A Bolívia está sob uma ampla mobilização popular contra o governo do presidente Rodrigo Paz. A Central Operária Boliviana (COB) mantém uma greve geral por tempo indeterminado, que já atinge setores estratégicos do país e aumenta a pressão sobre o governo, acusado pelas organizações sociais de não responder à crise econômica, à falta de combustíveis e às reivindicações salariais.
Segundo a emissora venezuelana teleSUR, a paralisação envolve bloqueios em La Paz, El Alto e diversas regiões rurais. Informes da polícia boliviana citados pela emissora apontam a existência de 67 pontos de bloqueio em áreas rurais, dos quais 50 estão concentrados no departamento de La Paz. A mobilização ganhou força com a chegada de camponeses aimarás de 29 províncias, que passaram a reforçar o cerco às principais cidades do altiplano boliviano.
O movimento foi convocado pela COB, pela Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia e por diversos setores sindicais. Entre as principais reivindicações estão o aumento salarial, a defesa do abastecimento de combustível com qualidade certificada, a rejeição a mudanças na legislação trabalhista, a oposição à descentralização educativa e o atendimento de um conjunto de 111 demandas apresentadas pela COB ao governo.
A crise energética também tem forte impacto no transporte. A Federação de Choferes de La Paz aderiu aos protestos, denunciando problemas com a qualidade da gasolina distribuída no país. Os transportadores afirmam que o combustível contaminado causa danos aos motores e reduziu a circulação do transporte público. Segundo as informações divulgadas, a operatividade do setor teria caído para cerca de 30%.
Os mineiros também passaram a integrar a mobilização. A Federação de Cooperativistas Mineiros de La Paz anunciou sua participação nas marchas e bloqueios após criticar a ausência de Rodrigo Paz em uma mesa de diálogo. O setor denuncia escassez de combustível, falta de material explosivo e demora na liberação de novas áreas de exploração. Os dirigentes mineiros afirmam ainda que estão sendo excluídos das decisões sobre a legislação do setor e classificam determinadas medidas do governo como “pacotaços”.
A paralisação já provoca efeitos sobre o abastecimento. Diante do risco de escassez de alimentos em La Paz e El Alto, o governo anunciou medidas de emergência, entre elas a criação de uma ponte aérea para transportar carne bovina e frango a partir de Santa Cruz. A medida mostra a extensão da crise provocada pelos bloqueios e pela incapacidade do governo de chegar a um acordo com os trabalhadores.
O setor empresarial também passou a pressionar por uma solução. De acordo com a teleSUR, o presidente da Câmara Departamental de Indústrias de La Paz, José Eduardo Iriarte, afirmou que a indústria local perde entre 2 e 3 milhões de dólares por dia, o departamento entre 10 e 15 milhões, e o país entre 50 e 60 milhões de dólares diários por causa dos cortes de rota. Ele também alertou para riscos de falta de insumos médicos, alimentos e outros produtos básicos.
Apesar da gravidade da situação, o governo Rodrigo Paz rejeita as exigências mais importantes do movimento. O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, classificou a reivindicação de renúncia do presidente como uma “ofensa ao voto popular” e afirmou que o governo constitucional, com apenas seis meses de gestão, deve ser respeitado. Paz, por sua vez, declarou pelas redes sociais que seu governo estaria “fortalecido” e chamou dirigentes e bases sindicais a um processo de reconciliação.
A resposta oficial, no entanto, não conseguiu desmobilizar os setores populares. Parte dos manifestantes exige diretamente a renúncia do presidente. A COB chegou a afirmar que não há “segunda alternativa” e acusou Paz de enganar e não escutar as demandas do povo. Outros setores, embora mantenham reivindicações econômicas específicas, também responsabilizam o governo pela deterioração das condições de vida.





