Valéria Guerra

Jornalista (UMESP), historiadora, atriz com DRT-RJ, escritora, colunista do 247, PCO, e do meu site (https://guerraluz.prosaeverso.net/); mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação; professora do Estado do RJ na cadeira de biologia, poetisa e ativista contra a desigualdade no Brasil e no mundo.

Coluna

A filosofia da miséria mora no andar de cima?

O trabalhador vende sua força de trabalho, produz riqueza, mas não se apropria dela

A pergunta pode soar incômoda, mas talvez seja justamente esse o seu papel. Quando Karl Marx escreveu Miséria da Filosofia, em 1847, não estava apenas respondendo a Pierre-Joseph Proudhon. Estava, sobretudo, questionando um modo de pensar que, sob a aparência de equilíbrio e harmonia, evitava encarar o conflito real que estrutura a sociedade.

Proudhon acreditava que o trabalho poderia se organizar por si mesmo, num movimento contínuo, quase natural, em direção à igualdade. Uma ideia sedutora — afinal, quem não gostaria de acreditar que a própria dinâmica social corrigiria suas injustiças? O problema é que essa visão ignora um elemento decisivo: as condições concretas em que as pessoas vivem.

É nesse ponto que a crítica de Marx se impõe. Para ele, não existe filosofia neutra em uma sociedade desigual. O conhecimento, o trabalho e até mesmo as ideias são atravessados por relações materiais. Em outras palavras: pensar não é um ato isolado — é um ato situado.

Quando se fala em progresso do conhecimento sem considerar quem pode, de fato, acessar esse processo, corre-se o risco de transformar a filosofia em privilégio. A miséria, então, deixa de ser apenas uma condição econômica e passa a ser também um limite imposto ao próprio ato de compreender o mundo.

A clássica distinção entre valor de uso e valor de troca ajuda a iluminar essa contradição. O trabalhador vende sua força de trabalho, produz riqueza, mas não se apropria dela. Mais do que isso: muitas vezes, não se apropria nem mesmo do sentido do que produz. Há, aí, uma forma de alienação que não é apenas econômica — é também intelectual.

Nesse contexto, a ideia de que o salário representa uma forma de submissão ganha densidade. Não se trata apenas de uma frase de efeito, mas de uma constatação estrutural: o trabalho, que poderia ser emancipador, frequentemente se converte em mecanismo de dependência.

Ao mesmo tempo, a história não é estática. Como o próprio Marx sugere, a chamada “natureza humana” está em constante transformação. Mas essa transformação não acontece no vazio — ela é atravessada por desigualdades, disputas e interesses. Ignorar isso é suavizar o conflito onde ele é mais real.

E é justamente aqui que a pergunta inicial retorna, agora mais densa: quando uma filosofia evita o confronto com essas contradições, o que ela está, de fato, fazendo? Estaria ela propondo caminhos de emancipação — ou oferecendo justificativas elegantes para a permanência da desigualdade?

Talvez não exista um “manual” explícito da miséria voltado à burguesia. Mas há, sem dúvida, formas de pensar que tornam a desigualdade mais aceitável, mais racionalizada, mais silenciosa. No fim, a questão permanece aberta — e necessária: a filosofia da miséria mora no andar de cima… ou é de lá que ela fala?

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