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Campanha pró-imperialista

Um “UP” na campanha pró-imperialista contra o Catar

A Unidade Popular (UP) publicou artigo em seu jornal repetindo as mesmas coisas que diz a imprensa capitalista


A Copa no Catar talvez tenha sido o evento que mais uniu no mundo o imperialismo com a esquerda pequeno-burguesa. Não importa como se apresente essa esquerda; se radical, se moderada, se reformista, se “trotskista”, se “stalinista”, todos os grupos repetem, em uníssono, a campanha imperialista contra o Catar. E é incrível que, mesmo com todas as evidências, eles continuem reproduzindo essa campanha como disco arranhado.

Os papagaios da vez são os proto-stalinistas da Unidade Popular (UP). Repetem as mesmas coisas da imprensa imperialista, mas têm uma boa justificativa para isso:

Fruto da ganância da FIFA o evento vem sendo criticado pela grande mídia. Mas o que alguns veículos escondem é o apoio histórico do imperialismo dos EUA e da Europa ao atual governo do Catar.

Essa afirmação extravagante encontra-se num artigo intitulado “Copa do Mundo no Catar acontece sob sombra da corrupção e exploração do capitalismo”, assinado por Felipe Annunziata.

O autor utiliza uma manobra comum e até mesmo singela que os centristas ─ que, no final, acabam pendendo para o lado do imperialismo ─ estão acostumados a usar para atacar o alvo comum ao imperialismo “pela esquerda”. A repetição da atual propaganda pró-imperialista vem sob o pretexto de o regime a ser atacado ter recebido um “apoio histórico do imperialismo”. Ou seja, como o regime sempre teria sido apoiado pelo imperialismo, a UP apoia o golpe ou a campanha promovidos pelo imperialismo contra esse mesmo regime.

Essa lógica teria feito a UP apoiar a invasão dos Estados Unidos ao Iraque em 2003, uma vez que Saddam Hussein havia sido apoiado durante décadas pelo imperialismo. Mas não é necessário fazer conjecturas: essa foi a mesma lógica utilizada pela esquerda à UP para apoiar a manutenção da presença criminosa dos EUA no Afeganistão, condenando a insurreição popular que expulsou as tropas imperialistas em 2021 apenas porque à cabeça dessa insurreição estava o Talibã. O grupo foi originado de organizações promovidas pelo imperialismo contra a ocupação soviética na década de 1980 e, portanto, seria, até hoje, um fantoche do imperialismo. Mesmo que tenha liderado uma resistência armada e uma revolução que humilhou esse mesmo imperialismo!

O que os stalinistas da UP não entendem é que o governo do Catar encontra-se em uma contradição cada vez maior com o imperialismo dos EUA e da Europa a cada ano que passa. Já há mais de dez anos era um incômodo para eles por abrigar a Irmandade Muçulmana, maior organização popular islâmica do planeta que se tornou um movimento de resistência ao imperialismo em vários países, como no Egito, por exemplo. O Catar também criou uma rede de televisão própria, a Al Jazeera, concorrente dos grandes monopólios de comunicação imperialistas, como a CNN ou a BBC, principalmente no Oriente Médio, com uma cobertura jornalística diferente da propaganda canalha das potências capitalistas. Mais ainda: o Catar vem aprofundando sua aliança com China e Rússia, estando já, neste momento, fora da órbita dos EUA e da Europa ─ apesar de ainda ter muitos acordos com ambos, como um típico governo nacionalista burguês.

Depois de tentar aplicar um golpe no leitor, o artigo parte para a cantilena imperialista de acusações contra o Catar.

A mídia internacional passou as últimas semanas denunciando as violações de direitos humanos que ocorreram no Catar ao longo da preparação para a Copa. Há a suspeita de que o Emir do Catar pagou propinas de 880 milhões de euros a dirigentes da FIFA para sediar o campeonato.

A primeira delas, a corrupção. Como explicar, se o Catar é um aliado do imperialismo, que justamente essas acusações de corrupção foram “descobertas” em 2015 quando nada menos do que o FBI (será que foi o imperialismo?) invadiu a sede da FIFA na Suíça para prender dirigentes da entidade sob a acusação de propina justamente na escolha do Catar como sede para 2022?

A preocupação da UP com a “corrupção da FIFA” é a mesma que a do imperialismo norte-americano, não é interessante? A diferença é que redator da UP chegou sete anos atrasado nas denúncias.

A matéria não para por aí e repete, dessa vez com alguns meses de atraso, a “denúncia” do jornal imperialista The Guardian sobre as mais de 6 mil mortes nas obras da Copa. Denúncia que já foi tão desmentida quanto divulgada. Mas o autor dá como verdadeira a informação que ele recolheu da imprensa imperialista.

O problema aqui não é negar que no Catar haja exploração do trabalho. Nem mesmo negar que possa haver violação dos direitos humanos. A questão aqui é a campanha articulada do imperialismo contra um país atrasado economicamente e que uma pessoa que se diz de esquerda radical repete afirmando coisas absurdas como “estamos num evento cercado daquilo que o capitalismo mais produziu: exploração do trabalho, exclusão social e corrupção”.

Dizer que um evento capitalista do porte de uma Copa do Mundo está cercado de exploração, exclusão e corrupção é, na linguagem popular, chover no molhado. Em última instância, qualquer coisa sob o capitalismo pode ser acusada disso. A repetição desses pseudo-argumentos serve apenas para reforçar a campanha contra o Catar e disfarçar o alinhamento com o imperialismo.

“O que chama a atenção é que esse regime reacionário é sustentado com o apoio dado pelos EUA e pelo imperialismo europeu, que têm no Catar um de seus principais aliados no Oriente Médio. É graças ao governo dele, e do pai antes dele, que os EUA mantém uma estratégica base militar no país. Além disso, o Catar se afirmou como o 3º maior produtor de gás natural do mundo, sendo um importante fornecedor de europeus e estadunidenses.”

Aqui, o autor da matéria volta com sua tentativa de explicar por que o imperialismo estaria a favor do Catar, apesar de toda a campanha suja contra. De fato, grosso modo, a monarquia do Catar foi sustentada pelo imperialismo. Mas se isso é verdade, não significa que agora o imperialismo esteja lado-a-lado do governo do Catar, nem que o país é um dos principais aliados do imperialismo no Oriente Médio. Se fosse assim, por que toda essa campanha?

Por ter uma formação política de baixo nível, sem entender o que é o imperialismo e o que é o nacionalismo burguês nos países atrasados, o militante da UP tem uma posição dogmática. Uma vez que o país foi apoiado pelos EUA, compra armas dos EUA e fornece recursos energéticos para os EUA, portanto esse país não pode ser um alvo dos EUA e do imperialismo ─ tal é o raciocínio de Annunziata. Se a UP não sabe o que é imperialismo e acha que Rússia e China são imperialistas, obviamente não faz a menor ideia de que, nos países atrasados, o fenômeno do nacionalismo burguês tem um duplo caráter: ao mesmo tempo que oprime sua população, ele é oprimido pelo imperialismo. Ao mesmo tempo que tem fortes contradições com o seu próprio povo, ele também tem fortes contradições com o imperialismo. Esse é precisamente o caso do Catar.

Já que há uma incapacidade do redator em explicar as coisas, vamos ajudá-lo. O Catar está sendo vítima dessa campanha porque a monarquia procura uma posição de maior independência em relação ao imperialismo. Na semana passada mesmo o Catar assinou um acordo com a China em que garante o fornecimento de gás natural por 27 anos ao gigante asiático, por parte da companhia estatal da nação árabe, gás este extraído de um dos maiores campos do mundo. A China já é o maior importador de gás do Catar, que por sua vez é o maior exportador de gás do mundo e o imperialismo norte-americano e europeu ficaram absolutamente contrariados, uma vez que a crise energética na Europa se aprofunda com o continente buscando alternativas ao gás russo, que não pode mais importar. O Catar deu preferência aos chineses.

O autor do artigo, totalmente ignorante da realidade, não sabe de nada disso e inventa história para repetir exatamente as mesmas acusações do imperialismo contra o Catar. E mesmo com toda a campanha nos jornais, mesmo com a pressão enorme contra o país, o redator da UP tem coragem de concluir que o “Catar mantém o reconhecimento e apoio das potências imperialistas do seu regime de opressão.”

Com um reconhecimento como esse, quem precisa de não reconhecimento, não é mesmo?

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COTV

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