No sítio de esquerda Brasil 247, o jornalista Aquiles Lins escreveu o artigo Bolsonaro réu: Brasil faz história ao enquadrar golpistas nos marcos da democracia, publicado após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), na última quinta-feira (27), de tornar o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro réu por tentativa de golpe. Para Lins, “o Brasil fez história” com o julgamento prova que o Brasil agora pune golpistas e fortalece o regime democrático. Diz o jornalista:
“O mundo observa o Brasil, que, ao colocar um ex-presidente alinhado às ideias do fascismo no banco dos réus por atentar contra a democracia, sinaliza que não há mais lugar para a impunidade para golpistas. O Brasil está escrevendo sua própria história e mostrando ao mundo que não se curva ao autoritarismo. A condenação de Jair Bolsonaro e dos demais envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro será mais do que um veredicto judicial; será uma lição de que a democracia é um bem inegociável.”
Como, porém, sustentar que um regime político nascido de um golpe de Estado como o ocorrido em 2016 (“com o Supremo, com tudo”), com a Petrobrás retalhada para ser entregue às potências imperialistas, o Banco Central atuando abertamente contra o governo eleito e o bolsonarismo reunindo milhares nas ruas, é imune a golpes e representa uma democracia? Aqui, o argumento é simples: isso não é democracia, ou pelo menos, não é um regime democrático.
O Judiciário, que Lins vê como herói, é o mesmo que derrubou Dilma Rousseff em 2016. É o mesmo que aprovou o absurdo completo da prisão após condenação em segunda instância e mandou para a cadeia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dos 11 ministros atuais, sete votaram pelo golpe, mais Alexandre Moraes (indicação do golpista Michel Temer) e André Mendonça e Kassio Nunes Marques (escolhas de Bolsonaro). Esse STF abriu caminho para Bolsonaro chegar ao poder e agora o julga. Se era golpista em 2016 e 2018, o que mudou em 2025 para virar bastião da democracia?
São questões fundamentais sobre a natureza do órgão máximo do Judiciário, porém o jornalista simplesmente atropela os fatos. É como se o que o STF realmente faz não importasse, o que é um engano terrível.
Lins desconsidera que o mesmo STF que hoje julga Bolsonaro foi um ator decisivo nos ataques contra a população na última década. Se agora se volta contra o ex-presidente, isso não significa um compromisso com a “democracia”, mas sim um ajuste de rota dentro dos marcos institucionais que ajudou a moldar.
Acreditar que o julgamento de Bolsonaro representa uma virada democrática é ignorar que esse mesmo tribunal referendou a destruição de direitos trabalhistas, manteve intocável a política econômica que sangra os cofres públicos em favor do vampirismo financeiro e não impediu que governadores e prefeitos massacrassem trabalhadores durante protestos. A “democracia” que Lins enxerga é, na prática, uma ordem em que o grande capital dita as regras e a justiça age seletivamente para conter ameaças à estabilidade do regime.
Outro aspecto ignorado pelo articulista é que a força do bolsonarismo não reside exclusivamente na figura de seu líder, mas sim em sua base social e nas engrenagens institucionais que a sustentam. A prisão de Bolsonaro, caso ocorra, não significará o desmonte da extrema direita no Brasil, mas um fortalecimento dos setores responsáveis por criá-lo, por golpear o País e por atacar duramente os trabalhadores desde o golpe de 2016.
Fora isso, o sucesso do STF, longe de enfraquecer o bolsonarismo, reforçará sua campanha dedicada a mostrar Bolsonaro e demais figuras do campo como perseguidos políticos (o que de fato são), galvanizando ainda mais seus apoiadores. Uma verdadeira ação democrática seria enfrentar a direita politicamente, mas, para isso, seria necessário a esquerda aliar-se ao povo e se descolar do imperialismo, o que implica também em se opor ao STF.
No fundo, a leitura otimista de Lins sobre o momento político ignora a questão central: a “democracia” de que fala nunca existiu para as massas. Punir Bolsonaro dentro desse marco não significa fortalecer um regime democrático.
Finalmente, seria preciso uma grande mobilização popular, radicalizada, com os trabalhadores nas ruas, fazendo greves, ocupando fábricas, os estudantes e camponeses mobilizados, em um cenário de efervescência política muito grande, a exemplo do que o País vivia nos anos 1980, quando a Ditadura Militar (1964-1985) foi derrubada. Nada disso está ocorrendo, de modo que a suposta solidez do regime imaginado por Lins como democrático não tem fundamento social. É apenas a fé cega do autor no Judiciário. Se há uma lição a ser aprendida, é que confiar no judiciário é um erro que já custou caro no passado e pode custar ainda mais no futuro.





