O novo Bolsonaro?

“Dois programas reacionários de Lula”, mais um surto esquerdista

Depois dos stalinistas, dos morenistas e dos “nacionalistas”, agora, os maoístas aderem à campanha golpista contra o presidente Lula

A esquerda autoproclamada revolucionária tem com grande frequência um problema político que Lenin designou como esquerdismo, a doença infantil do comunismo. É algo que aflora mais quando um governo de esquerda está no governo, principalmente em países atrasados, como o Brasil. Nesse caso, o caráter ambíguo de governos de tipo nacionalista confunde muito a esquerda. É o caso da organização Nova Democracia que publicou em seu sítio o artigo “Editorial semanal – Dois programas reacionários em contenda” tratando da questão de Lula e do Banco Central. A organização maoista segue a tendência da esquerda golpista, considerando Lula um inimigo dos trabalhadores do campo e da cidade.

O texto começa abordando a questão do Banco Central, da taxa de juros e de como a política atual, de seu presidente bolsonarista Campos Neto, é ruim para a economia brasileira. Ele afirma que a “independência” do Banco Central é uma humilhação para a nação. Até aí, apenas criticando o BC, não há nenhum grande problema. Nas logo de cara a ND já começa a atacar o governo Lula: “Por que razão o governo, dito comprometido com esses temas caros à Nação, não se lhe modifica isso?” Aqui está claro já o erro da análise dos maoistas, Lula não estaria tentando mudar essa política do BC, toda a sua disputa com o banco, os ataques diários da imprensa seriam apenas uma bravata.

O artigo continua: “o governo, sem coesão interna, eleito por apenas um terço do eleitorado e fustigado dia sim, outro também pelos generais golpistas e tutores da Nação, vê em sério risco sua frágil situação em caso de manter os juros altos. Luiz Inácio precisa entregar resultados prometidos na campanha eleitoral, o que demanda baixar os juros para aplicar seu “desenvolvimentismo”, mais alinhado à fração burocrática da grande burguesia.” A ND acerta que o governo está fraco por não ter coesão interna e na questão dos generais golpistas. Eles no entanto erram no ponto de ⅓ do eleitorado, Lula foi eleito com sua maior votação da história. O problema são os ⅔ do eleitorado mas sim que quase 60 milhões votaram em Bolsonaro, essa divisão polarizada é o que gera a instabilidade para o governo Lula.

O texto então argumenta que o governo Lula está preso em uma disputa da burguesia nacional contra o imperialismo: “Essa é a contradição em jogo, uma disputa no seio das classes dominantes locais sobre qual programa aplicar para tentar impulsionar o capitalismo burocrático, para o que necessita sacar a economia da grave crise a que se arrasta desde 2015, balançando-se sobre o terremoto que seu estado de decomposição provoca.” E mais que isso, há duas alas do governo que defendem o interesse de cada uma dessas classes: “uma encabeçada por Mercadante, presidente do BNDES e alinhado à fração burocrática; e outra por Fernando Haddad e Simone Tebet, mais alinhados à fração compradora, que buscam conter os ímpetos de Lula.”

Aqui fica escancarado o esquerdismo na Nova Democracia. O governo Lula, fruto da luta contra o golpe de Estado que durou 6 anos, não tem relação nenhuma com a classe operária. Ele é um misto entre a burguesia nacional e o imperialismo. Essa definição está muito mais próxima do que era o governo Bolsonaro, mostrando a loucura da argumentação da ND. O presidente Lula tem uma enorme base na classe trabalhadora, tem relações com a CUT, com o MST, a CMP e de fato tem uma política voltada para os trabalhadores, mesmo que reformista. Isso não quer dizer que ele não aplica também políticas que beneficiem os empresários brasileiros. A sua política portanto está mais baseada nesse equilíbrio, classe operária e burguesia nacional.

A política que Lula quer para o BC é uma de benefício tanto dos empresários brasileiros quanto dos trabalhadores em detrimento dos bancos. Mercadante e Haddad nesse sentido seguem essa política de Lula, ao contrário de Tebet, que é uma representante do imperialismo e dos latifundiários no governo Lula. A diferença de Mercadante para Haddad é que o segundo parece estar cedendo mais a pressão da direita, que é gigantesca. Talvez pois Haddad é de uma ala mais direitista do PT, ou talvez por ser mais pressionado, dado que é o ministro mais importante do governo. Mas é crucial diferenciar um esquerdista pressionado pela direita de um direitista lacaio do imperialismo. É a diferença entre Haddad e Campos Neto por exemplo.

O texto então, após atacar os ministros de Lula, segue atacando o próprio presidente: “Mas a verdade é que Luiz Inácio, em seus apelos por baixar a taxa de juros porque isso compromete a crescimento econômico, não propugna nenhum programa progressista consequente.” De fato o PT não tem um programa definido, Lula nesse sentido é muito pragmático, mas é um absurdo atacar o governo nisso, que é onde está sendo mais progressista. Lula e Mercadante estão afirmando ser necessário crescimento econômico, reindustrialização, que não irão salvar a Americanas, que deu um golpe bilionário no Brasil. O programa pode não ser definido mas certamente é progressista e deve ser apoiado pelas organizações de esquerda.

A Nova Democracia posteriormente tenta ligar o governo Lula a questão do latifúndio, por ser uma organização maoista, ligada a luta pela terra. Eles afirmam que a base de sua política econômica é: “financiamento aos monopólios da grande burguesia para obras com dinheiro público e ao agronegócio para gerar receita, visando alavancar o capitalismo burocrático e reativar a economia com base ao nível superior de exploração e opressão dos trabalhadores, e seguir pagando a dívida, favorecendo o açambarcamento da economia pelo capital imperialista e, o mais importante, tendo como centro o latifúndio.” e que “Isso nada tem de progressista – tanto que seu principal expoente, na história recente do Brasil, foi o general ultrarreacionário Ernesto Geisel.”

A comparação da política e Lula com a política de Geisel é um tanto extravagante. Interessante é que Lula liderou o movimento pela derrubada da ditadura militar, que nas primeiras greves tinha como presidente o próprio Geisel. A ND portanto considera que o governo Lula é semelhante à Ditadura Militar no Brasil. É uma versão confusa da ideia de que Lula seria neoliberal, mas visto que existem uma oposição muito grande ao PSDB, é mais fácil realizar uma comparação com os militares, ou seja, Lula seria um pseudo nacionalista. Aqui novamente aparece uma análise muito mais parecido do que foi o governo Bolsonaro do que é o governo Lula. O esquerdismo da ND impede que se enxergue o caráter de esquerda do governo e o seu potencial nacionalista real, não como Geisel mas sim como Getúlio Vargas ou Hugo Chaves.

O texto fecha atacando a política de Lula em relação ao latifúndio. De fato, é uma política muito tímida, que mal fala de reforma agrária. Mas é fato que o MST apoiou em peso o presidente Lula por considerar que o seu governo é um grande aliado na luta contra a latifúndio, algo que a ND ignora completamente. A diferença do bolsonarismo para o governo Lula é gritante no campo, onde o bolsonarismo domina existe uma verdadeira ditadura dos latifundiários, de seus pistoleiros e da PM. O PT quase não tem poder no campo mas tendo o governo federal os trabalhadores do campo entendem que isso é um caminho para a luta contra essa ditadura sanguinária das áreas rurais.

A ND, então, se soma à esquerda golpista, taxando Lula de direitista e atacando-o pela esquerda. Ela não cita em momento nenhum a relação de Lula com a classe operária e os demais oprimidos. Esse grupo considera Lula um lacaio da burguesia nacional e do imperialismo, e não um presidente que trava uma luta contra o imperialismo e tenta ter algum respaldo entre setores da burguesia nacional. A mobilização tímida dos trabalhadores é o que gera essa confusão, mas a Nova Democracia não ajuda quando ataca o governo Lula quando este está sob forte ataque da burguesia. Deveria, isso sim, mobilizar os trabalhadores em defesa das políticas progressistas que o próprio presidente demonstra apoiar, como a própria reforma agrária, aumento real do salário-mínimo, geração de empregos, etc.

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