
A própria Casas Bahia tratava as mercadorias de maneira bastante diferente daquela sugerida pela propaganda do leilão. A nota fiscal seria emitida como venda de sucata, independentemente do estado específico do objeto.
Ou seja, apresentava-se ao público a oportunidade de comprar televisores, eletrodomésticos e eletrônicos a preços baixos, mas juridicamente a empresa procurava resguardar-se como vendedora de sucata.
Quem entrava no negócio também aceitava previamente as condições que restringiam pedidos posteriores de indenização, devolução ou reembolso.
Não era, portanto, uma simples liquidação de estoque.
A operação permitia à Casas Bahia transformar mercadorias problemáticas em dinheiro sem assumir as obrigações que normalmente acompanham a venda de um produto ao consumidor.
Também havia gastos e dificuldades adicionais para retirar os objetos. O arrematante precisava enviar antecipadamente dados pessoais e informações sobre o veículo, marcar a retirada e utilizar transporte adequado para carga. Não era permitido retirar os produtos a pé ou de motocicleta, nem dividir a retirada em várias viagens.
Para muitos compradores, portanto, o custo final incluía ainda o transporte.
O chamado desconto diminuía a cada nova condição: comissão, taxa administrativa, frete e, acima de tudo, o risco de descobrir depois da compra que a mercadoria não funcionava.
Tudo isso ocorre quando a Casas Bahia atravessa uma crise profunda e procura reorganizar suas dívidas por meio da recuperação judicial.
A administração que conduziu a empresa à atual situação pretende agora preservar a companhia enquanto transfere as consequências para outros.
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Os trabalhadores já vêm sendo atingidos pelas demissões. O Estado, como fiel escudeiro da propriedade capitalista, é chamado para socorrer os incompetentes – com o dinheiro do povo trabalhador. E até os estoques são utilizados para levantar dinheiro por meio de uma venda em que o consumidor assume praticamente todo o risco.
A empresa quer proteção para reorganizar suas próprias obrigações, mas não oferece proteção semelhante a quem compra seus produtos.
É esse o significado do leilão.
A Casas Bahia procura obter dinheiro rapidamente com mercadorias que não está disposta a garantir. Se o aparelho estiver quebrado, faltar uma peça ou existir algum bloqueio, o problema passa a ser do comprador.
O participante, por outro lado, precisa cumprir rigorosamente os prazos e pagamentos estabelecidos.
É uma maneira particularmente suja de transformar a crise da empresa em fonte de receita.
Os responsáveis pela administração catastrófica procuram manter a companhia funcionando por meio da recuperação judicial, enquanto trabalhadores perdem seus empregos e consumidores são atraídos por uma propaganda de descontos que esconde condições extremamente desfavoráveis.
O leilão não oferecia nenhuma garantia de que alguém sairia dali com um produto novo por um preço excepcionalmente baixo. A verdade era que teria de pagar por uma mercadoria avariada ou inutilizável, acrescida de taxas, sem possibilidade de devolver o objeto.
A Casas Bahia transformou sua própria crise em negócio, tapeando os consumidores.
Depois de acumular problemas financeiros e partir para demissões, a empresa tenta levantar recursos vendendo mercadorias sem garantia e deixando toda a incerteza nas mãos do consumidor.
Os descontos serviram como chamariz. As condições do leilão mostram quem realmente deveria sair ganhando com a operação: a própria Casas Bahia, enganando o consumidor.





