Economia

Agressão imperialista contra Irã pode levar 30 milhões à pobreza

Alta nos preços de combustíveis e fertilizantes ameaça produção agrícola e deve atingir principalmente trabalhadores pobres da África e da Ásia

A agressão dos EUA e de “Israel” contra o Irã pode levar mais de 30 milhões de pessoas à pobreza, segundo avaliação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) citada pelo The Cradle, com base em reportagem da Reuters publicada em 23 de abril. O dado está ligado à alta nos preços dos alimentos, causada pela interrupção no fornecimento de combustíveis e fertilizantes em meio ao período de plantio.

Alex De Croo, administrador do Pnud, afirmou à Reuters que a falta de fertilizantes já reduziu a produtividade agrícola e deve atingir as colheitas nos próximos meses. A situação afeta especialmente países dependentes da importação desses insumos, sobretudo na África e na Ásia.

“A insegurança alimentar estará em seu nível mais alto em alguns meses — e não há muito que se possa fazer a respeito”, afirmou De Croo.

Segundo o dirigente do Pnud, a guerra também provoca escassez de energia e queda nas remessas enviadas por trabalhadores a suas famílias em seus países de origem. Esses fatores, somados à alta dos alimentos, pressionam diretamente as populações mais pobres.

“Mesmo que a guerra parasse amanhã, esses efeitos já existem e empurrarão mais de 30 milhões de pessoas de volta para a pobreza”, disse De Croo.

Parte importante da produção mundial de fertilizantes está concentrada na Ásia Ocidental. Além disso, um terço do fornecimento global passa pelo Estreito de Ormuz, fechado aos inimigos do Irã desde o início da campanha de bombardeios dos EUA e de “Israel” contra a República Islâmica, iniciada há quase dois meses.

Antes da guerra, um quinto do petróleo e do gás natural consumidos no mundo passava pelo mesmo estreito. Com a redução da produção nos países do Golfo, os preços da energia subiram nos mercados internacionais. Como o custo de energia entra no transporte, na produção agrícola, na indústria e na distribuição, a elevação atinge quase todos os setores, em especial os alimentos.

A Reuters informou na semana passada que mais de US$50 bilhões em petróleo deixaram de ser produzidos desde o início da guerra contra o Irã, há quase 50 dias. Analistas citados pela agência afirmaram que os efeitos da guerra ainda serão sentidos por meses e até anos.

No início de abril, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Programa Mundial de Alimentos da ONU já tinham alertado que a guerra elevaria de maneira drástica os preços dos alimentos, atingindo as populações mais vulneráveis.

De Croo afirmou ainda que a guerra já destruiu uma parcela estimada entre 0,5% e 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

“Coisas que levam décadas para serem construídas, oito semanas de guerra levam para destruir”, disse o administrador do Pnud.

A guerra também levou países doadores a cortar verbas humanitárias destinadas à ONU. A medida atinge regiões que já enfrentam emergências, como Gaza e Sudão. De Croo afirmou que a redução dos recursos terá consequência direta sobre pessoas que dependem da ajuda internacional para sobreviver.

“Teremos de dizer a certas pessoas: sentimos muito, mas não podemos ajudá-las. Pessoas que sobreviveriam com ajuda não terão isso e serão empurradas para uma vulnerabilidade ainda maior”, afirmou.

Matin Qaim, diretor-executivo do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento da Universidade de Bonn, na Alemanha, também alertou para a alta dos alimentos. Em entrevista à Al Jazeera, ele afirmou que os preços vão subir nos próximos meses, dificultando o acesso de milhões de pessoas a uma alimentação adequada.

“Os preços dos alimentos definitivamente subirão nos próximos meses, tornando mais difícil para muitas pessoas em todo o mundo pagar por dietas adequadas e saudáveis”, disse Qaim.

Segundo ele, os trabalhadores pobres da África e da Ásia serão os mais afetados, porque já gastam uma parte muito grande de sua renda com alimentação.

“A fome e a subnutrição muito provavelmente aumentarão”, afirmou.

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