O procurador da República Lucas de Morais Gualtieri foi autorizado a viajar ao Paraguai para participar de uma reunião intitulada “Combate ao Irã e seus Representantes nas Américas”. A maior parte das despesas será paga pelo governo de Donald Trump.
Gualtieri ficará afastado de suas funções entre os dias 15 e 18 de setembro. O encontro ocorrerá em Assunção nos dias 16 e 17. Passagens, hospedagem, alimentação e transporte serão custeados por Washington. O Ministério Público Federal (MPF) pagará apenas meia diária internacional.
A viagem foi autorizada pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho, em portaria publicada no Diário Oficial da União.
O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, denunciou o caso.
“É preciso mais para demonstrar o escândalo que é o MPF. Que combate é esse contra o Irã? O Brasil está em guerra contra a nação persa? O que está sendo combatido?”, escreveu.
O Brasil não está em guerra contra o Irã. Mantém relações diplomáticas e comerciais com Teerã e os dois países integram os BRICS. A política de enfrentamento à República Islâmica é conduzida pelos Estados Unidos, que mantêm há décadas uma ofensiva econômica, militar e política contra o país.
Mesmo assim, um membro do Ministério Público brasileiro está sendo pago por Trump para participar de uma atividade organizada expressamente em torno dessa política.
Rui também relacionou o episódio à atuação do Judiciário brasileiro diante das organizações ligadas à causa palestina.
“Já havíamos denunciado as diversas ações do judiciário contra os palestinos e a favor do sionismo no Brasil”, afirmou.
O dirigente do PCO questionou ainda a participação do próprio Estado brasileiro nas despesas: “A propósito: por que o governo federal está financiando essa excursão contra um país dos BRICS. Com qual propósito? Soberania ou colônia?”.
O problema não se resume à viagem de Gualtieri. O Ministério Público possui um extenso histórico de relações com o aparelho de Estado norte-americano, cujo caso mais importante apareceu durante a Operação Lava Jato.
Procuradores da força-tarefa de Curitiba mantiveram contatos diretos com integrantes do Departamento de Justiça e do FBI. Delegações norte-americanas vieram ao Brasil, reuniram-se com integrantes da operação e tiveram acesso a informações ligadas às investigações.
Em 2015, uma comitiva de agentes e procuradores norte-americanos esteve em Curitiba sem que o Ministério da Justiça tivesse sido previamente informado da visita. Os contatos contornavam justamente o órgão brasileiro responsável pelos pedidos formais de cooperação jurídica internacional.
A proximidade chegou ao ponto de agentes do FBI aparecerem publicamente apoiando as chamadas “10 Medidas Contra a Corrupção”, campanha política impulsionada pelos procuradores da Lava Jato.
Não havia qualquer neutralidade nessa relação.
A operação atingiu diretamente a Petrobrás e algumas das maiores empresas brasileiras. Empreiteiras foram destruídas, centenas de milhares de empregos desapareceram e setores importantes da economia nacional foram enfraquecidos.
Politicamente, a Lava Jato foi uma das principais armas da ofensiva contra o PT. Contribuiu para criar as condições do golpe contra Dilma Rousseff, levou Lula à prisão e permitiu que ele fosse retirado da eleição presidencial de 2018.
Enquanto isso, a força-tarefa mantinha uma colaboração estreita com órgãos do país que mais teria a ganhar com o enfraquecimento das empresas brasileiras.
A Petrobrás acabou submetida também à Justiça norte-americana e firmou acordos que envolveram centenas de milhões de dólares. Procuradores brasileiros discutiam com autoridades dos Estados Unidos as investigações contra a estatal enquanto, no Brasil, a operação era apresentada como uma cruzada puramente nacional contra a corrupção.
A Lava Jato demonstrou como a camarilha do Ministério Público havia sido comprada pelo imperialismo.
A viagem ao Paraguai é uma manifestação particularmente aberta dessa situação.
Não há qualquer interesse nacional brasileiro em “combater o Irã”. Há, ao contrário, interesse em desenvolver relações comerciais e políticas independentes com o país e com os demais integrantes dos BRICS.
O interesse em transformar o Irã em inimigo pertence a Washington.
O fato de o governo Trump pagar praticamente toda a viagem de um procurador brasileiro a uma conferência com esse objetivo mostra até onde chegou a promiscuidade entre o MPF e os Estados Unidos.
A instituição que durante a Lava Jato trabalhou lado a lado com o FBI e o Departamento de Justiça continua fornecendo quadros para iniciativas políticas do imperialismo.
A pergunta feita por Rui Costa Pimenta, portanto, não poderia ser mais apropriada: “Soberania ou colônia?”.





