O artigo A disputa estadista versus o arauto do caos, de Alberto Cantalice, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (25), incorre em dois erros principais. Primeiro, dirige-se apenas a quem já concorda com ele. Segundo, não leva em consideração que a burguesia ainda não fechou posição em torno de Flávio Bolsonaro e, até o momento, opera para levar ao Planalto um candidato de terceira via.
A prova de que a direita não está inclinada simplesmente a apostar no bolsonarismo está no fato de ter levado adiante o julgamento-farsa da chamada trama golpista e, mais recentemente, ter exposto o áudio de Flávio Bolsonaro conversando com Daniel Vorcaro sobre dinheiro, supostamente para financiar um filme sobre a vida de seu pai, Jair Bolsonaro.
No primeiro parágrafo, Cantalice afirma que “foge totalmente à razoabilidade e inteligibilidade o cenário da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro”. Segundo ele, será colocada à prova, nas eleições de 2026, a comparação entre “uma trajetória de quase 60 anos de serviços aos movimentos sociais, de luta contra a ditadura e de gestão pública” e “um despreparado parlamentar” que, “na ausência de predicados de moto próprio”, apresenta-se como representante do pai inelegível.
O argumento da “experiência” contra o “despreparo” tem alcance limitado. Lula também teve de ser eleito pela primeira vez sem ter experiência anterior no governo federal. Além disso, o fato de Flávio Bolsonaro apresentar-se como representante de seu pai não é, para a direita, necessariamente um ponto fraco. Pelo contrário, pode ser seu principal trunfo, uma vez que o bolsonarismo demonstrou conservar uma base eleitoral expressiva.
A tática do insulto
Cantalice também afirma que “é posta em causa nessa disputa a clarificação de uma espécie de dissonância cognitiva que faria corar” Elliot Aronson, autor de O Animal Social. Desde antes da eleição de Jair Bolsonaro, seus eleitores são tratados com insultos e nem por isso deixaram de apoiá-lo. A tática de ridicularizar o eleitorado direitista tem servido mais para afastar setores populares influenciados pela direita do que para disputá-los politicamente.
Cantalice afirma ainda que “não se trata aqui de demonizar o conservadorismo” e que “nem todo conservador é reacionário”. Na sequência, o autor apresenta como ponto de apoio a defesa abstrata da democracia, ao afirmar que a maioria dos brasileiros identifica esse regime como “a melhor forma de governo para o país” e repudia as “tentativas de golpe”, como as de 8 de janeiro de 2023.
A democracia burguesa, no entanto, não tem resolvido os problemas fundamentais da população. Ano após ano, as condições de vida dos trabalhadores pioram. Para a população explorada, o regime democrático burguês tem significado baixos salários, carestia, repressão, endividamento e retirada de direitos. Pequenas reformas, facilmente destruídas pela direita, não resolvem esse problema.
Outro ponto frágil do artigo é a afirmação de que “o Brasil construiu ao longo das décadas pós-Constituição de 1988 um robusto arcabouço de políticas sociais estruturantes”. A Constituição de 1988 foi atropelada inúmeras vezes pelo próprio regime político. Os petistas deveriam saber disso melhor do que ninguém: o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou sem provas dirigentes do PT no Mensalão, a Lava Jato prendeu Lula para tirá-lo da eleição de 2018 e a Carta passou a ser interpretada conforme os interesses do aparato judicial.
‘Conquistas’ sociais
Segundo Cantalice, entre essas conquistas “despontam o SUS, a universalização da educação, a ampliação do LOAS e a instituição do Bolsa Família”. O autor também menciona a demarcação de terras dos índios, a reforma agrária e os assentamentos rurais.
Talvez o autor não tenha precisado do SUS nos últimos anos. O sistema tem se deteriorado de maneira acentuada. Consultas, exames e remédios tornaram-se cada vez mais difíceis para a população trabalhadora. O teto de gastos imposto pelo golpista Michel Temer, que continuou pesando sobre os serviços públicos, asfixiou ainda mais o sistema de saúde.
O LOAS talvez seja um dos poucos casos em que se fala em ampliação enquanto trabalhadores pobres são excluídos do benefício. Já o Bolsa Família recebeu seu maior reajuste no governo de Jair Bolsonaro, quando o benefício passou de cerca de R$190,00 para R$600,00. O fato mostra a fragilidade do argumento de que a mera lembrança dos governos petistas basta para derrotar a direita.
Identitarismo
Cantalice afirma que o risco às conquistas sociais se estende às mulheres, aos negros e aos LGBT, pois “o machismo, o racismo e a lgbtfobia” fariam parte da regressão representada pelo bolsonarismo.
O problema é que o identitarismo está em franca decadência. A direita explora, com relativa facilidade, o autoritarismo dos setores identitários, que tentam impor posições rejeitadas pela maioria da população. A sociedade brasileira é majoritariamente conservadora em vários desses temas. Ignorar esse fato apenas facilita o trabalho da extrema direita.
Isso não significa negar direitos democráticos aos LGBT. Significa reconhecer que uma política baseada em coerção, patrulhamento, aumento de penas e repressão contra opiniões impopulares afasta a população trabalhadora. Quando a esquerda passa a defender punições, censura e intervenção do Estado em nome do combate a opiniões reacionárias, entrega à direita a bandeira das liberdades democráticas.
Censura
Quando Cantalice afirma que “as redes sociais amplificam o trombone da extrema direita” por causa da suposta simpatia das plataformas e da manipulação dos algoritmos, está presente a ideia de que é preciso censurar, limitar o uso das plataformas e punir usuários.
As medidas adotadas pelo governo para restringir as redes, apresentadas como forma de combater a extrema direita, aumentam, na prática, o poder das próprias plataformas e do Estado sobre os usuários. É uma política impopular e perigosa. Em vez de derrotar a direita, pode fortalecer a repressão contra a esquerda e contra os trabalhadores.
Cantalice afirma que “a esquerda brasileira, ciente da responsabilidade que é posta sobre os ombros, vai ter que aprender a se enfronhar nas redes digitais”. Nesse ponto, o autor toca em um problema real. A esquerda já deveria ter aprendido a utilizar amplamente esse instrumento. Em vez de reclamar de “fake news”, deveria disputar politicamente a população. As redes são um recurso relativamente democrático, e o aumento da censura só prejudica a intervenção política dos trabalhadores.
O autor conclui que “o legado de realizações dos governos petistas é incomparável a qualquer fase da vida política brasileira”. Mas é preciso olhar a situação com realismo. Bastou meio mandato do golpista Michel Temer para destruir grande parte do que havia sido feito nos governos de Lula e Dilma Rousseff. A burguesia mostrou, mais uma vez, que pode tolerar pequenas concessões por um período, desde que mantenha intacto o controle do regime político.





