Estados Unidos

Uma esquerda que acredita na inocência do governo norte-americano

Alberto Cantalice sai em defesa do governo norte-americano enquanto defende a repressão de adversários políticos

Em uma atitude que já se tornou comum na esquerda pequeno-burguesa brasileira, o petista Alberto Cantalice decidiu escrever mais um artigo para criticar moralmente a extrema direita bolsonarista, na esperança de que se dizer moralmete superior fará a esquerda ter mais votos na próxima eleição. No texto Quinta-colunismo atua contra os interesses brasileiros, Cantalice trata dos parlamentares de extrema direita que foram aos Estados Unidos assistir à posse do republicano Donald Trump.

“Por falta de convite, os indigitados tiveram que assistir à posse fora do recinto oficial. Alguns com cara de idiota gravaram vídeos sob a imensa friaca que se abateu sobre Washinton na semana das festividades. Foi lapidar o choro de Bolsonaro quando do embarque da ex-primeira-dama acompanhada de seu maquiador, quando ele, com o passaporte apreendido por cometimento de crimes, não pode viajar.”

A preocupação de Cantalice em humilhar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por não ter ido à posse revela bem a confusão na qual a esquerda está metida. Por um lado, debochar de Bolsonaro por estar com o passaporte apreendido é assinar embaixo de uma arbitrariedade cometida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – isto é, pelas instituições responsáveis pelo golpe de Estado de 2016. Por outro lado, também escancara que a esquerda não tem uma política para as necessidades da maioria do povo brasileiro, de tal forma que sua grande preocupação é com a repressão de adversários políticos.

Da mesma forma que Cantalice acha positivo haver uma ditadura da toga no Brasil, o petista acha perfeitamente normal que o governo brasileiro aumente os impostos sobre a população pobre e corte os benefícios sociais de quem passa fome, enquanto os bancos seguem faturando ainda mais.

Cantalice segue, então, afirmando que:

“O que, no entanto, causa repulsa a todos os verdadeiros patriotas brasileiros é a forma do comportamento vira-latas dos indignos ‘representantes’ do povo que lá estiveram. Cabe destacar que à soldo público. A instigação contra o Supremo Tribunal Federal beira ao ridículo se não fosse criminosa.”

O autor não se preocupa em explicar que “instugação” seria essa. O que chama a atenção, no entanto, é a palavra “criminosa”. Não há absolutamente nada na Constituição Federal que proíba alguém de criticar ou mesmo de insultar o Supremo Tribunal Federal. Pelo contrário: a liberdade de expressão é assegurada pelo artigo V do código de leis brasileiro. Cantalice, no entanto, de tão adepto da repressão que é, defende que a crítica ou a desobediência a uma das cortes mais reacionárias do mundo sejam consideradas crimes.

Se o desejo de Cantalice fosse realidade em 2016, milhares de pessoas da esquerda e dos movimentos sociais estariam presos. Afinal, o STF, naquele período, atuou como pilar central para o golpe de Estado. E essa é, afinal, a grande tendência: o STF representa os inimigos da esquerda, os capitalistas.

O texto vai ficando ainda mais ridículo quando Cantalice diz que:

“Qual poder têm os Estados Unidos de interferir nas decisões do Estado brasileiro? Nenhum. Os pseudos [sic] parlamentares por falta de conhecimento ou má-fé fingem não entender o que seja a soberania de uma nação. Agem como muitos operadores do mercado financeiro como agentes dos interesses estrangeiros em solo brasileiro. Esses sim, que, operando aqui dentro, fazem o jogo do império decadente a despeito do desprezo com o qual são vistos os brasileiros por lá. São capachos. Atuam sob a lógica da servidão voluntária: subservientes aos poderosos, porém algozes do povo pobre.”

Em resumo: para Cantalice, o governo norte-americano não interfere na política de país nenhum. Se há imperilaismo, ele se manifestaria apenas na ação dos especuladores e agentes da bolsa de valores, e não por meio dos criminosos que administram a máquina pública norte-americano. É absurdo, e para provar isso, basta lembrar de dois fatos amplamente conhecidos: o apoio do governo norte-americano ao genocídio na Faixa de Gaza e a espionagem do governo Dilma Roussef feita pelo governo dos Estados Unidos.

Chegar ao ponto de acreditar na inocência do governo norte-americano é uma demonstração do estágio em que se encontra a capitulação de Cantalice e de todo um setor da esquerda brasileira. De tanto ceder terreno para o imperialismo, Cantalice acabou se tornando um defensor da política do governo mais criminoso do planeta.

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