Coluna publicada por Adamo Antonioni Insfran no Brasil 247 questiona: “vale tudo para derrotar Bolsonaro?”. O autor utiliza como mote a estratégia de André Janones, um bolsonarista infiltrado na campanha do PT, que busca fazer uma campanha propagandística suja contra Bolsonaro, vendendo ao PT a ilusão de que isso combateria o bolsonarismo no âmbito das ideias.
Por difusão de mentiras contra Bolsonaro, Janones está sendo processado pelos partidos da coligação bolsonarista. Insfran, então, inicia uma reflexão pretensamente teórica e filosófica sobre a verdade.
Na verdade, passa boa parte do seu texto se masturbando intelectualmente com a teoria de Michel Foucault a respeito da verdade para enrolar o leitor questionando o que seria a verdade, que seria algo subjetivo possivelmente que cada um pode reivindicar para si. Sendo que a verdade, em última instância, como bem diz o ditado, é uma só. E o mundo material e a ciência são os responsáveis por nos levar ao caminho da verdade. O autor não acredita nisso, ou diz ao leitor que não é bem assim, para justificar sua tese de que podemos sim combater as mentiras bolsonaristas com nossas próprias mentiras, pois podemos considerar que elas não são mentira, mas sim verdade ─ mesmo sendo mentira.
O autor diz que os bolsonaristas buscam atribuir a Bolsonaro o poder de decidir o que é e o que não é a verdade ─ mas não diz que Bolsonaro está longe de ter esse poder, e que quem realmente está consolidando este poder é o STF e seu presidente, Alexandre de Moraes, isso sim um perigo ameaçador para a sociedade.
A matéria também afirma que é uma característica do “bolso-fascismo” a “produção em série de desinformações baseadas em pânicos morais, medo e ansiedade que tem como alvo a família”. Mas isso não é novidade nenhuma e tampouco uma invenção de Bolsonaro. A burguesia sempre utilizou os preconceitos morais, particularmente a questão familiar, para atacar a esquerda. Aliás, antes mesmo da burguesia, a Igreja já fazia isso. É algo que vem de muitos séculos, uma tradição das classes dominantes. Antes de surgir o bolsonarismo, esses preconceitos já vinham sendo muito disseminados pelos mesmos que hoje se dizem “civilizados”, ou seja, a direita tradicional, os grandes meios de comunicação de massa e as instituições do Estado. Tudo isso ficou evidente principalmente quando Lula e o PT passaram a ser um incômodo para a burguesia e o imperialismo e a campanha contra eles foi a que deu origem ao bolsonarismo. Logo, essa desinformação baseada no moralismo é culpa dos genitores de Bolsonaro mais do que do próprio Bolsonaro, que se aproveitou disso para realizar a sua própria campanha ─ campanha esta com o apoio da burguesia, porque, como dissemos, trata-se de uma realização da classe dominante, e não apenas de um segmento da sociedade ou de um indivíduo, mas de uma mobilização classista.
Curiosamente o autor acaba, ele mesmo, por apresentar uma realidade deturpada a respeito da propaganda e de quem faz essa propaganda. A sua conclusão, então, só pode ser uma (mas será verdade?): André Janones é um grande propagandista do antibolsonarismo.
“Essas estratégias, táticas e artimanhas que a extrema-direita tem se utilizado são muito mais numerosas, tênues e sutis, mas algumas delas André Janones têm conseguido compreendê-las, dominá-las, executá-las contra seus criadores e, dessa forma, participar das relações de poder de uma maneira inédita, dando maior equilíbrio nas lutas políticas que se desenrolam nas mídias sociais”, escreve.
Um exemplo desse grande “empreendimento janônico” teria sido o ataque contra Bolsonaro a respeito da maçonaria. Segundo Insfran, Janones agiu como um gênio!
“O empreendimento janônico consiste em se utilizar das estratégias bolsonaristas contra eles próprios, apropriando-se das ferramentas de viralização como emoção, senso de urgência e tom alarmista para pautar a extrema-direita, mobilizar a militância progressista e criar ceticismo ou ampliar a rejeição entre indecisos, uma estratégia que a campanha do PT não conseguia executar com tanta eficiência”, diz.
O que o autor defende é que a esquerda adote essa estratégia “janônica”, que não passa de uma tentativa fajuta de imitação da propaganda bolsonarista. Mas há dois problemas fundamentais: o primeiro é que a esquerda não tem o aparato de propaganda de Bolsonaro e o segundo é que imitar sua propaganda consiste em aderir, na prática, à sua ideologia.
Foquemos nesse segundo aspecto, que é o mais nocivo para a esquerda. A ideologia fascista move as massas através do desespero. É por isso mesmo que a massa mobilizada pelo fascismo é a classe média histérica e os setores mais atrasados da classe operária, que já não têm nenhuma perspectiva de futuro. A propaganda fascista apela para os piores instintos do ser humano, para preconceitos e emoções, a fim de manipulá-lo. É isso que o autor está propondo que a esquerda faça?
A propaganda da esquerda, por outro lado, sempre foi oposta a essa. Enquanto os fascistas apelam à histeria e aos preconceitos, com alta carga emocional, portanto irracional, os comunistas, por exemplo, sempre apelaram para a razão. Tanto é que a principal arma dos bolcheviques na revolução russo era o convencimento político dos trabalhadores, mais até do que as espingardas. A propaganda “janônica” não busca convencer, mas amedrontar. Essa é a tática fascista, utilizando inclusive mentiras contra o adversário. Insfran defende a “batalha em torno da noção de verdade”, o que é o mesmo que defender uma guerra de mentiras. Mas, ao contrário do fascismo, a esquerda busca elevar a consciência das massas, e não manipulá-la. Para isso é preciso usar como arma a verdade e repudiar veementemente qualquer tipo de mentira.
A ideia apresentada pelo autor do texto é típica da esquerda pequeno-burguesa identitária, que, em alguns aspectos, assemelha-se realmente ao fascismo, principalmente em sua histeria e moralismo. Mas as massas não são pequeno-burguesas nem identitárias e não movem-se fundamentalmente pela histeria nem pelo moralismo. Movem-se pela razão e pela realidade concreta, pelo mundo material.
Devido a essas ideias, esse setor da esquerda fica histérico quando depara-se com uma possível vitória de Bolsonaro nas eleições. Como são craqueiros eleitorais, veem as eleições como o último terreno de luta contra o fascismo. Por isso estão desesperados. Por isso acreditam que deve-se vencer as eleições na base do “vale tudo”. Mas e depois das eleições? A vida continua. E as massas continuarão precisando elevar sua consciência, porque só assim poderão se organizar para a sua emancipação da opressão capitalista. Porém, se a esquerda atua contra essa elevação da consciência e alimenta os piores preconceitos primitivos da população, o objetivo básico da esquerda, de ajudar na libertação da sociedade, nunca será alcançado. Pior ainda: vai alimentar o próprio fascismo que dizia combater, pois a falta de consciência, o domínio dos preconceitos e da histeria é o cenário propício para a intervenção da extrema-direita.





