No sítio da editora Boitempo, Mauro Iasi publicou um texto intitulado O futebol e a alma expropriada. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o professor universitário recorre a um malabarismo argumentativo para relativizar a rejeição crescente à seleção argentina e terminar em uma exaltação apaixonada do futebol daquele país. Publicado antes do jogo entre Inglaterra e Argentina, o artigo procura minimizar tanto as críticas à tradição racista dos argentinos no futebol quanto o favorecimento que sua seleção vem recebendo da arbitragem nesta Copa do Mundo. Embora se apresente como admirador do esporte, Iasi parece ignorar noções elementares para qualquer torcedor.
Iasi afirma que se formou uma “patrulha que pretende decidir por quem se deve ou não torcer”, baseada em fatores extracampo. Diz que a França poderia ser rejeitada por seu colonialismo; o Brasil, pela associação entre a camiseta da Seleção e a extrema direita, além da presença de atletas religiosos; a Alemanha, pelo nazismo; e assim por diante. Nenhum desses casos, porém, foi motivo de debate durante a Copa. Ele equipara a rejeição à equipe argentina, provocada por diversos lances nos quais a arbitragem adotou critérios especiais em favor dos argentinos, a disputas banais como: “empanada argentina não é empanada, é pastel; Gardel é uruguaio; Che fugiu de lá e virou cubano”.
Em seguida, Iasi passa a discutir se a mercantilização do futebol seria razão para deixar de torcer. Até esse ponto, não há problema. O tema, porém, nada tem a ver com a rejeição à seleção argentina. A longa digressão termina na afirmação de que “o futebol só pôde virar mercadoria, veículo de valor, porque carrega um valor de uso, uma necessidade humana”. Também dirige uma crítica correta à mania, aparentemente comum em certos círculos da esquerda, de transformar qualquer assunto em pretexto para discursos tediosos:
“Então, se você é um cara de esquerda que não perde a chance de politizar e criticar tudo, faça um grande favor a si mesmo e ao mundo. Não seja um chato. Assista ao jogo e tome sua cerveja.”
Se mantivesse essa linha, o artigo ainda poderia terminar bem. Toda a digressão sobre a necessidade de apreciar as coisas apesar da ação do capitalismo retorna, finalmente, à Argentina. Quanto ao racismo sofrido principalmente por jogadores e torcedores brasileiros, bolivianos, paraguaios e peruanos, Iasi procura encerrar o problema lembrando que Vini Jr. sofreu racismo na Espanha. Para quem não acompanha as partidas da Copa Libertadores, a comparação pode até parecer razoável. Nas torcidas argentinas, porém, as provocações racistas fazem parte de seu funcionamento regular. Não constituem episódios isolados nem se limitam aos argentinos que têm dinheiro para acompanhar os jogos nos Estados Unidos, como sugere o autor. Segue-se, então, seu desabafo apaixonado:
“Vocês não querem que a Argentina ganhe porque ela joga bonito, ela joga com raça, ela tem vários craques e um extraterrestre que joga melhor que todo mundo, porque ela tropeça, sofre e se levanta e ganha no último minuto, na última gota de sangue, enquanto aqueles que pareciam robôs mercantis se desfazem em lágrimas – e nada disso você viu na sua seleção. Você não quer que a Argentina ganhe por inveja”.
Como bom esquerdista pequeno-burguês, Iasi não se contém e repete o que dita a imprensa burguesa. A afirmação de que a seleção argentina “joga bonito” não resiste à realidade. Enquanto o Brasil produz craques em grande quantidade, o melhor jogador argentino das últimas décadas nunca sequer jogou profissionalmente no país. Do ponto de vista de sua formação futebolística, é um jogador europeu nascido na Argentina.
A alcunha de “extraterrestre”, aliás, é uma tentativa de compará-lo a Pelé. Trata-se de mais uma bobagem baseada nas sagradas estatísticas. Até aquele momento, a Argentina havia enfrentado Argélia, Áustria, Jordânia, Cabo Verde, Egito e Suíça. Teve enormes dificuldades e precisou de favorecimentos flagrantes da arbitragem para superar, em especial, Cabo Verde e Egito.
Como explicou Henrique Áreas na coluna Por que torcer contra a Argentina, publicada em 15 de julho, o fundamento básico dessa torcida contra é justamente a rivalidade no futebol. Não seria necessário recorrer à história de limpeza étnica do país nem à insistência de seus torcedores nas provocações racistas. Os argentinos são os maiores rivais do Brasil no esporte mais popular do planeta.
Torcer para o Brasil e para a Argentina ao mesmo tempo é como torcer para Corinthians e Palmeiras ou Flamengo e Vasco. Isso não faz sentido dentro da cultura do futebol. É preciso viver essa cultura para compreendê-lo. Alguém imagina que havia corintianos torcendo pelo Palmeiras no último Mundial? Se havia, não eram corintianos de verdade. Como escreveu Áreas:
“Brasil e Argentina se transformaram na maior rivalidade do futebol mundial. Isso dá força e beleza para o próprio futebol sul-americano. Esse lado, digamos assim, bonito da história ninguém fala. Não precisamos provar que os argentinos são racistas, que o Messi é garoto-propaganda de Trump, que o genocida Netaniahu declarou torcida para os hermano, que Milei é um merda, que a seleção da Argentina seria sionista.”





