Dark Horse

Ação da PF contra filme de Bolsonaro, uma operação eleitoral?

Operação autorizada por Flávio Dino investiga possível desvio de recursos para produtora de Dark Horse

A Polícia Filial realizou nessa quinta-feira (10) a Operação Make Up, destinada a apurar se recursos públicos enviados por meio de emendas parlamentares terminaram abastecendo a Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em três estados e no Distrito Federal. Entre os principais alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e Karina Ferreira da Gama, dona da produtora.

As suspeitas partem das relações financeiras entre a Go Up e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), também controlado por Karina. O instituto recebeu R$2 milhões em emendas indicadas por Frias e manteve contratos com o poder público. Segundo a PF, movimentou R$83 milhões entre setembro de 2023 e agosto de 2024.

Os investigadores identificaram pagamentos do ICB à Dinâmica Editora e ao Instituto Super Poder Educacional. As duas empresas pertencem ao mesmo grupo da NTT Brasil, que posteriormente transferiu R$750 mil para a Go Up. A coincidência entre os valores e a sucessão dos repasses levou a PF a investigar se recursos de origem pública teriam chegado indiretamente à produtora.

A própria corporação ressalva, entretanto, que essa ligação ainda não está comprovada. Em documento apresentado a Dino, registrou que os elementos reunidos não permitem demonstrar a origem direta dos R$750 mil. A suspeita repousa, até agora, nas relações entre as empresas, no período das transferências e na proximidade dos valores.

As contas da Go Up também entraram na investigação. A produtora movimentou R$19.033.071,00 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período coincidente com a produção do longa. Além do pagamento feito pela NTT, recebeu R$645,4 mil diretamente de Mário Frias.

A Polícia Filial considera esse último valor elevado diante dos rendimentos do parlamentar. Durante as filmagens, também foram identificados pagamentos de R$906,7 mil a um hotel e R$653 mil a uma empresa de alimentação. Os investigadores procuram determinar de onde vieram os recursos empregados nessas despesas.

Mário Frias participou de Dark Horse como roteirista e produtor-executivo. Antes das buscas desta quinta-feira, já vinha rejeitando a acusação de que suas emendas tivessem financiado o longa. Ao tratar anteriormente dos recursos destinados ao Instituto Conhecer Brasil, sustentou que o dinheiro tinha outras finalidades e negou que houvesse recursos públicos na produção.

Posteriormente, diante das informações sobre a chegada de recursos ligados a Vorcaro ao projeto, afirmou que não existia “contradição material”, mas uma “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.

A operação também atingiu diretamente a liberdade de circulação do deputado. Dino determinou que Frias não poderá deixar o País. O ministro alegou que o parlamentar demorou a apresentar informações requisitadas enquanto estava no exterior e utilizou episódios recentes envolvendo outros parlamentares para justificar a restrição.

Karina Gama havia falado publicamente na véspera das buscas. A empresária afirmou que estava sofrendo ameaças e sendo pressionada para realizar uma delação. Segundo seu relato, pessoas que se apresentaram como oficiais de Justiça chegaram à sua residência durante a noite, sem apresentar identificação adequada.

“Estou apavorada”, afirmou.

Karina negou ter captado recursos para o filme e disse que sua empresa foi contratada para executar a produção.

A resposta politicamente mais dura partiu de Flávio Bolsonaro. Em atividade de campanha em Boa Vista, o candidato à Presidência acusou Dino de utilizar sua posição no STF para interferir na disputa eleitoral.

“É uma interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino sobre as eleições.”

Flávio relacionou a operação diretamente à disputa com Lula e afirmou que a ofensiva teria ocorrido depois do crescimento de sua candidatura. Também negou que o filme tenha recebido dinheiro público:

“Não há absolutamente nada de errado com esse filme. Não tem um centavo de dinheiro público. Podem revirar do avesso de cima para baixo, trás para frente, um lado pro outro, de ponta cabeça, que não vai ter nada.”

A acusação de Flávio Bolsonaro não basta para demonstrar que Dino tenha autorizado a operação com finalidade eleitoral. A investigação sobre as emendas é anterior à atual fase da campanha e há movimentações financeiras efetivamente sendo apuradas. Também não está demonstrado, porém, que os R$750 mil enviados pela NTT à produtora tenham origem nos recursos públicos.

A data da operação introduz, ainda assim, uma questão política. Ela ocorre quando o STF atravessa uma grave crise provocada pelas revelações envolvendo a sociedade entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e quando o problema começa a atingir aqueles que, nos últimos anos, defenderam politicamente os poderes excepcionais assumidos pela Corte.

O PT teve papel decisivo nessa defesa. Desde a ofensiva contra Bolsonaro, apresentou as medidas tomadas por Moraes e pelo Supremo como necessárias à proteção da “democracia”. Com o ministro atingido pelas revelações do caso Master, essa ligação tornou-se uma dificuldade para a campanha de Lula, mas sobretudo para os burocratas bandidos do STF que agora se veem ameaçados.

É sob esse aspecto que a operação merece ser examinada. Os bolsonaristas exploram a promiscuidade de Moraes e Vorcaro para atacar o setor da burguesia que os persegue com o apoio e cumplicidade da esquerda e do governo federal. Moraes e seus capangas no STF, contudo, dão mostras de que estão dispostos a lutar ao máximo por sua boquinha suprema.

Não há prova, até o momento, de que a Operação Make Up tenha sido organizada para prejudicar a candidatura de Flávio Bolsonaro.

A hipótese eleitoral aparece porque a operação produz um efeito político concreto. Enquanto o escândalo de Moraes transfere pressão para o STF e para seus defensores, entre eles o PT, a ofensiva sobre Dark Horse recoloca Bolsonaro e seus aliados no centro de uma investigação da Polícia Filial. A questão é saber se essa simultaneidade decorre simplesmente do andamento do inquérito ou se a investigação está sendo aproveitada também como instrumento da disputa presidencial.

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