O Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, permanece como um dos episódios mais brutais da luta de classes no campo brasileiro. Naquele dia, 21 trabalhadores rurais sem terra foram assassinados pela Polícia Militar do Pará durante uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no sudeste do estado. A chacina revelou, de forma particularmente nítida, o papel do Estado na defesa dos interesses dos latifundiários e na repressão violenta aos camponeses pobres.
A mobilização havia começado dias antes. Milhares de trabalhadores rurais marchavam em direção a Belém para exigir a desapropriação da Fazenda Macaxeira, denunciada como área improdutiva e vinculada à grilagem de terras. Os sem terra reivindicavam aquilo que, em um país minimamente democrático, deveria ser elementar: terra para trabalhar. A resposta do regime veio em forma de repressão armada.
Na altura da chamada “Curva do S”, em Eldorado dos Carajás, os manifestantes foram cercados por contingentes da Polícia Militar vindos de Marabá e Parauapebas. Ao todo, 155 policiais participaram da operação. O que se seguiu foi uma ação de massacre. Dezenove trabalhadores foram mortos no local, e outros dois morreram depois, no hospital. Dezenas ficaram feridos, muitos deles com sequelas permanentes.
As circunstâncias da chacina desmontaram desde cedo a versão oficial de que teria havido mero confronto. Laudos e depoimentos apontaram execuções à queima-roupa, tiros na cabeça e na nuca e assassinatos cometidos com os próprios instrumentos de trabalho dos camponeses, como foices e facões.
O massacre ocorreu no governo do tucano Almir Gabriel, no Pará. À época, outro tucano ocupava a cadeira da presidência da República: Fernando Henrique Cardoso. Naquele momento, o neoliberalismo avançava no País com força, aprofundando a submissão do Estado aos interesses dos grandes capitalistas e dos latifundiários.
Eldorado dos Carajás não foi um episódio isolado, mas a expressão concentrada de uma política de terror no campo. A violência contra camponeses, posseiros, índios e quilombolas sempre foi uma das marcas da dominação latifundiária no Brasil. Pistoleiros, jagunços e forças policiais atuam há décadas para garantir a concentração da terra e esmagar qualquer resistência organizada dos explorados.
A impunidade posterior confirmou esse mecanismo. Apesar do número de policiais envolvidos, apenas dois comandantes foram condenados muitos anos depois. A maior parte dos responsáveis jamais foi punida. Também não avançaram de maneira consequente as denúncias sobre a participação e o interesse de fazendeiros na operação. Como em tantos crimes contra os pobres no Brasil, o Judiciário serviu para proteger os mandantes e preservar o aparato repressivo.
Ainda assim, a chacina teve enorme repercussão nacional e internacional. O massacre expôs diante do mundo a realidade agrária brasileira e impulsionou novas mobilizações em defesa da reforma agrária. No ano seguinte, uma grande marcha nacional levou milhares de trabalhadores a Brasília, transformando a data de 17 de abril em símbolo da luta camponesa. A fazenda reivindicada pelos sem-terra viria depois a dar origem ao Assentamento 17 de Abril, nome que preserva a memória dos mortos.





