A Colômbia não tem presidente eleito proclamado oficialmente. O que existe, até o fechamento desta edição, é o preconteo, a apuração preliminar divulgada pela Registraduría Nacional e pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), sem força jurídica. A contagem legal é o escrutínio, iniciado na noite deste domingo (21), conduzido por comissões de juízes e tabeliães sobre as atas físicas E-14.
Apesar disso, o imperialismo norte-americano e seus aliados na América Latina passaram a tratar Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, como vencedor antes da conclusão da apuração oficial. Donald Trump escreveu: “ele ganhou, GRANDE!”. Marco Rubio chamou o candidato de “presidente eleito”. Javier Milei, Daniel Noboa, Santiago Peña e María Corina Machado também saudaram a suposta vitória.
Com cerca de 99,9% das mesas no preconteo, De la Espriella aparece com 49,65% a 49,66% dos votos, cerca de 12,9 milhões. Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico, aparece com 48,69% a 48,71%, cerca de 12,7 milhões. A margem é inferior a 250 mil votos. Os votos em branco somam 1,63%.
A diferença apertada, a ausência de valor legal da pré-contagem e as denúncias feitas pelo presidente Gustavo Petro e pela campanha de Cepeda tornam a proclamação imperialista uma pressão direta sobre o processo eleitoral colombiano. Querem transformar um resultado preliminar em fato consumado.
Escrutínio oficial
Segundo a teleSUR, a Colômbia iniciou o escrutínio oficial e a campanha de Iván Cepeda anunciou a impugnação de 33 mil mesas. O procedimento é a etapa em que as campanhas podem apresentar reclamações com base nas atas físicas E-14.
O registrador Hernán Penagos respondeu às denúncias de Petro afirmando que cerca de 860 mil mesários atuaram nas quase 122 mil mesas do país. Também disse que o CNE habilitou uma plataforma para que as testemunhas eleitorais enviassem fotos das atas, permitindo às duas campanhas comparar os resultados.
A teleSUR destacou que o Pacto Histórico e as organizações da Aliança pela Vida afirmaram que respeitarão o resultado final depois de concluídos o escrutínio oficial e as verificações.
Petro denuncia vulneração do sistema
Gustavo Petro afirmou ter provas de mudança de endereços IP em vários servidores da Registraduría Nacional neste domingo. Segundo ele, isso significa que o software foi vulnerado e que terceiros inseriram dados de mesas e locais de votação.
“O único com capacidade de fazer isso no mundo é o Estado de ‘Israel’”, afirmou Petro.
O presidente colombiano disse ainda que já alertava para a vulnerabilidade do software dos irmãos Bautista, responsáveis pela empresa Thomas Greg & Sons. A companhia, ligada a Felipe, Camilo e Fernando Bautista, também foi contestada no escândalo da licitação de passaportes. Petro afirmou que a vulnerabilidade do sistema já constava em sentença do Conselho de Estado de 2018 e que o programa deveria ter sido substituído por um software público.
Segundo a RT, Petro também denuncia que Penagos se recusou a entregar o código-fonte. O presidente afirmou que pediu uma auditoria especializada, negada pelo registrador.
“Solicito um escrutínio de todas as mesas e contagem de novo de todos os votos com estudo das vulnerações do software eleitoral e das mesas que sofreram afetações”, declarou.
Petro também denunciou que a Registraduría estava subindo formulários E-14 sem assinatura dos jurados eleitorais. Segundo ele, essas mesas devem ser impugnadas imediatamente.
“Não se pode proclamar nenhum presidente. É o escrutínio que determina quem é o presidente. Obedeço aos juízes. Tranquilidade na cidadania, por favor”, escreveu Petro.
O presidente afirmou ainda que o resultado mostra “um país partido ao meio”, denunciou “ingerência estrangeira” e defendeu um acordo nacional para preservar a paz.
Cepeda impugna 33 mil mesas
Iván Cepeda falou no teatro Royal Center, em Bogotá, e reconheceu o preconteo como “um dado ainda não oficial nem vinculante”. Com isso, transferiu a definição para o escrutínio.
“Chegamos a esta última instância com a diferença em votos mais estreita registrada em qualquer eleição de segundo turno na história eleitoral colombiana”, afirmou.
Cepeda anunciou a impugnação de 33 mil mesas em todo o país. Também afirmou que sua campanha não aceitará uma ofensiva contra as conquistas sociais dos últimos anos.
“Não vamos permitir, fazendo uso da força da democracia, da mobilização e da ação política, que retrocedam as conquistas sociais que construímos nestes anos”, declarou.
De la Espriella se proclama vencedor
Enquanto o escrutínio oficial não havia definido o resultado, Abelardo de la Espriella fez discurso em Barranquilla, usando a camisa da seleção colombiana. “Colômbia, aqui está o teu tigre! Colômbia, aqui está o teu presidente!”, afirmou.
“O povo colombiano me confiou a honra suprema de servi-lo como seu próximo presidente”, disse. “Esta noite não triunfou uma candidatura, triunfou a vontade de um povo que decidiu recuperar seu destino”.
Em transmissão no X, De la Espriella afirmou que já tinha conversado com Trump, que teria “apoiado e reconhecido” sua vitória. O candidato da extrema direita também alegou que houve compra de votos e outras irregularidades, mas declarou: “apesar de tudo isso, conseguimos derrotar o regime”.
EUA e aliados pressionam
A intervenção mais grave veio dos EUA. Trump publicou “ele ganhou, GRANDE!”, junto a um texto sobre a vantagem de De la Espriella. Na semana anterior, Trump já havia declarado apoio ao candidato, chamando-o de “líder inteligente, forte e duro”, enquanto atacou Cepeda como “marxista radical de esquerda”.
Marco Rubio foi além e escreveu que falou com o “presidente eleito” colombiano para parabenizá-lo pela “vitória eleitoral”. Disse ainda que o governo Trump espera trabalhar com a futura gestão em segurança regional, imigração para os EUA e relações econômicas.
Na América Latina, os governos direitistas também se alinharam. Javier Milei escreveu: “o leão e o tigre rugem na América Latina”, e disse que a Colômbia escolheu a “liberdade econômica” e a “segurança implacável”. Daniel Noboa afirmou que a Colômbia escolheu “a ordem sobre a impunidade”. Santiago Peña falou em “importante vitória”. María Corina Machado chamou De la Espriella de “presidente eleito” e disse que ele será aliado na “transição democrática” da Venezuela.
Imprensa brasileira acompanha a operação
No Brasil, parte da imprensa burguesa acompanhou a proclamação antecipada. A Folha de S.Paulo publicou: “Colômbia elege Espriella e entra na onda de ultradireita após 1º governo de esquerda, diz apuração preliminar”. O Globo foi mais direto: “Abelardo de la Espriella vence eleição na Colômbia e leva direita apoiada por Trump ao poder”. O Estadão disse “Colômbia: Abelardo de la Espriella vence eleição e direita volta a assumir poder no país vizinho”.




