Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, afirmou, nesta sexta-feira (22), em sua entrevista semanal à TV 247, que a crise de Flávio Bolsonaro não deve levar a uma subestimação da extrema direita.
Ao comentar a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, após as denúncias envolvendo o Banco Master, Pimenta afirmou que o bolsonarismo mantém uma base social importante e uma organização política consolidada.
“O bolsonarismo é muito forte, todo mundo subestima o bolsonarismo. Eles pensam que o bolsonarismo é um fenômeno de uma flutuação na opinião das pessoas. Não é assim. Você tem aí um bloco importante de extrema direita no País que envolve vários setores da sociedade que são importantes. Envolve militares, envolve o aparato de repressão, envolve as igrejas evangélicas. Envolve muita coisa, eles têm um grande número de pessoas que fazem a propaganda do Bolsonaro, e eles têm um esquema de propaganda bem montado, não é uma coisa qualquer, é um movimento bem organizado”, afirmou.
Segundo Pimenta, a denúncia contra Flávio Bolsonaro teve impacto porque foi assumida pelos grandes jornais e pela Rede Globo. Para ele, isso demonstra o peso da burguesia sobre a eleição, mas não significa que o ataque ao candidato bolsonarista tenha como objetivo favorecer Lula.
“A eleição é muito manipulável, essa que é a realidade. E nós não sabemos como vai ser a manipulação eleitoral. Eu acho um erro presumir que o ataque contra o Flávio Bolsonaro é a favor do Lula. Eu acho que não é isso. Tudo bem, quem está defendendo a candidatura do Lula festeja a situação difícil em que o principal adversário ficou colocado. Mas precisa ser realista, porque assim como eles atacaram contra o Flávio, podem manipular contra o Lula também”, disse.
Pimenta avaliou que a burguesia continua tentando abrir espaço para uma terceira via, embora essa alternativa ainda pareça inviável. Ao comentar a possibilidade de uma candidatura de Joaquim Barbosa, o presidente do PCO classificou a movimentação como negativa e relembrou o papel do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal no processo do Mensalão.
“Vamos lembrar aqui todo mundo quem é o Joaquim Barbosa. Joaquim Barbosa foi indicado para o STF pelo Lula, se não me engano. E uma vez no STF ele foi o comandante e praticamente o instrumento do processo contra o PT, contra os dirigentes do PT, contra o Zé Dirceu, contra o José Genoino e outros dirigentes do PT, no famoso processo do Mensalão, que foi um processo totalmente irregular, que acabou condenando os dirigentes do PT sem provas”, afirmou.
Ofensiva dos EUA na América Latina
Pimenta também analisou a situação da América Latina. Sobre Cuba, afirmou que uma invasão com tropas terrestres parece improvável, mas advertiu para a possibilidade de uma agressão imperialista. O dirigente relacionou o indiciamento de Raúl Castro nos Estados Unidos ao método utilizado contra Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
“Invasão, tropas no terreno, acho um pouco difícil. Mas eu acho que pode haver uma agressão imperialista contra Cuba. Esse indiciamento nos Estados Unidos do Raúl Castro é preocupante, porque é o mesmo esquema que eles aplicaram com o Nicolás Maduro. Acusaram ele de ser chefe de um cartel, uma acusação absurda. E agora eles pegaram um acontecimento de anos atrás para indiciar o Castro e justificar a invasão”, disse.
Ao tratar da deportação de Alex Saab pela Venezuela, Pimenta afirmou que a medida foi “um mal sinal” e uma decisão “muito negativa”. No entanto, considerou precipitado concluir que o governo venezuelano tenha mudado completamente de posição diante dos Estados Unidos.
“Muita gente fala: ‘é traição, traição, traição’. Eu queria dizer o seguinte: a política dos governos nacionalistas, se nós analisarmos a história deles, é uma política errática. Eles fazem muita coisa errada, muita coisa que se volta, inclusive, contra eles. Então é difícil você tirar a conclusão de um determinado fato de que o pessoal mudou totalmente de conduta. Que isso daí é ruim, não tem dúvida nenhuma, porque para que deportar o cidadão para os Estados Unidos?”, afirmou.
Sobre a Bolívia, Pimenta disse que a revolta popular contra o governo Rodrigo Paz pode representar o primeiro grande movimento de contestação da nova onda neoliberal na América Latina. Segundo ele, ainda é cedo para prever se os protestos conseguirão derrubar o governo, mas o caso pode indicar um caminho para outros países.
“É difícil dizer isso ainda. Eu acho que nós temos que acompanhar o que está acontecendo na Bolívia, vamos ver até onde vai o movimento, se eles conseguem derrubar esse governo. Agora, o alcance é difícil de prever por enquanto, mas uma coisa é certa: é um primeiro grande movimento de contestação dessa nova onda neoliberal. E isso daí é importante, porque pode ser que marque o caminho dos demais países”, afirmou.
Pimenta também comentou as ameaças feitas por Marco Rubio contra lideranças populares bolivianas. Para ele, uma intervenção direta dos Estados Unidos seria uma aventura perigosa.
“Pode acontecer. Agora, que seria uma loucura total, seria. O governo Trump tem que tomar cuidado com o que ele vai fazer em Cuba, o que ele vai fazer na Bolívia, porque a bomba pode explodir na cara dele”, disse.
Governo Lula e censura
Na entrevista, Pimenta criticou os decretos do governo Lula sobre as redes sociais. Para ele, a chamada regulamentação das grandes empresas de tecnologia atinge, na prática, os usuários, jornalistas e organizações políticas.
“Esse é um aspecto, na minha opinião, um dos mais negativos do governo Lula. Ele sancionou um outro decreto autorizando a remoção de conteúdo, bastando apenas uma pessoa denunciar. E, como todo decreto desses de censura na Internet, eles são vagos e dão muito poder às redes sociais. O pessoal fala assim: ‘regulamentação das Big Techs’. Na verdade, é uma regulamentação dos usuários”, disse.
Ao comentar o apoio da Globo aos decretos, Pimenta advertiu que a esquerda deve observar com atenção esse tipo de alinhamento.
“Se a Rede Globo está gostando tanto disso, não é bom. Não é bom”, afirmou.
Segundo Pimenta, o nível de censura no Brasil já é elevado. Ele afirmou que a Internet teve papel decisivo para expor a política de “Israel” contra Gaza, o que assustou a burguesia e os defensores do sionismo.
“A Internet realizou uma das maiores proezas políticas dos últimos 100 anos. Ela demoliu toda a história do sionismo em torno do mito da perseguição com esse negócio de Gaza. Isso aí foi uma coisa espantosa e assusta muito a burguesia. Tem que cercear de todas as maneiras possíveis e imagináveis”, afirmou.
Pimenta também avaliou medidas recentes do governo Lula, como o fim da taxa das blusinhas, subsídio na gasolina, programas sociais e crédito para motoristas de aplicativo. Segundo ele, são medidas com algum impacto, mas fundamentalmente eleitorais.
“O PT, o Lula, até pouco tempo atrás, estava com essa linha política: esse negócio de que o mundo está às mil maravilhas, a economia vai bem, o Brasil está reconstruído. Isso aí não vira nada na população. O programa Desenrola, acabar com a taxa das blusinhas, subsídio na gasolina, pacote de bondades, é óbvio pela mudança de política que a política anterior estava mal concebida”, disse.
Para Pimenta, o governo Lula demorou para perceber a situação econômica da população. Ele afirmou que indicadores gerais de emprego e renda não foram suficientes para alterar a vida concreta dos trabalhadores, que seguem pressionados pelo custo de vida.
Neymar e a Seleção
Na parte final da entrevista, Pimenta comentou a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira. Ele defendeu a presença do jogador e criticou setores da esquerda que rejeitam a convocação por razões políticas.
“Eu acho que a convocação dele era inevitável. É o melhor jogador de futebol que o Brasil tem, sem dúvida alguma, muito superior ao resto. É um grande jogador. Ele é o melhor agora. Ele é uma pessoa de muita capacidade. Então eu acho que era inevitável que ele fosse convocado”, afirmou.
Pimenta disse que jogadores devem ser convocados pelo futebol que apresentam, não por suas opiniões políticas. Para ele, a rejeição ao Neymar por parte de setores da esquerda expressa uma posição sectária e distante do sentimento popular.
“O jogador de futebol deveria ser convocado não pelas opiniões políticas. O Joaquim Barbosa foi o ministro negro do STF, foi um desastre total. Você tem que convocar os jogadores não porque o jogador é preto, é branco, é gay, é transexual. Tem que convocar ele pelo futebol que ele joga. E eu acho que esse sectarismo da esquerda é muito prejudicial para a própria esquerda, porque o povo estava torcendo para o Neymar ser convocado”, disse.
Segundo Pimenta, o Brasil sempre tem condições de vencer a Copa do Mundo. Para ele, o principal obstáculo não está na qualidade dos jogadores, mas na disposição da equipe para disputar o torneio.





