O MRT publica em seu sítio, Esquerda Diário, uma matéria chamada ‘Um ano de guerra na Ucrânia”. Segundo o texto “em 24 de fevereiro de 2022, o exército russo invadia a Ucrânia e dava início à reacionária guerra que hoje completa um ano”. A leitura que o MRT faz da operação militar russa é parcial e equivocada, pois a Rússia esteve por muito tempo tentando impedir que a Ucrânia fosse admitida no OTAN. A invasão, portanto, foi um ato legítimo de defesa.
É preciso lembrar que a Ucrânia já estava com seu segundo presidente fantoche. O país, que teve a Rússia como seu principal parceiro comercial, sofrera um golpe em 2014 orquestrado pelo imperialismo. A partir de então, as relações se deterioraram, começou um processo de nazificação intenso no país e a perseguição às minorias russas.
A hostilidade entre Rússia foi totalmente fabricada pelo imperialismo, especialmente o americano, que preparava os ucranianos como ponta de lança para agredir os russos.
O segundo parágrafo – contraditório – da matéria diz que “O regime reacionário de Putin, a serviço dos interesses capitalistas da oligarquia russa, tentou preservar sua zona de influência com a invasão à Ucrânia, tendo em vista a política hostil da OTAN que nos últimos anos (desde a dissolução da URSS) vem se expandindo através do leste europeu com tropas e mísseis apontados à Russia. Ucrânia, com o governo abertamente pró imperialista de Zelensky, se encontra em meio a essa disputa”.
Ora, a OTAN, com o fim da URSS e do Pacto de Varsóvia, não tinha motivos para continuar existindo. Havia uma promessa de que a Organização não expandiria em direção ao Leste. No entanto, nada disso foi cumprindo, houve a adesão de mais de trinta países e a Rússia foi sendo cercada por forças militares. Sendo assim, não se trata de Putin estar interessado em ‘preservar sua zona de influência’, mas de se defender, o que é legítimo. Se o regime de Putin era reacionário não faz a menor diferença.
Um dos truques da matéria é recorrer à figura da ‘oligarquia russa’, uma expressão que a todo momento aparece na imprensa burguesa para indispor os leitores com a Rússia. Como se não existissem oligarquias no restante do mundo. Se o problema fosse esse.
É curioso, pois o texto reconhece que “imperialismo estadunidense que saiu da guerra do Afeganistão ferido em sua hegemonia e que encontrou nessa reacionária guerra a possibilidade de se refortalecer frente às demais potências”. Além de ressaltar que “milhões [de pessoas] no mundo sofrem com a alta inflacionária dos alimentos e outros produtos básicos, com a crise energética e com as sanções impostas à Russia por parte das potências imperialistas”.
No final da matéria são apresentados diversas ligações para outras matérias do MRT sobre o tema. Destacamos a que foi veiculada no dia 2 de fevereiro, seis dias após o início da operação militar russa na Ucrânia, sob o título “Não à guerra! Fora as tropas russas da Ucrânia! Fora OTAN da Europa Oriental! Não ao rearmamento imperialista!”.
Em primeiro lugar, repudiam completamente a operação militar da Rússia. Apesar de, como já demonstramos, tratar-se de uma ação defensiva. Em seguida, elencam uma série de medidas contra a Rússia, como as sanções, congelamento de ativos; mencionam o envio de “armamento e apoio logístico ao governo ucraniano”. Disseram que o governo alemão “deu um verdadeiro giro histórico aprovando o envio de armamento letal a países em conflito e autorizando um gasto adicional de 100 bilhões de euros no seu orçamento militar, o que superaria 2% do seu PIB”. E que “a União Europeia decidiu conjuntamente dar o passo sem precedentes de financiar a compra e a entrega de armas para Ucrânia no valor de 500 milhões de dólares”. Concluindo que “por enquanto o limite das potências da OTAN seja não entrar em um enfrentamento militar direto com a Rússia”.
Ora, é justamente isso, trata-se de uma guerra por procuração. O MRT escreve e não consegue tirar as conclusões daquilo que acaba de dizer. Seguindo o fio dos acontecimentos, como eles mesmos admitem, o imperialismo americano, após a derrota no Afeganistão, viu na guerra uma possibilidade de se fortalecer. A União Europeia, que está sob a mão de ferro dos EUA entrou na briga e começou a enviar armas para a Ucrânia. Portanto, trata-se de uma guerra da OTAN contra a Rússia usando a Ucrânia como intermediária. Isso desmente o ponto seguinte, onde afirmam que “A invasão russa na Ucrânia é uma ação claramente reacionária” e comprova que o país está apenas se defendendo.
No ponto 2, o texto afirma que “nas repúblicas separatistas do Leste ucraniano, também é necessário se opor à ocupação russa, enfrentando a demagogia de Putin que utiliza as justas demandas da população de origem russa para seus interesses”. Essa é uma completa falsificação da realidade. Foi a população do Donbass que ficou durante oito anos pedindo socorro para Moscou pois estavam sendo massacrados pelos nazistas dos batalhões Aidar e Azov. O apoio russo foi e está sendo fundamental para a libertação da região. As milícias populares de Donetsk e Lugansk estão integrando as forças russas e finalmente podem lutar em condições de igualdade o exército ucraniano.
Existem inúmeras outras questões que poderíamos ressaltar no texto, que vão desde o blá-blá-blá da perseguição às minorias sexuais, até a condenação russa de apoiar a Síria contra o Estado Islâmico. Mas esses que expusemos dão uma visão de como tem agido parte da esquerda que, ao se opor à Rússia, estão se colocando nas trincheiras do imperialismo, por mais que tentem negar essa dura constatação.
Este primeiro ano do início do conflito militar na Ucrânia revela um profundo enfraquecimento do imperialismo que recebeu golpes duríssimos na Síria e no Afeganistão. Em decorrência disso, diversos países oprimidos estão se levantando. O continente africano está praticamente se rebelando. As agressões do imperialismo contra a China, especialmente na questão de Taiwan, parecem estar em um impasse pois está difícil montar uma coalizão militar regional para enfrentar os chineses, uma vez que há pouca confiança dos aliados dos Estados Unidos.
Correndo por fora, o BRICS se fortalece e aparece como mediador da paz, contrariando frontalmente os interesses americanos que apostam no prolongamento do conflito. E, um dado importantíssimo, Rússia e China, os países que mais sofrem assédio do império, compõem o bloco. O terreno político mundial está em franca movimentação, principalmente porque a classe trabalhadora europeia começa a levantar a cabeça e a entrar em atrito com a burguesia.





