Luta pela terra

Assassinatos no campo crescem 100% em 2025

Comissão Pastoral da Terra publica seu tradicional Relatório de Conflitos no Campo relativo ao ano de 2025 e revela que assassinatos crescem 100%, mostrando o que está por vir

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou no último dia 27 de abril o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025. O relatório neste ano completa 40 anos de monitoramento e é referência nos indicadores sobre conflitos e mortes no campo em decorrência de questões agrárias.

O relatório deste ano revela que, apesar da redução dos registros de conflitos, houve um aumento exponencial do número de assassinatos. Outro dado importante é a redução do número de mobilizações dos movimentos sociais de luta pela terra no ano passado.

Segundo os dados do relatório elaborado pela CPT, no ano de 2025 os assassinatos cresceram 100% comparados com os dados de 2024. Foram 26 assassinatos em 2025 diante de 13 no ano anterior, representando um grande aumento diante da redução desses números nos primeiros anos do governo Lula.

Os estados do Pará e Rondônia lideram essa vergonhosa lista com sete assassinatos cada, seguidos pela Bahia (4), Paraná (2), São Paulo (2), Minas Gerais (1) e Mato Grosso do Sul (1).

Desses 10 assassinados, eram sem-terra, sete índios, quatro posseiros, um assentado da reforma agrária e 2 apoiadores.

No ano passado 855 mil pessoas foram atingidas de alguma maneira pela violência referente aos conflitos no campo, houve pelo menos 105, ameaçadas de morte e 5 sofreram tortura.

1.907 famílias foram expulsas da terra e 14.140 sofreram tentativas ou ameaças de expulsão. Outras 3.422 foram despejadas e 19.360, ameaçadas de despejo. Há também registros de casas (3.419), roças (2.569) e bens (5.411) destruídos.

Duas chacinas registradas em 2025

No ano passado, duas chacinas ficaram registradas pela barbaridade e crueldade dos assassinatos e foram as principais responsáveis pelo aumento do número de mortes.

Em Rondônia, no dia 16 de junho de 2025, no município de Vilhena (RO), três posseiros foram assassinados e seus corpos carbonizados dentro de uma casa incendiada por grileiros. O local foi o sítio de Josenir Vieira de Oliveira, de 57 anos, um pequeno agricultor presidente da Associação de Pequenos Produtores do Vale do Lambari (ASPROVAL). Essa entidade foi responsável por agrupar as famílias de posseiros que ocupam o Vale do Lambari, uma área de terra pública situada nas proximidades da disputada área da Fazenda Vilhena do Pensamento, um antigo latifúndio que já foi palco de chacinas.

Outra ocorreu alguns dias depois, em 19 de julho de 2025, no Assentamento Coco II, sob a bandeira do MST e localizado no município de Itupiranga, onde três trabalhadores rurais foram emboscados, sequestrados, assassinados e tiveram seus corpos incinerados. Até o momento, as investigações não avançaram e não há responsabilização dos suspeitos apontados pela comunidade.

Nos dois anos anteriores (2023 e 2024) não havia sido registrada nenhuma chacina no campo.

Assassinatos crescem apesar da diminuição dos registros de conflitos

No ano de 2025, o número de ocorrências de conflitos no campo reduziu (de 2.207, em 2024, para 1.593, no ano passado) e também foi registrada uma diminuição no número de vítimas, de 1.181 no ano de 2024 para 581 indivíduos em 2025.

Esse dado apresenta uma informação importante, que mesmo com redução do número de conflitos e de pessoas envolvidas, sendo uma sequência de três anos com os números mais baixos da década, há um aumento muito grande de assassinatos e da violência estatal.

Há um aumento qualitativo da violência, apontando que latifundiários, grileiros e Estado estão mais à vontade para cometer seus crimes; e, com a aproximação das eleições, essa situação tende a ficar ainda mais grave.

Aumento da violência estatal

A respeito das ocorrências de violências, houve também diminuição em relação ao ano de 2024, em que foram notificados 1.548 casos e, no ano passado, 978, o que representa um recuo de aproximadamente 37%. No entanto, houve um aumento substancial de prisões de integrantes da luta pela terra (de 71 para 111), casos de humilhação (de cinco para 142) e cárcere privado (de um para 105).

O aumento da violência do Estado está relacionado a uma política mais agressiva contra a luta pela terra e aos acordos da esquerda com setores dos latifundiários que ficam em silêncio diante do aumento da violência. Esse comportamento fica muito claro em relação ao Ministério dos Povos Indígenas, Ministério dos Direitos Humanos, Ministério do Desenvolvimento Agrário e ao Ministério da Justiça, que se calam diante das arbitrariedades e dos abusos das forças policiais e do judiciário. Os estados da Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará e Rondônia são conhecidos pela atuação contrária aos sem-terra, posseiros e índios, e essas autarquias ficam em silêncio.

O relatório é um documento importante para mostrar um pouco da realidade da violência no campo e demonstrar que a política do governo federal ainda é muito tímida e sem nenhum resultado prático.

Existe uma paralisia nos processos de reforma agrária, demarcação de terras dos índios e quilombolas, políticas de apoio e desenvolvimento de pequenos agricultores quase nulas. Um governo que não denuncia a violência no campo estimula setores da direita latifundiária a criarem suas organizações com características fascistas, como o movimento Invasão Zero, que organiza milícias no campo e aumenta a violência contra os integrantes da luta pela terra.

O governo Lula está terminando seu mandato sem nenhuma criação efetiva de assentamentos da reforma agrária, a criação de pouco mais de 20 terras dos índios e a implementação de uma política das ONGs imperialistas com discurso ambiental e antidesenvolvimentista.

É muito pouco para um resultado efetivo na melhoria de vida da maioria das pessoas do campo.

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