Editorial

Bolsonarismo sem Bolsonaro

Eduardo Bolsonaro, que representa a ala mais ideológica do bolsonarismo, continua sendo perseguido pelo aparato estatal

A Procuradoria-Geral da República pediu, nesta segunda-feira (11), a condenação de Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação no curso do processo. O caso envolve a atuação do ex-deputado federal junto a autoridades dos Estados Unidos para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) durante o julgamento da chamada “trama golpista”, no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi condenado.

Segundo a acusação apresentada pela PGR, Eduardo Bolsonaro teria buscado apoio no exterior para impor sanções, tarifas e outras medidas de retaliação contra o Brasil como forma de constranger ministros do STF. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que a atuação do ex-deputado foi “continuada” e teria ultrapassado o limite da discordância política, ingressando no terreno da criminalidade.

O episódio ocorre em um momento em que setores da burguesia procuram reorganizar a direita brasileira para o próximo período. A rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF demonstrou que a burguesia já está unificada na oposição ao governo Lula e, muito provavelmente, à sua reeleição. Agora, com Jair Bolsonaro condenado e fora do centro imediato da disputa eleitoral, a questão que se coloca para os partidos da direita, para a imprensa capitalista e para os setores dominantes é como forjar uma candidatura que não esteja sob pressão de um movimento de massas como o bolsonarismo.

É nesse quadro que a ofensiva contra Eduardo Bolsonaro ganha importância. Ele integra a ala mais ideológica do bolsonarismo, ligada diretamente ao trumpismo e à política de enfrentamento com o STF. Seu caso não atinge apenas um integrante da família Bolsonaro, mas um setor específico do bolsonarismo: aquele que defende manter a mobilização de extrema direita em choque permanente com as instituições.

Flávio Bolsonaro, por seu turno, representa uma capitulação do bolsonarismo. Caso venha a ser o herdeiro eleitoral do pai, a tendência é que seja um candidato esvaziado do radicalismo bolsonarista. Em vez de uma candidatura de enfrentamento aberto com o STF e com os demais setores do regime, seria uma candidatura mais controlada, mais aceitável para a imprensa burguesa, para o Judiciário e para o grande capital.

Flávio Bolsonaro, nesse sentido, poderia cumprir o papel de uma versão domesticada do bolsonarismo. Manteria o nome Bolsonaro, importante para preservar a ligação com a base eleitoral da extrema direita, mas seria apresentado como um político mais institucional, mais previsível e mais dependente do grande capital. O conteúdo de sua candidatura se aproximaria, assim, de uma direita “tradicional”, semelhante ao que foi o PSDB.

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