Mais de dois anos depois da morte de Hind Rajab, o Exército israelense reconheceu pela primeira vez que suas tropas dispararam contra o carro no qual estava a menina palestina de cinco anos.
Hind morreu em 29 de janeiro de 2024, quando sua família tentava deixar uma área da Cidade de Gaza. O automóvel foi atingido por centenas de disparos. A menina permaneceu dentro do veículo, cercada pelos corpos de familiares, enquanto pedia socorro por telefone ao Crescente Vermelho Palestino.
Sua prima Layan, de 15 anos, também conseguiu falar com os socorristas antes de ser morta.
O caso tornou-se um dos episódios mais conhecidos do massacre israelense em Gaza. Durante horas, Hind permaneceu em contato com os atendentes enquanto uma ambulância tentava chegar até ela.
Os dois socorristas enviados para o resgate também foram mortos.
Durante meses, “Israel” procurou afastar de suas tropas qualquer responsabilidade. A primeira versão apresentada pelo Exército sustentava que não havia soldados israelenses nas proximidades do carro.
Investigações jornalísticas desmontaram essa versão.
Uma apuração da Al Jazeera indicou que um tanque israelense estava provavelmente entre 13 e 23 metros do veículo. Dessa distância, segundo a investigação, seria possível aos militares identificar quem estava dentro do automóvel.
A versão oficial começou então a mudar. O Exército passou a reconhecer que havia realizado operações naquela região naquele dia, embora continuasse sem admitir que seus soldados tivessem disparado contra o veículo.
Agora, mais de dois anos depois, surgiu uma nova admissão: militares israelenses abriram fogo contra um carro que, segundo o Exército, se aproximava de sua posição.
Com isso, cai uma parte fundamental da versão apresentada inicialmente. As tropas israelenses estavam no local e atiraram contra o automóvel.
A nova explicação procura apresentar o ataque como reação a um veículo em aproximação, mas não responde aos elementos centrais do caso: a presença de crianças no carro, a quantidade de disparos nem a morte dos socorristas enviados para resgatá-las.
O Exército anunciou a abertura de uma investigação criminal e passou a apontar possíveis falhas na coordenação da passagem da ambulância do Crescente Vermelho.
A família de Hind rejeita a ideia de que uma investigação conduzida pelo próprio aparelho militar israelense seja suficiente. A avó da menina pediu uma apuração internacional sobre a morte da neta e das demais crianças palestinas assassinadas durante a ofensiva contra Gaza.
A Fundação Hind Rajab também manifestou desconfiança em relação ao sistema israelense de investigação de seus próprios militares.
Essa desconfiança possui razões concretas. Acusações contra soldados pela morte de palestinos raramente terminam em condenações. O próprio caso de Hind passou mais de dois anos cercado de negativas e versões contraditórias até que o Exército reconhecesse que houve disparos israelenses contra o carro.
A importância do episódio não está apenas na morte de uma criança. O caso expôs também o funcionamento da propaganda de guerra israelense.
Quando surgiram as primeiras denúncias, a presença das tropas foi negada. Diante das provas posteriores, a versão precisou ser modificada. Agora, o próprio Exército admite o fato central que durante tanto tempo procurou afastar de si.
Hind tinha cinco anos.
Ficou durante horas dentro de um carro perfurado por tiros, pedindo que alguém fosse buscá-la. Os socorristas enviados para salvá-la também não sobreviveram.
Nenhuma investigação tardia modifica esses fatos. A admissão feita agora apenas torna ainda mais insustentáveis as versões apresentadas por “Israel” desde janeiro de 2024.





