Brasil

A que interesses o governo realmente serve?

Se a 'elite' dona de escravos há 200 anos escandaliza o autor, que dizer dos banqueiros, donos dos escravos modernos e de representantes como Haddad e Tebet?

No artigo O que realmente está em jogo, publicado no portal de esquerda Brasil 247 no último dia 3, o sociólogo e publicitário Oliveiros Marques retoma uma tese tipicamente identitária, segundo a qual o Brasil seria uma nação condenada pelo pecado original, a saber, “o saque e a escravização de seus povos originários e de africanos e africanas sequestrados de seus reinos do além-Atlântico”. Desta origem amaldiçoada, segundo o pequeno-burguês, teríamos uma “elite não aceita qualquer milímetro de avanço em direção à melhoria da vida desses homens e mulheres que, para ela, são descartáveis”, continuando ainda:

“Uma elite que se constrói a partir de terras que recebe graciosamente; da produção de uma droga que, ao adoçar, vicia; ou de outra que, da mesma forma, ao servir de estimulante, cria dependência. Ou se fortalece, ainda, da destruição do meio ambiente para saquear ouro e diamantes a serem enviados para outros países.”

A fim de objetividade no debate, pularemos o anacronismo gritante em “escravização dos povos originários e de africanos” para nos concentramos no fato de que ao contrário do que defende Marques, a crítica moralista contra a classe dominante não é o que realmente está em jogo. O que “aqueles que não compactuam com a exclusão e a concentração de renda” realmente devem debater é “se a classe dominante é assim, porque manter uma aliança com seus partidos, especialmente dado que até aqui, tal união entre polos opostos só serviu para desmoralizar a luta dos trabalhadores?”

Nem por acaso o autor entra nessa questão, porém ela é fundamental para  a esquerda compreender o que está se passando com o País. Esse é o questionamento de quem não quer repetir a ladainha de um País condenado à danação eterna, mas uma sociedade complexa, dinâmica, onde uma luta se trava e dessa luta se decide se “nós” (aqui compreendido como “os trabalhadores”, seguindo a figura de linguagem infeliz usada por Marques) teremos a melhoria de vida que o autor pede, ou “eles” (a classe dominante, ainda conforme o texto) conseguirão fazer seus interesses prevalecer.

Falar que a “elite” não aceita, ora, é chover no molhado. Finalmente, em nenhum lugar do mundo a burguesia dá nada para os trabalhadores, exceto sob muita pressão e, como lembram Marx e Engels, prontos a tomarem com a mão esquerda o que deram com a direita. Porque, porém, um governo eleito para fazer o interesse dos trabalhadores não consegue fazê-lo? A aliança com essa “elite” tem ajudado ou atrapalhado?

O autor foge dos questionamentos políticos porque isso obrigaria, em primeiro lugar, a reconhecer que o governo está adotando uma política suicida. A frente ampla, defendida pela esquerda pequeno-burguesa, não é, finalmente, com o que Marques chama de “gado” em seu texto, mas com a própria classe dominante, ou, para usar a analogia ruim do autor, os “pecuaristas”, os donos de tudo.

Ora, se essa classe social que a esquerda pequeno-burguesa gosta de chamar de “elite”, a burguesia e, mais concretamente, o setor da burguesia ligado ao imperialismo “não aceita qualquer milímetro de avanço”, qual o sentido de se manter uma aliança com os partidos que os representam? O normal seria o oposto, expulsar esse setor do governo.

Mais concretamente, isso implicaria em tirar a latifundiária Simone Tebet do Orçamento. Implica também em expulsar os representantes dos banqueiros, Fernando Haddad, Gabriel Galípolo, Geraldo Alckmin e toda a equipe econômica, para não esquecer a ministra do Meio Ambiente Marina Silva, funcionária do banqueiro George Soros.

Se a “elite” que tinha uma determinada quantidade de escravos oriundos da África há 200 anos escandaliza o autor, que dizer dos banqueiros, proprietários dos escravos modernos, que ultrapassam a marca de 100 milhões de trabalhadores brasileiros e vivem para produzir riquezas para esses grandes proprietários de tudo? Os donos de escravos de séculos atrás nos são indiferentes em 2025, mas os banqueiros a quem a trupe de direitistas infiltrados no governo servem, não.

Compreender o processo histórico que produziu o Brasil contemporâneo é importante, não há dúvidas. É preciso, porém, fazê-lo com senso crítico. Os donos de fazendas de cana-de-açúcar do Nordeste do século XVII morreram. As dezenas de escravos que eles possuíam para produzir também já se foram há muito tempo, assim como toda a estrutura social e econômica daquele mundo.

No mundo moderno, são os banqueiros e os grandes capitalistas ligados aos monopólios da economia mundial o que se poderia chamar de “elite”, e eles estão no governo Lula, por meio de funcionários dedicados a cortar gastos com Bolsa Família e BPC para garantir o suposto equilíbrio das contas públicas, como fazem Haddad, Tebet e Alckmin. Estão no comando do Banco Central Galípolo e cia., arbitrando juros estratosféricos para asfixiar a economia, desempregar os trabalhadores, mas garantir a rentabilidade da rolagem da dívida pública. Estão no Ministério do Meio Ambiente emperrando qualquer tentativa do governo sequer saber o que temos de riqueza na Margem Equatorial e na Amazônia, para assim, garantir que tudo será deles e no tempo certo.

Finalmente, quer Marques tenha consciência disso ou não, também estão na cabeça dos esquerdistas que se dedicam à tarefa de atacar a história do Brasil e as tentativas de se desenvolver o País, sob o argumento de que isso significa “destruição do meio ambiente para saquear ouro e diamantes a serem enviados para outros países”.

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