O PSOL, partido que surgiu de uma dissidência oportunista do PT 20 anos atrás, sob um discurso moralista “contra a corrupção”, sempre tentou se apresentar como uma renovação na esquerda e uma alternativa socialista ao PT.
Contou, desde o primeiro minuto de jogo, com o patrocínio da burguesia e do imperialismo para realizar tal empreitada. Cerrou fileiras com o PSDB e com o bolsonarismo em ascensão na campanha lavajatista e é amplamente conhecido como o partido das ONGs imperialistas no País.
Um partido como esse, com uma base social pequeno-burguesa liberal e cada vez mais reacionária, só pode conseguir alguma coisa graças às benesses do regime. Contraditoriamente, ao se integrar profundamente ao regime para garantir essas benesses, o PSOL se afunda conforme o próprio regime também entra em crise.
O PSOL se rebaixou ainda mais, após o lavajatismo e o onguismo, ao se fundir com a Rede – um partido que já era seu irmão político e ideológico, braço das ONGs ambientalistas financiadas por bancos como o Itaú e especuladores estrangeiros como George Soros. A justificativa para se fundir com a Rede foi a necessidade de vencer a cláusula de barreira, fruto do golpe de 2016, que o PSOL apoiou.
Em um primeiro momento, o partido conseguiu escapar. Agora, no entanto, foi atingido pela medida antidemocrática. Nem a fusão com um partido de direita como a Rede assegurou ao PSOL ultrapassar a cláusula em 2026.
Um dos motivos foi que o partido, apresentando sintomas terminais de decomposição política e ideológica, transformou-se integralmente em um aparato para o carreirismo eleitoral de alguns de seus chefes. Os recursos do PSOL se concentraram na reeleição da pop estar Érika Hilton, que teve votação recorde. Tudo isso em detrimento do restante do partido em São Paulo, cujos candidatos não conseguiram ultrapassar o número mínimo de votos. Não adiantou a votação recorde de Hilton – a não ser para sua autopromoção. Agora o PSOL perdeu mais uma boquinha, embora a de Hilton esteja mais cheia do que nunca.
De fato, o resultado dessas eleições, como já era uma tendência desde o golpe de 2016, foi de uma vitória avassaladora do bolsonarismo e dos políticos que pegaram carona em Bolsonaro. A direita venceu com folga e a esquerda obteve uma derrota acachapante.
Os ativistas da esquerda reconhecem, e são os que mais choram por isso, que a direita ou extrema-direita está nadando de braçadas. Culpam o povo por isso, como sempre. Deveriam, portanto, ter um pensamento crítico uma vez na vida e questionar: como é possível que candidatos que se dizem comunistas e revolucionários, em um cenário tão catastrófico, tenham sido eleitos?
Porque, curiosamente, o PSOL elegeu 14 deputados federais, sendo que cinco deles se autoproclamam da “esquerda radical”. São eles Sâmia Bomfim (SP), Glauber Braga (RJ), Fernanda Melchionna (RS), Jones Manoel (PE) e Fábio Félix (DF). Sâmia, Glauber e Melchionna se reelegeram, enquanto Jones e Félix estão estreando em Brasília.
Todos esses políticos são adoradores das instituições da burguesia, como é comprovado por seu apoio à perseguição do STF (tribunal de Daniel Vorcaro) aos bolsonaristas, à sua caçada à liberdade de expressão e defesa de penas contra o trabalhador comum que não diz “amém” à cartilha da Open Society.
Todos esses candidatos se apresentam como revolucionários, comunistas ou radicais. Sâmia e Melchionna fazem parte do MES, corrente interna do PSOL que se passa por trotskista. Jones Manoel é proveniente do PCB e até hoje jura de pés juntos que é comunista, embora tenha abandonado qualquer tipo de programa para conseguir se eleger pelo PSOL.
O partido ainda elegeu deputados estaduais que, igualmente, se apresentam como comunistas ou radicais. É o caso de Débora Camilo (SP), que mistura um ecletismo absolutamente despolitizado, dizendo-se comunista, internacionalista, feminista, antirracista e gostosa. No Rio de Janeiro, Renata Souza foi eleita deputada estadual em 2018 com apoio do PCB na chapa “Mudar é Possível” e foi candidata à prefeitura em 2020 com apoio de PCB e UP na chapa “Um Rio de Esperança” – esses lemas que intitulam suas chapas, como tem sido costume na esquerda pequeno-burguesa brasileira, não passam de imitação barata da esquerda identitária europeia, guia da esquerda brasileira, como o “Unidas Podemos” da Espanha.
Dani Monteiro (RJ) foi eleita deputada estadual ainda em 2018 pela mesma chapa com o PCB e Luciana Boiteux é uma antiga aliada do PCB e da UP, apresentando-se como uma política da ala esquerda do PSOL. Flávio Serafini, que também foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, é igualmente caracterizado como membro da ala esquerda do PSOL, embora ser da ala esquerda do PSOL carioca não signifique muita coisa: no Rio, o grande expoente do PSOL sempre foi Marcelo Freixo, amigo da polícia, financiado por Armínio Fraga. O PSOL carioca foi o mais lavajatista de todos os setores da política brasileira.
Luciana Genro (RS) também foi reeleita deputada estadual. Assim como Sâmia e Melchionna, ela é do MES e se diz trotskista. Assim como suas colegas de carreira, apoiou ufanisticamente a Operação Lava Jato, ao ponto de comemorar nos jornais: “Viva a Lava Jato!”. Matheus Gomes e Karen Santos também são do MES e também se elegeram deputados estaduais no Rio Grande do Sul.
Dentre outros grandes revolucionários eleitos em uma eleição onde o bolsonarismo foi o franco vencedor estão Renato Freitas (PT-PR) e Elias Jabbour (PCdoB-RJ) para a Câmara dos Deputados. Freitas, que foi perseguido após as eleições de 2018, passou a apoiar as arbitrariedades judiciais sob a desculpa do combate ao racismo. Jabbour é o grande especialista em China no Brasil, embora nunca tenha parado para pensar que a única maneira de o Brasil se tornar um país tão desenvolvido quanto a China seja realizando aqui uma revolução social – ele acredita que Ciro Gomes, quem apoiou em 2018, é um nacionalista que poderia desenvolver o País. Também é funcionário de Eduardo Paes (PSD), prefeito neoliberal e direitista do Rio.
O PCdoB elegeu ainda, para deputado estadual no Rio Grande do Sul, Humberto Matos, youtuber do canal Saia da Matrix. Identitário, Matos espalha entre seus seguidores a ideia apregoada por pseudo-historiadores/ideólogos do PSDB, como Lilian Schwarcz, de que deve ser feita tábula rasa da história nacional e entregar o país ao imperialismo, abandonando a integridade territorial, as conquistas nacionais e as riquezas a serem exploradas pelo País. Apresentando-se também como feminista, na esteira do feminismo identitário financiado por Soros, afirma que todos os acusados por assédio devem provar sua inocência, recebendo por isso os aplausos dos tribunais da inquisição do Estado burguês.
O PT também elegeu influenciadores: Ana Elisa (MG) e Thiago Foltran (PR) ocuparão vagas na Assembleia Legislativa de seus respectivos estados.
Em tempos de censura do Judiciário, ditadura dos algoritmos das empresas de tecnologia (denunciada pela própria esquerda) e despolitização do debate político, como é possível que esses influenciadores tenham sido eleitos?
É simples: eles não fazem cócegas aos interesses da burguesia e do imperialismo. Como é admitido por toda a esquerda, a correlação de forças atual é nitidamente favorável à direita, tanto é assim que o bolsonarismo venceu de lavada essas eleições. Em condições como essa, de fragilidade dos trabalhadores, eles não conseguem romper com as amarras estabelecidas pelas instituições da burguesia, muito menos em uma eleição, que é totalmente controlada pela classe dominante.
Na década de 1980, o PT cresceu eleitoralmente, elegendo parlamentares e prefeitos, porque a correlação de forças era diferente: as greves do ABC derrubaram a ditadura, espalharam-se por todo o País, nas cidades e no campo, e mobilizaram milhões de trabalhadores. A pequena burguesia foi arrebatada por essa mobilização, acompanhando eleitoralmente os trabalhadores, que levaram a burguesia ao seu ponto mais baixo em décadas.
Foi por isso que o PT se transformou na poderosa máquina eleitoral que dominou a política brasileira por 30 anos. O ascenso dos trabalhadores criou novas condições favoráveis, que se expressaram na eleição de representantes dos sindicatos e dos movimentos populares e levaram o PT à presidência da República décadas depois.
Hoje a situação é inversa. Há um consenso de que a onda é de direita, o que é comprovado pelos resultados eleitorais dos últimos dez anos. Nessas condições, de baixa na atividade dos trabalhadores e fragilidade da esquerda, somente candidatos comprometidos com a burguesia e o imperialismo podem ser eleitos.
Eles se apresentam como esquerdistas radicais, socialistas, comunistas e até mesmo revolucionários. Sua prática e suas ideias mesmo entregam quem eles são.
Como deputados, aqueles que se iludiram com sua propaganda demagoga perceberão que não passam de charlatães.



