No artigo Onda vermelha disputa a virada publicado na terça-feira (20), no portal Esquerda Online, Valério Arcary, dirigente da Resistência, corrente do PSOL, anuncia uma “onda vermelha” capaz de reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, milhões de pessoas, até então politicamente inativas, despertaram diante da ameaça fascista. Seu entusiasmo deixa sem resposta a pergunta mais importante: quem manteve os trabalhadores desmobilizados durante os quatro anos de governo Lula?
Arcary abre seu artigo com um provérbio português: “Quem faz o seu destino são as suas escolhas, não as suas chances”. A frase descreve bem a política que ele defende. Lula escolheu governar com Geraldo Alckmin, negociar com o Centrão, preservar a política dos banqueiros e apoiar-se no Supremo Tribunal Federal (STF). A direção do PT preferiu acordos com a burguesia à mobilização popular. Essas escolhas produziram a crise que Arcary descreve como emergência nacional.
Para explicar as manifestações em favor de Lula, o dirigente recorre ao “grande medo” provocado pelo avanço do bolsonarismo. Aqui cabe acrescentar outro provérbio à coleção de Arcary: o medo é um péssimo conselheiro. A cada eleição, essa esquerda anuncia que a derrota petista será uma catástrofe. Em nome dessa ameaça, exige que os trabalhadores aceitem qualquer aliança, qualquer recuo e qualquer política do governo. O combate à direita fica reduzido a votar em quem já governa ao lado dela.
Arcary afirma que a atual mobilização surgiu por iniciativa popular, como uma explosão de auto-organização. Mas essa iniciativa deveria levá-lo a examinar a atuação das direções políticas e sindicais. Se tantos jovens e trabalhadores estavam dispostos a sair às ruas, por que não foram convocados antes para lutar por salários, redução da jornada, emprego, educação pública e contra a repressão? Por que as organizações populares deveriam evitar problemas ao governo?
O exemplo escolhido por Arcary é ainda mais infeliz. Ele compara os atos eleitorais de outubro à campanha Fora Collor, em 1992. Naquele ano, os secundaristas tomaram a iniciativa e, em 11 de agosto, cerca de 10 mil jovens marcharam em São Paulo. A mobilização cresceu e contribuiu para a queda de Collor. Aqueles estudantes não estavam pedindo a reeleição do governante, nem aguardavam uma pesquisa para decidir se valia a pena protestar. Queriam derrubá-lo. Transformar a luta contra um governo em exemplo para sustentá-lo é inverter a história.
Há uma contradição ainda mais grave. Arcary, que agora festeja a força das ruas, foi um defensor sistemático da entrega da luta contra Bolsonaro aos tribunais. Em fevereiro de 2024, declarou: “A esquerda não pode titubear em apoiar e realizar uma defesa da iniciativa do STF liderada por Alexandre de Moraes”. O mesmo ministro havia ordenado, em 2022, o bloqueio das contas do Partido da Causa Operária (PCO) nas redes sociais e acumulado poderes de investigação e censura.
A política de Arcary ajudou a apresentar um juiz não eleito como dirigente da luta contra a direita. Em vez de organizar greves e manifestações independentes, uma parte da esquerda passou a esperar decisões de Moraes, prisões e proibições. Quando o Judiciário censurou publicações, esses setores aplaudiram. Agora comemoram o ativismo nas mesmas redes sociais cuja censura ajudaram a legitimar. Os poderes de repressão do Estado que estão sendo usados contra os próprios trabalhadores.
O artigo dedica espaço às pesquisas eleitorais. Para justificar a subestimação da votação de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Arcary menciona dados desatualizados do IBGE, a desconfiança dos bolsonaristas e os eleitores que decidem na última hora. E se esquece que os institutos são empresas capitalistas com interesses próprios. Seus números precisam ser vistos com reserva, não com reverência. Tampouco uma oscilação de dois pontos indica, por si só, uma mudança nas relações de forças.
A confusão entre eleição e luta de classes reaparece na comemoração do fim da escala 6×1. O Senado aprovou a redução da jornada por 75 votos a um, em 14 de outubro. Apenas Hamilton Mourão votou contra; Flávio Bolsonaro votou a favor. Se até o candidato que Arcary apresenta como a encarnação da ameaça fascista apoiou a medida, é necessário examinar o interesse eleitoral dos partidos da burguesia, e não anunciar uma derrota definitiva dos patrões. A proposta prevê uma transição até as 40 horas e os empresários já procuram ampliar exceções e formas de compensação. Qualquer conquista só estará assegurada pela luta dos trabalhadores, não pelo entusiasmo com os parlamentares.
Arcary também enfileira as promessas de última hora como a proibição das apostas, créditos para endividados, passe livre aos fins de semana e novos benefícios estudantis. Não explica por que essas medidas são apresentadas justamente quando Lula corre o risco de perder a eleição. Nem por que as reivindicações centrais do movimento operário foram substituídas por anúncios de campanha, enquanto a política econômica continuou subordinada aos interesses dos capitalistas.
A suposta “onda vermelha” tem, além disso, um problema bastante visível, o fato de sua direção abandonar o vermelho. No sábado (17), Lula aderiu à campanha de André Janones para que os apoiadores vestissem verde e amarelo. Alckmin, Haddad, Tebet, Marina e artistas também participaram. Janones explicou que a ideia era atrair eleitores moderados que não se identificam com a esquerda. Para conquistar a classe média conservadora, a campanha petista decidiu esconder justamente a cor histórica do movimento operário e do socialismo, enquanto reproduz os símbolos apropriados pelo bolsonarismo.
Arcary celebra a hegemonia da esquerda nas ruas, mas seus dirigentes estão ocupados em demonstrar que já não se parecem com a esquerda. A troca das cores acompanha a adaptação política e, em vez de disputar os trabalhadores em torno de um programa, o PT procura conquistar os conservadores garantindo que não ameaçará seus interesses. A mesma candidatura que promete enfrentar a extrema direita incorporou sua bandeira da redução da maioridade penal. O preço dessa busca de votos é a renúncia a posições elementares da esquerda.
Ao final, Arcary escreve: “São cinco dias que decidirão nosso destino”. É uma confissão involuntária de falência política. Depois de quatro anos no governo, a direção petista e seus defensores comportam-se como o estudante que não estudou durante todo o ano e resolve aprender tudo na véspera do exame. A história da luta operária, porém, não começa nem termina em uma votação. Governos passam; continuam os patrões, os banqueiros, o aparato repressivo e as organizações que os trabalhadores precisam construir para enfrentá-los.
O “grande medo” de Arcary pode render um ou outro voto, mas não substitui um programa. Uma mobilização que abandona suas bandeiras para salvar a aliança com a direita não é uma onda vermelha. É a campanha de uma esquerda que deixou de confiar na força dos trabalhadores e passou a depender das urnas, dos tribunais e dos acordos com a burguesia para conquista ou manutenção de cargos.




