Brasil

A política da esquerda pequeno-burguesa é feita do sofá de casa

Decretar que Flávio Bolsonaro está liquidado quando o bolsonarismo tem uma base de pelo menos 30% dos votos, não passa de achismo.

A esquerda pequeno-burguesa, que faz política do sofá de casa, está dando como morta a candidatura de Flávio Bolsonaro, como se pode ver no entusiasmado título Governo Lula: “do desastre ao triunfo” em duas semanas; artigo assinado por Carol Barreto e publicado no Esquerda Online nesta quinta-feira (28).

“Não é Apolo 13”, inicia o texto, “mas bem que poderia ser: “do desastre ao triunfo” define bem o carrossel de emoções vivido pelo Governo Lula e seus apoiadores nas duas últimas semanas. Lá atrás, duas humilhantes derrotas seguidas: o veto ao nome de Messias para o STF (que foi humilhante, mas no fim é uma bênção) e a aprovação do PL da Dosimetria pelo Congresso, que passou a mensagem de que o golpe de Estado compensa.”

Ainda estamos no final de maio, início de junho, há muita água para rolar embaixo da ponte. Portanto, não se pode dizer que exista um triunfo. A burguesia está manobrando e avaliando suas possibilidades para a eleição que se aproxima.

Segundo a autora, “pouco depois, virada importante na trama: eclode o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro para a produção de filme de qualidade duvidosa sobre a vida do papai. O sujeito é tão burro que, não satisfeito, ainda vai fazer visita íntima para o banqueiro na cadeia. Resultado: o empate técnico entre ele e Lula na corrida presidencial se converteu em vantagem de sete pontos para o atual presidente.”

O escândalo com o Banco Master é obra da própria burguesia, que já deu inúmeras provas de que não quer um Bolsonaro na presidência, a menos, é claro, que não tenha escolha.

Existe ainda outra questão: se Flávio Bolsonaro ficar acuado ao ponto de sentir que não terá chance de se eleger, ainda assim conta com uma base social, 30% de votos que se somados a outro candidato da oposição poderá ameaçar seriamente a reeleição de Lula.

Existe uma grande euforia em torno disso que a articulista chama de “uma das mais belas vitórias da classe trabalhadora nos últimos anos: a aprovação do fim da escala 6×1 pelo Congresso inimigo do povo, por um placar acachapante”.

A verdade é que não se vê empolgação nem mesmo dentro do movimento sindical, que não conseguiu levar praticamente ninguém às ruas, pois a reivindicação é confusa.

O texto final, relatado por Leo Prates (Republicanos-BA), seguiu para o Senado Federal, mas temos o seguinte:

  • Regra geral e transição: a nova jornada terá teto de 40 horas semanais e garantia de 2 dias de folga por semana (escala 5×2), com proteção expressa contra a redução de salários (nominais e pisos da categoria).

Segundo o cronograma (14 meses no total), em 2 meses (após a promulgação) a jornada cai para 42 horas e passam a valer os 2 dias de folga. Em 14 meses atinge-se o patamar definitivo de 40 horas. Ainda assim acordos coletivos podem estender a jornada diária durante a transição para ajudar na distribuição das horas.

Flexibilizações e exceções importantes estão previstas para trabalhadores de alta renda (“hipersuficientes”): quem tem diploma de nível superior e ganha a partir de R$21.188,87 (2,5 tetos do INSS) foi excluído das regras de controle de jornada. Na prática, o texto permite a negociação direta com o patrão, abrindo margem para aumento de horas sem hora extra ou redução salarial indireta.

Setores essenciais e ininterruptos, como saúde, segurança, transporte e limpeza urbana, poderão acumular as folgas semanais por meio de acordos coletivos (compensação mensal), desde que haja ao menos uma folga dentro do período de uma semana.

No setor público e pequenos negócios, os terceirizados do Governo – contratos públicos de terceirização – terão até 12 meses para sofrer aditamentos e reequilíbrio financeiro antes da aplicação plena da nova jornada.

Já as microempresas e MEIs, uma futura lei complementar definirá regras de transição específicas para mitigar o impacto econômico. Incentivos fiscais ou aumento do teto de faturamento para essas empresas ficarão condicionados à manutenção dos empregos.

O Senado poderá propor uma série de alterações que, na prática, vão permitir aos patrões fazerem uma transição extremamente suave.

Naturalmente, a esquerda pequeno-burguesa comemora porque imagina que conseguirá votos com a medida. A própria Carol Barreto diz que aprendeu em seus anos de militância que “surra política resulta em surra eleitoral”.

Segundo afirma, “nas últimas semanas, a extrema-direita tem levado uma surra de gato morto na política”, o que é bastante empolgação, a ponto de escrever que “perdidinhos, ontem tentaram, como birutas de aeroporto, dissimular uma radicalidade que nunca tiveram, propondo escala 4×3 e nenhum tempo de transição. Foram, entretanto, em tudo derrotados. Atropelados […]. Por um caminhão chamado luta de classes, que alguns teimam em dizer que está morta, mas que segue viva e emparedando o parlamento brasileiro”.

A articulista considera que “com a luta pelo fim da escala 6×1, o PSOL já justificou em muito sua existência e ajudou o Governo Lula, sem abrir mão de suas críticas, muito mais do que os bajuladores sempre de plantão. Mais do que nunca, este partido é necessário e deverá colher os louros do acerto político nesta proposta que, apesar de tão óbvia, estava há tantos anos esquecida pela esquerda brasileira”.

Não deixa de ser estranho alguém considerar que uma luta econômica justifique a existência de um partido. De qualquer modo, chama a atenção que já se tente advinhar que o PSOL irá colher os louros dessa campanha que ainda está tramitando.

Esbanjando otimismo, o texto fecha dizendo que “a extrema direita não vai esquecer a noite de ontem. E a classe trabalhadora também não. Que venha agora uma mulher negra progressista para o STF!”.

Enquanto não for indicada uma mulher negra para o Supremo, a esquerda identitária, que finge que Joaquim Barbosa não existiu, segue fazendo propostas para reformar o Estado burguês.

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