História da religião

Os judeus mataram Jesus Cristo?

Como um dogma religioso foi criado a partir das necessidades políticas da Igreja

Tradicionalmente, na liturgia cristã, a culpa pelo assassinato de Jesus Cristo é colocada nos judeus. O tema aparece como uma pequena parte no grande debate interno da Igreja desde o Segundo Concílio do Vaticano realizado nos anos de 1960 com o objetivo de modernizar a instituição. Enquanto João XXIII e Paulo VI modificaram orações que maldiziam os judeus, Bento XVI, representante da ala conservadora do catolicismo romano, permitiu aos fiéis insatisfeitos com a reforma realizar a oração da Sexta-Feira Santa em sua forma original. No entanto, qual a realidade? Seriam os judeus os culpados pela morte do Cristo?

O consenso entre os historiadores modernos é que teriam sido os romanos que assassinaram Jesus Cristo. Primeiramente, a crucificação era um método de execução desconhecidos pelos judeus palestinos antes da chegada dos romanos; os judeus usavam a degola, o apedrejamento e a decapitação nos condenados à morte. Para além deste fato, sob a ocupação romana, as autoridades judaicas só podiam julgar e punir judeus por questões religiosas. Ainda que Jesus tenha sido condenado no Sinédrio, o seu encaminhamento a Pôncio Pilatos mostra que a questão cabia aos romanos. Quanto ao motivo da crucificação de Jesus, não há consenso. Porém, este método era reservado à execução de rebeldes políticos.

Fica a pergunta: por que, então, a Igreja atribuiu aos judeus a culpa pelo assassinato de Cristo? A razão é um tanto evidente. Com a institucionalização do cristianismo em Roma, não cabia atribuir aos romanos a morte do Messias. O dogma religioso devia se adaptar às necessidades políticas da nascente Igreja católica apostólica romana.

O Império Romano, no entanto, deixou de existir, pelo menos a sua porção ocidental, no ano 476, o que não explicaria a manutenção do “antissemitismo” cristão da Idade Média em diante. Para tanto, é preciso compreender o papel histórico cumprido pelos judeus na Europa feudal.

É comum em sociedades pré-capitalistas que diferentes integrantes de um mesmo grupo étnico, ou religioso, minoritário cumprissem um papel produtivo parecido. No caso dos judeus, tratavam-se de mercadores e usurários, eram como os banqueiros antes dos bancos. Nesse contexto, o cristianismo aparece como uma manifestação ideológica do conflito material entre uma economia agrária muito atrasada e um setor com o qual esta estava endividada.

Nos dias de hoje, o antissemitismo não é nem de perto o que fora outrora. O próprio Bento XVI colocou, enquanto era Papa, que a expressão “os judeus” empregada por João “não indica de nenhum modo o povo de Israel como tal”, que tal expressão “tem um significado preciso e rigorosamente limitado”, ou seja, “a aristocracia do Templo”. Na verdade, se a colocação do Papa de extrema-direita pode servir de parâmetro, a ala conservadora da Igreja católica, patrona tradicional do antissemitismo, mantém excelentes relações com o sionismo, cujo setor religioso vê gentios como pessoas de segunda categoria.

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