O Esquerda Diário publica uma matéria sob o título “Após um ano da morte de Moïse seus assassinos seguem sem data pra julgamento” e duas coisas devem ser observadas: 1) os acusados do crime estão presos preventivamente sem que ainda tenha ocorrido o julgamento e 2) a punição dos autores não encerra o problema da morte da população negra no Brasil.
É notório que no Brasil as pessoas fiquem presas indefinidamente. Atualmente, 35% dos presos ainda não foram julgados e setores da esquerda ainda passam parte de seu tempo tentando criar outros tipos de crimes e ampliação de penas. No Massacre do Carandiru, de 1992, dos 111 mortos apresentados pela polícia, 84 não tinham sido julgados. Não vai demorar muito e o nosso país, que tem a maior população carcerária do mundo, vai subir no ranking pois teremos presos por ‘fobias’ e ‘discursos de ódio’, manifestantes serão tratados como terroristas. Uma verdadeira farra judiciária.
Para relembrarmos o caso, Moïse Mugenyi Kabagambe, um jovem imigrante congolês, foi assassinado no dia 24 de janeiro, no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, onde prestou serviços sem vínculo empregatício. Na ocasião, Moïse foi cobrar uma dívida de R$ 200. O dono do quiosque e mais dois indivíduos que o surpreenderam e o assassinaram a pauladas.
O texto diz que a esquerda saiu em protesto pela morte de Moïse, no entanto, é preciso lembrar que muito esforço foi feito para tentar fazer dos protestos um evento identitário. A própria Coalizão Negra por Direitos, tratou de colocar como porta-voz Wesley Teixeira, um político do Psol que foi financiado pelo banqueiro Armínio Fraga, um dos responsáveis pela política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, que chegou ao assombroso número de 300 crianças morrendo diariamente de fome.
Punição
Pedir a punição dos três envolvidos no assassinato brutal de Moïse não enfrenta de fato o problema. Existe uma política de Estado para assassinar trabalhadores negros e especialmente os jovens. A polícia mata impunemente nas periferias. Os protestos contra a morte do jovem congolês poderia ter servido para se denunciar essa situação. O problema é que as reivindicações identitárias são de cunho moral.
O texto da matéria termina com “nossa classe trabalhadora que é composta de congoleses, haitianos, angolanos, negros e negras, lgbts, precisamos lutar para impor justiça por Moïse”. Essa divisão ‘negros e negras’, ‘lgbts’ etc., é uma pedra no sapato da esquerda, pois fica lutando por identidades, gêneros e deixa de lado a essência da questão que é a luta de classes.
Nenhuma luta moral, contra o racismo, contra a xenofobia, vai alterar a situação do negro. Enquanto perdurar a divisão de classes teremos esse quadro. A tentativa de ‘reformar’ as mentalidades, de educar as pessoas, só fará atrasar o desenvolvimento da luta contra a burguesia.
Hoje, por exemplo, vemos inúmeras propagandas de bancos fazendo demagogia identitária. Os bancos são os principais responsáveis pela situação de miséria dos negros e demais setores oprimidos. O parasitismo do capital financeiro aumenta a crise social e com ela aumenta a repressão, pois apenas assim a burguesia consegue controlar a população.
Enquanto a pressão identitária consegue colocar pessoas negras, ou minorias sexuais na televisão, se passa a ideia de que a situação social estão melhorando, o que é totalmente falso.
Não existe possibilidade de emancipação para a população negra, e demais setores oprimidos, sem que haja uma revolução social. Colocar pessoas em altos cargos só vai resolver o problema delas mesmas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, já vimos presidente negro; a atual vice-presidenta é negra, o secretário de defesa é negro e nada, absolutamente nada melhorou para a população negra daquele país. Aqui também não é diferente, basta relembrarmos a atuação de Joaquim Barbosa no julgamento do Mensalão, ou o governo de um Eduardo Leito, no Rio Grande do Sul.
A classe trabalhadora, a esquerda, precisam superar, desmascarar o identitarismo, pois é uma ideologia burguesa que quer tratar tudo com o fortalecimento das instituições do Estado, o que representa um grande entrave, pois estes são inimigos dos trabalhadores.
Não basta pedir apenas punição para os assassinos de Moïse, é preciso mostrar que essa morte é mais uma cometida dentro de um sistema que esmaga o negro, seja no seu salário, na precarização do trabalho, na atuação das polícias e na Justiça, que o persegue e encarcera os negros atirados na pobreza.





