Fernando Haddad saiu em defesa do PSDB. Em entrevista ao portal UOL, o ministro da Fazenda lamentou o enfraquecimento do antigo adversário do PT e afirmou que desejava que o partido voltasse a existir como uma força nacional.
“Eu também queria que o PSDB voltasse a existir”, declarou Haddad. Segundo o ministro, a legenda possuía “grandes quadros”, como Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso.
Haddad reconheceu que os tucanos defendiam privatizações e se opunham à valorização do salário mínimo. Mesmo assim, afirmou que PSDB e PT possuíam “um solo comum de conceitos, de valores” e lamentou que o País não tenha atualmente “um partido de centro-direita viável”.
A declaração não é um episódio isolado. Desde a ascensão do bolsonarismo, dirigentes petistas procuram apresentar o PSDB como uma direita civilizada, democrática e respeitável. Geraldo Alckmin deixou de ser um dos principais representantes da ofensiva da burguesia contra os trabalhadores para tornar-se “socialista” e vice-presidente de Lula. Fernando Henrique Cardoso passou a receber elogios como defensor da democracia.
Essa política procura recuperar os partidos tradicionais da burguesia, enfraquecidos pela ascensão do bolsonarismo. Em nome da luta contra a direita bolsonarista, o PT reabilita os responsáveis pelas privatizações, pelo golpe de 2016 e por décadas de ataques ao povo brasileiro.
Haddad chegou a lamentar, “como cidadão”, que o PSDB não tenha força para disputar novamente a Presidência. O ministro mostrou, dessa maneira, o grau de integração da direção petista ao regime político carcomido. O PT já não se limita a fazer acordos eleitorais com a direita. Passa a desejar abertamente que ela recupere sua força.
O partido das privatizações
É necessário recordar o que representaram os governos do PSDB. Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil de 1995 a 2002 e realizou uma das maiores operações de entrega do patrimônio nacional da história do País.
Seu governo privatizou a Companhia Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás, ferrovias, bancos estaduais e empresas dos setores elétrico, petroquímico e portuário. Atividades essenciais foram entregues a grandes grupos capitalistas brasileiros e estrangeiros por valores muito inferiores ao patrimônio acumulado durante décadas de investimento público.
A Vale, uma das maiores empresas de mineração do mundo, foi vendida em 1997. O sistema Telebrás foi dividido e entregue aos monopólios privados no ano seguinte. A privatização das telecomunicações é apresentada até hoje como um êxito tucano, embora tenha criado empresas gigantescas, beneficiadas com a infraestrutura construída pelo Estado e autorizadas a cobrar tarifas elevadas da população.
O dinheiro obtido nas vendas não resolveu o endividamento público. A dívida cresceu durante os dois mandatos, impulsionada pelos juros elevados e pela submissão ao capital financeiro. O governo ainda recorreu repetidas vezes ao Fundo Monetário Internacional, que exigiu cortes de despesas, restrições aos salários e novas concessões aos banqueiros.
A política de Fernando Henrique promoveu a abertura da economia às mercadorias e ao capital estrangeiro. Empresas nacionais fecharam, setores industriais perderam capacidade produtiva e milhares de trabalhadores foram demitidos.
Nas seis principais regiões metropolitanas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo a metodologia utilizada na época, a taxa média de desemprego passou de aproximadamente 4,6% em 1995 para mais de 7% em 2002. Em alguns dos anos mais graves, permaneceu próxima de 8%.
Esses percentuais escondiam uma situação ainda pior. Milhões de trabalhadores sobreviviam em ocupações ocasionais, sem contrato, salário regular ou direitos. Outros haviam desistido de procurar emprego e nem sequer apareciam na taxa oficial.
Dezenas de milhões passavam fome
A fome oferece a medida mais clara do desastre tucano.
O documento do Projeto Fome Zero, elaborado pelo Instituto Cidadania e apresentado em 2001, calculou que aproximadamente 44 milhões de brasileiros não possuíam renda suficiente para garantir uma alimentação adequada. Eram mais de nove milhões de famílias submetidas à fome ou à ameaça permanente de não ter o que comer.
O número correspondia a mais de um quarto da população brasileira daquele período. Não se tratava de uma pequena parcela localizada em regiões distantes. A fome atingia o campo, as periferias das grandes cidades, os trabalhadores desempregados e aqueles cujos salários não permitiam comprar os alimentos básicos.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura calculava que cerca de 18 milhões de brasileiros estavam subalimentados no triênio de 1999 a 2001. Isso significa que milhões de pessoas consumiam, de maneira contínua, menos alimentos do que o mínimo necessário para manter uma vida saudável.
As duas cifras medem problemas diferentes. O Projeto Fome Zero calculava a população cuja renda não permitia adquirir comida suficiente. A organização internacional estimava a subalimentação prolongada. Ambas demonstram, porém, que a fome alcançava dezenas de milhões no final do governo Fernando Henrique.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2002 e 2003 também revelou a extensão do problema. Quase metade das famílias brasileiras declarou ter dificuldade para garantir alimentação até o fim do mês. Uma parcela expressiva afirmou que os alimentos disponíveis eram insuficientes.
Essa era a obra social dos governos apresentados agora por Haddad como portadores de valores indispensáveis à democracia brasileira.
Sem casa e sem atendimento
A fome não era o único resultado da política tucana. No início do século, o déficit habitacional brasileiro superava cinco milhões de moradias, segundo os estudos da Fundação João Pinheiro. Milhões de pessoas viviam em favelas, cortiços, ocupações e casas sem condições adequadas de saneamento.
O governo privatizava empresas e pagava juros aos bancos enquanto grande parte da população não tinha acesso regular a água tratada e esgoto. Doenças relacionadas à pobreza continuavam matando crianças e adultos.
O Sistema Único de Saúde atendia a maioria da população, mas permanecia submetido à falta de recursos, de profissionais e de leitos. As filas, a demora para exames e a dificuldade de conseguir atendimento especializado faziam parte da vida de milhões de trabalhadores.
A situação não decorreu da falta de dinheiro no País. O Estado transferia somas enormes aos bancos por meio do pagamento de juros. A escolha do governo era proteger o capital financeiro, entregar as empresas públicas e deixar a população entregue à pobreza.
Um partido “democrático”
Haddad afirmou que os tucanos possuíam valores comuns com o PT, entre eles a defesa da democracia e da soberania nacional. O histórico do PSDB desmente as duas afirmações.
Fernando Henrique Cardoso comprou o direito de disputar a reeleição por meio de uma emenda constitucional aprovada sob denúncias de compra de votos de parlamentares. Seu governo utilizou as Forças Armadas contra a greve dos petroleiros de 1995, aplicou multas aos sindicatos e procurou destruir uma das mobilizações operárias mais importantes daquele período.
O governo tucano também aprofundou a submissão do Brasil ao imperialismo. Entregou empresas estratégicas, submeteu a política econômica ao FMI e aumentou o controle estrangeiro sobre setores decisivos da economia nacional.
Mais tarde, o PSDB dirigiu a ofensiva pelo golpe contra Dilma Rousseff. Seus dirigentes convocaram as manifestações que deram impulso à direita bolsonarista e apoiaram a derrubada de um governo eleito. O partido que Haddad trata como moderado abriu o caminho para Michel Temer e Jair Bolsonaro.
A maior parte da base que depois aderiu ao bolsonarismo foi inicialmente organizada nas mobilizações convocadas pelo PSDB, pela grande imprensa capitalista e pelos grupos financiados pela burguesia. O partido perdeu espaço porque a direita que ajudou a mobilizar escapou de seu controle.
Ressuscitar os tucanos
A defesa feita por Haddad corresponde às necessidades da frente ampla. A burguesia procura restaurar os partidos tradicionais porque eles são instrumentos mais disciplinados para aplicar sua política. O bolsonarismo possui uma base própria, entra em choque com setores do grande capital e provoca crises que os dirigentes burgueses nem sempre conseguem controlar.
O PSDB cumpria essa função com maior eficiência. Privatizava empresas, reprimia greves, pagava os banqueiros e submetia o País ao capital estrangeiro enquanto recebia o tratamento de partido moderno, técnico e democrático.
A direção do PT ajuda a reconstruir essa farsa. Em vez de denunciar o PSDB pelos crimes cometidos contra o povo, apresenta seus dirigentes como homens públicos respeitáveis e lamenta seu desaparecimento.
Essa política também procura apagar a experiência dos trabalhadores. Quem perdeu o emprego, passou fome, enfrentou filas nos hospitais ou viu o patrimônio nacional ser entregue durante os anos de Fernando Henrique deve agora acreditar que aquele era um período de civilidade.
Haddad considera uma “pena” que o PSDB tenha desaparecido. O partido que deixou 44 milhões de brasileiros sem renda suficiente para se alimentar, entregou a Vale, privatizou as telecomunicações e submeteu o País ao FMI é justamente a força que o ministro e a direção petista procuram ressuscitar.





