Editorial

Bipartidarismo ‘para inglês ver’

Eleição britânica para vereadores esmagou trabalhistas e conservadores e revelou o esgotamento do regime político

O Reino Unido realizou, nesta semana, eleições para vereadores que, embora não decidam o governo nacional, expuseram uma mudança importante no regime político britânico. Os dois partidos que dominaram a vida institucional inglesa durante quase um século, o Partido Trabalhista e o Partido Conservador, foram duramente derrotados. A maior votação ficou com o Reform UK, partido de extrema direita liderado por Nigel Farage.

A imprensa imperialista apresentou o resultado como o início de um “multipartidarismo” na Inglaterra. A formulação registra apenas a aparência do fenômeno. O dado central é a crise do regime político britânico, o último regime relativamente estável entre as grandes potências imperialistas europeias.

O bipartidarismo inglês foi a forma política por meio da qual os monopólios e os serviços de informação britânicos controlaram o conjunto do regime, utilizando dois partidos confiáveis, com quadros próprios, tradição política e capacidade de governar em nome do imperialismo britânico.

O partido de Farage, por sua vez, foi promovido pela imprensa, por setores dos serviços de informação, por políticos burgueses e pelos próprios capitalistas como alternativa diante da crise dos partidos tradicionais. Farage, principal figura do Brexit, veio do Partido Conservador. Sua organização pertence à extrema direita do regime, à maneira de Giorgia Meloni na Itália.

Essa operação, porém, tem limites. Os partidos que controlam o regime político de uma potência imperialista não podem ser improvisações. Precisam de quadros, programa definido e confiança por parte do grande capital. O Reform UK é um partido recente, instável e cheio de disputas, o que o torna menos seguro para a burguesia britânica.

A experiência italiana ajuda a entender o problema. Partidos de extrema direita chegaram ao governo, foram incorporados pelo grande capital em suas cúpulas e perderam força como alternativa própria, sem conseguir substituir os partidos tradicionais. A Itália vive, desde então, uma crise permanente de governo, obrigada a costurar acordos cada vez mais frágeis. No caso britânico, o problema é mais grave, pois envolve a desagregação de um dos regimes políticos mais centralizados do imperialismo mundial.

A eleição inglesa ainda apresentou uma segunda tendência, que a imprensa imperialista procura minimizar. Os partidos à esquerda do trabalhismo também cresceram. O Partido Verde foi apresentado como a principal força “de esquerda” beneficiada pela crise, como possível substituto do Partido Trabalhista. Trata-se, no entanto, de uma organização sem a força necessária para reorganizar o regime e aberta à pressão direta da burguesia.

O dado mais importante é o surgimento eleitoral, ainda inicial, de partidos ligados a Jeremy Corbyn e George Galloway, que elegeram seus primeiros vereadores. Esses setores expressam uma ruptura com o trabalhismo, sobretudo em meio ao desgaste provocado pela política pró-imperialista do partido.

Diversos setores sindicais vêm se deslocando do Partido Trabalhista em direção a essas novas formações. A mobilização britânica em defesa da Palestina e contra o sionismo é uma das mais importantes da Europa. Ao mesmo tempo, a campanha imperialista de acusar Corbyn de antissemitismo vem perdendo força.

A defesa abstrata da “democracia”, utilizada pelos regimes europeus para tentar conter a própria crise, passou a ser dirigida também contra a esquerda que rompe com o trabalhismo, apresentada como extremista e antissemita. O método, porém, mostra desgaste cada vez maior.

A eleição não importa apenas pelo resultado imediato. O fundamental é o que ela revela sobre a evolução dos regimes políticos europeus. Nos últimos anos, vários países da Europa passaram por experiências com partidos improvisados, que chegaram ao governo e, depois, devolveram o poder aos partidos tradicionais. Foi assim em Portugal, na Espanha e, em certa medida, na Itália. Na Alemanha, os partidos tradicionais ainda resistem, mas o regime está profundamente debilitado.

A eleição britânica marca uma etapa mais avançada desse processo. O problema já não é apenas o desgaste dos partidos do regime, mas a perda do monopólio que eles exerciam sobre a vida política. Toda a estrutura partidária inglesa entra em crise sem que exista, até agora, uma força capaz de substituir o bipartidarismo nas funções que ele cumpria para o imperialismo britânico.

A crise é resultado direto da decomposição do capitalismo. A classe trabalhadora dos países imperialistas só consegue se manifestar politicamente quando a crise nas cúpulas abre brechas no regime. É o que ocorre no Reino Unido. A desagregação do regime britânico, somada à crise do bipartidarismo norte-americano expressa na eleição de Donald Trump, indica que o imperialismo entrou em uma nova fase de instabilidade política em seus próprios centros.

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