Henrique Áreas de Araujo

Militante do PCO, é membro do Comitê Central do partido. É coordenador do GARI (Grupo por Uma Arte Revolucionária e Independente) e vocalista da banda Revolução Permanente. Formado em Política pela Unicamp, participou do movimento estudantil. É trabalhador demitido político dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios)

Coluna

Por que torcer contra a Argentina?

O argumento deve ser encontrado, antes de qualquer coisa, no próprio futebol

Dia desses um companheiro pediu um embasamento materialista e marxista para torcer contra a Argentina quando, num grupo de Whatsapp, eu afirmei que era obrigação de qualquer brasileiro torcer contra os hermanitos seja lá qual o adversário da nossa querida seleção vizinha.

Pensei um pouco sobre a pergunta e cheguei a uma conclusão muito simples, mas que talvez possa desagradar alguns. Espero que não desagrade meu amigo.

A primeira coisa que tem me incomodado sobre essa discussão, que tomou conta das redes sociais e da imprensa capitalista, é a politização forçada do ato de torcer. A explicação para torcer contra ou a favor deveria em primeiro lugar ser encontrada no próprio futebol, sendo outros elementos apenas complementos, alguns reais outros nem tanto, para justificar a torcida. O esquerdista não se contenta em dizer: “torço para tal time!” Ele quer provar alguma coisa que justifique que seu time seria mais revolucionário ou mais popular ou até mesmo mais comunista que o outro. A verdade é que, grosso modo, nenhum time é nada disso e essas coisas não são nada mais do que apenas argumentos de torcedor apaixonado, com a mesma validade que um torcedor de time do interior acredita que seu time é o maior do mundo sem precisar provar nada a ninguém.

Voltemos ao nosso tema: podemos dar muitos argumentos para torcer contra a Argentina, mas o principal, o mais importante, o mais fundamental de todos é elementar para qualquer pessoa que realmente ama o futebol: a rivalidade. Não se deve torcer pela Argentina pela simples razão de que um flamenguista não torce para o Vasco e vice-versa, que um são-paulino não torce para o Palmeiras e vice-versa. O rival torce contra o outro, isso é básico para qualquer pessoa que acompanha o futebol.

Na minha opinião, o brasileiro que tem dúvidas sobre torcer contra a Argentina ou está confuso pela propaganda de babação de ovo que nosso imprensa faz ou não acompanha o futebol a fundo e não nutriu, portanto, esse sentimento saudável de rivalidade.

Certa vez estava eu tomando uma cerveja e comendo um X-Coração num bar na rua dos Andradas em Porto Alegre com um amigo diretor da torcida Guarda Popular do Inter. Conversa vai conversa vem e um sujeito na mesa ao lado, se apresenta como gremista e diz que, apesar disso, ele “torcia” para os dois times da cidade. Como é prudente não contrariar maluco, demos joinha e só viramos as costas. Claramente estavamos diante de um mentiroso ou de um louco; ou simplesmente diante de uma pessoa que não apaixonada pelo futebol.

No que se refere a seleções, a maior rivalidade do mundo do futebol está entre Brasil e Argentina. Essa rivalidade, embra possa existir no que diz respeito aos povos de cada país, é antes de qualquer coisa uma rivalidade no esporte. Não me venham os chatos ideólogos cagarem regra para dizer que não podemos nutrir ódio aos nossos vizinhos. Colocações como essa, que também vi nas redes sociais, são de pessoas que não gostam de futebol, que não entendem como funciona uma torcidade de futebol.

A história e a rivalidade entre Cruzeiro e Atlético pode ser explicada de muitas maneiras, mas a única explicação real só pode ser encontrada no futebol. São dois clubes que foram se formando antagônicos um do outro. A ponte-pretano não gosta do Guarani, o comercialino não gosta do botafoguense, o torcedor do Vitória não gosta do Bahia, o gremista não gosta do Inter. E vejam que a maior revilidade tem a ver também com a vizinhança, ou seja, os clubes da mesma cidade são os maiores rivais uns dos outros. É natural, portanto, que Brasil e Argentina sejam rivais.

Brasil e Argentina se transformaram na maior rivalidade do futebol mundial. Isso dá força e beleza para o próprio futebol sul-americano. Esse lado, digamos assim, bonito da história ninguém fala.

Não precisamos provar que os argentinos são racistas, que o Messi é garoto propaganda de Trump, que o genocida Netaniahu declarou torcida para os hermano, que Milei é um merda, que a seleção da Argentina seria sionista.

Não precisamos de nada disso para cumprir nossa obrigação enquanto amantes do futebol que é torcer contra o nosso rival. Tivesse uma revolução socialista na Argentina e, muito que bem, mas no futebol eles continuariam sendo nossos rivais.

O ato de torcer, contra ou a favor, tem uma explicação materialista? Obviamente que tem, mas na minha humilde opinião ela não está em buscar racionalizar a torcida. Essa explicação não se encontra diretamente na economia ou na política, mas na cultura. Torcer para esse ou aquele time ou seleção é um fenômeno cultural, fenômeno semelhante ao que faz milhões de brasileiros saírem às ruas no carnaval, por exemplo. Não precisamos explicações racionais para pular o carnaval, apenas participamos de manifestação cultural. Há os que não gostam e há os que gostam e pronto.

Dito tudo isso, obviamente que cada um tem o direito de torcer ou não torcer, mas deixo aqui um alerta relacionado à dúvida sobre torcer contra a Argentina e esse sim é um alerta político. As concessões que alguns fazem à seleção argentina revela que o brasileiro é educado a não levar a sério o seu futebol. A existência da remota possibilidade de torcer para o nosso maior rival, nos dé um atestado de não amar a nossa própria Seleção, o que significa desprezar a nossa própria identidade. É desprezar um dos nossos maiores patrimônios culturais, que é o futebol brasileiro.

“Perdoe, Pai, eles não sabem o que fazem!”. O brasileiro que torce para a Argentina está sendo manipulado por uma campanha contra o futebol brasileiro que existe em toda a imprensa nacional. Estão indo contra a próprio essência cultural de seu país.

Sim, meus amigos, porque o flamengista que torce pro Vasco, pro Fluminense ou pro Botafogo não é flamenguista de verdade, não é flamenguista até a medula. O corintiano que não torce contra o Palmeiras e o São Paulo não é corintiano até o fim, ao menos na minha humilde opinião.

Dito tudo isso, podemos elencar também alguns motivos para torcer contra a Argentina que não fiquem apenas na paixão e na rivalidade.

O primeiro deles está justamente no fato de que o futebol argentino é utilizado pelo imperialismo para desvalorizar o futebol brasileiro. A propaganda que fizeram de que Maradona é melhor do que Pelé não era mera discussão futebolística, mas propaganda ideológica contra o futebol brasileiro. Maradona é um grande jogador, mas disputa com o segundo ou terceiro escalão de grandes jogadores brasileiros, compara-lo a Pelé é ofensivo. O fenômeno Messi está aí para provar isso.

Messi também é um grande jogador, mas é inferior ao próprio Maradona. Messi estaria em pé de igualdade com o terceiro escalão de grandes craques brasileiros, e isso não é pouca coisa. Não estamos aqui falando isso para espezinhar a Argentina. Isso deveria ser óbvio, é o “óbvio ululante” como diria Nelson Rodrigues. Basta ter olhos para ver e apreciar um futebol bonito, basta comparar as principais jogadas desses jogadores e saberemos qual é o mais habilidoso. O problema aqui é que a propaganda em torno de Messi, que, ainda bem, está sendo desmascarada nessa Copa, é tão forte que confunde a cabeça das pessoas.

O futebol-arte brasileiro é a coisa mais superior que o ser humano inventou no esporte nessa era moderna. O problema é que quem inventou isso foi um país pobre, oprimido, majoritariamente negra e mestiça. O imperialismo não pode permitir que isso seja dominante. Encontraram, então, uns vizinhos aqui para se contrapor ao futebol brasileiro, desvalorizando-o como se inventa uma boa desculpa para dizer que o nosso petroleo é de má qualidade para poder comprar mais barato. É disso que se trata.

O segundo motivo é a roubalheira. Das três copas vencidas pela Argentina, a primeira contou com a manipulação direta da ditadura militar do país que agiu em acordo com a FIFA, dando o título para os argentinos, que sediaram o torneio, e tirando a possibilidade de título do Brasil, melhor Seleção daquela edição. A terceira, 2022, foi muito parecida com o que está acontecendo nessa edição. Pequenos (e grandes) favorecimentos para a Argentina levaram a seleção à final e a título. O segundo título, em 1986, talvez seja o menos contestado, mas é impossível não levar em conta o gol de mão descarado de Maradona em plena final.

O ingênuo perguntari: por que favorecer a Argentina se ela também é um país oprimido? A primeira explicação, mais estrutural, se é que podemos chamar assim, é a que demos acima, ou seja, a utilização da Argentina como um anti-futebol brasileiro. A segunda, que diz respeito certamente a essa Copa e à anterior, é a necessidade de divulgar Messi como o grande garoto propaganda do futebol norte-americano.

Vejam aqui que até agora os motivos para torcer contra a Argentina estão guardados dentro do futebol. Mesmo o argumento político está relacionado a como o futebol argentino é tratado pelo imperialismo.

Se quiserem torcer contra a Argentina porque eles seriam racistas, tudo bem. Se querem torcer contra a Argentina porque eles nos chamam de “macaquitos”, tudo bem. Se acham os argentinos arrogantes, tudo bem também. Mas nada disso, verdade ou mentira, na minha opinião é o fundamental, serve apenas para reforçar a nossa rivalidade. Vi alguns identitários dizendo que o brasileiro “também é racista” o que é um argumento absurdo, sobre o qual, quem sabe, podemos escrever em breve.

Me perguntaram, por fim, diante de tudo isso, para quem os próprios argentinos deveriam torcer. A pergunta é besta, naturalmente eles devem torcer para a própria seleção, só no Brasil mesmo, por conta da propaganda da imprensa anti-nacional, há brasileiros que pensam em torcer contra o próprio País.

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