Flávio Bolsonaro declarou apoio à candidatura de Eduardo Cunha a deputado federal pelo Republicanos. Cunha, um dos principais responsáveis pelo golpe que derrubou Dilma Rousseff em 2016, retribuiu e anunciou apoio ao filho de Jair Bolsonaro na eleição presidencial.
Flávio fez questão de elogiar justamente a participação do antigo presidente da Câmara na derrubada de Dilma. A propaganda divulgada pelos dois também relembra o apoio que Jair Bolsonaro deu a Cunha durante a votação do impedimento na Câmara dos Deputados.
A aproximação expõe uma parte da história que tanto os Bolsonaro quanto boa parte da direita tradicional procuram esconder.
O golpe de 2016 foi organizado pelos partidos tradicionais da burguesia, com apoio da grande imprensa, do grande capital e de uma mobilização de direita nas ruas. Eduardo Cunha desempenhou um papel decisivo dentro do Congresso. Organizações como o MBL ajudaram a dar ao golpe uma aparência de movimento popular.
Jair Bolsonaro cresceu no interior dessa mobilização.
Até aquele período, Bolsonaro era um deputado conhecido, mas estava longe de ocupar a posição que alcançaria posteriormente na política nacional. A campanha para derrubar Dilma criou uma grande mobilização contra o PT e abriu espaço para o crescimento de uma direita mais radical. Bolsonaro soube aproveitar esse processo melhor do que os partidos que o haviam colocado em movimento.
A direita tradicional queria derrubar Dilma, colocar Michel Temer no governo e reorganizar o regime sob seu controle. Acabou preparando o terreno para a eleição de Bolsonaro em 2018.
Não houve, portanto, uma ruptura entre o golpe e o bolsonarismo. Houve continuidade.
Muitos dos personagens que participaram daquela operação tentaram depois trocar de roupa. Geraldo Alckmin, que esteve do lado do golpe, tornou-se vice-presidente de Lula. Simone Tebet, que votou pelo afastamento de Dilma, entrou no governo. Marina Silva, que também apoiou a derrubada da presidenta, voltou ao ministério.
Outros permaneceram no campo da direita e procuram agora uma nova colocação política.
Eduardo Cunha reaparece ao lado de Flávio Bolsonaro.
Isso cria um problema evidente para a propaganda do candidato do PL. Flávio procura herdar do pai a imagem de alguém perseguido pelas instituições e contrário à velha política. Busca falar ao eleitor bolsonarista que considera Jair Bolsonaro vítima do regime e vê sua família como adversária daqueles que controlam o País.
Só que um dos homens que aparece agora pedindo votos para Flávio é justamente Eduardo Cunha.
Cunha não é um personagem estranho ao sistema político brasileiro. Foi presidente da Câmara pelo então PMDB e peça fundamental na articulação parlamentar que derrubou um governo eleito. É um dos símbolos mais evidentes da operação conduzida pela direita tradicional em 2016.
A aliança deixa à mostra a farsa do caráter “antissistema” que o bolsonarismo procura atribuir a si próprio.
Jair Bolsonaro participou ativamente da campanha pelo impedimento de Dilma. Aproveitou a mobilização organizada pela burguesia e pela direita tradicional, cresceu politicamente com ela e chegou à Presidência dois anos depois. Agora, seu filho reivindica abertamente um dos principais responsáveis pelo mesmo golpe.
A contradição também revela o caráter da chamada renovação política que surgiu naquele período. O MBL e outros grupos foram apresentados como representantes de uma nova direita, supostamente indignada com a velha política e com a corrupção. Na prática, serviram de apoio de rua para uma operação conduzida por figuras como Cunha e pelos principais partidos da burguesia.
Bolsonaro beneficiou-se dessa mesma fraude.
Os setores tradicionais da direita imaginaram que poderiam utilizar a mobilização popular contra o PT e depois colocá-la novamente sob controle. Bolsonaro terminou por capturar grande parte dessa base eleitoral, relegando antigos partidos da direita a uma posição secundária.
Mais tarde, quando o bolsonarismo passou a entrar em conflito com setores do regime, iniciou-se outra falsificação: a tentativa de apresentar Bolsonaro como se ele sempre tivesse sido inimigo daqueles que promoveram o golpe.
O apoio de Flávio a Cunha recorda como as coisas realmente aconteceram.
O bolsonarismo foi impulsionado pela ofensiva que derrubou Dilma. Seus dirigentes participaram dela, fizeram propaganda por ela e cresceram graças à mobilização criada naquele momento.
Por isso, a atual aproximação não é uma incoerência casual. Flávio Bolsonaro está apenas retomando uma velha relação política.
O filho procura vender-se como candidato contra a velha política enquanto pede votos para um dos maiores símbolos do golpe de 2016. Cunha, por sua vez, encontra no herdeiro político de Jair Bolsonaro um caminho para voltar ao Congresso.
Dez anos depois, os personagens voltam a se encontrar. A relação entre o bolsonarismo e o golpe que derrubou Dilma nunca foi distante: sempre foi carnal.





