Um dos poucos méritos que podemos dar ao governo Bolsonaro é a tentativa de modernizar, mesmo que pouco, e com as piores intenções, os sistemas de identificação civil do estado em suas diversas áreas. Foram criados aplicativos para celular contendo cópias digitais e de mesma validade das físicas de documentos chave, como o RG, CPF, CNH e título de eleitor, coisa que a realidade atual solicita, diante de tamanha integração do nosso dia a dia com o mundo digital e também diante das enormes dificuldades que temos para lidar sobre esses assuntos com a máquina do estado, que simplesmente não funciona. Quem já passou pelo pesadelo de ter que renovar uma CNH ou procurar expedir uma segunda via do RG, sabe muito bem que a experiência pode ser até, em alguns casos traumática, o que faz as mudanças que foram feitas serem, até o momento, muito bem vindas, pois em alguma medida tiram uma parcela, mesmo que pequena do poder das repartições públicas de te enrolar e criar uma situação verdadeiramente desagradável.
A mais nova mudança que foi apresentada dentro desse expectro é a do RG, que está sofrendo uma verdadeira revolução, deixando de ser apenas mais um documento que te pedem em uma fila de algum lugar onde você não gostaria de estar, para passar a ser um documento único, que centraliza, senão todos, o essencial dos dados do cidadão em apenas um documento físico, parece ótimo, mas aparentemente, segundo alguns picaretas de carteirinha (desculpe a piadinha) esse novo pedaço de plástico (sim, plástico) é altamente periculoso.
Segundo os especialistas em luta dos oprimidos da Doritos, sim, você não leu errado, da Doritos, a marca de salgadinho, o novo RG é um retrocesso na luta dos transexuais por identidade, nas palavras da Doritos:
“Segundo o Artigo 16 do Código Civil, todo mundo tem direito ao nome. Mas, quando se trata de pessoas trans, isso vale mesmo? Este ano, a campanha DORITOS® Rainbow tem como objetivo dar protagonismo às pessoas trans, grupo mais marginalizado dentro da comunidade LGBTI+ e que enfrenta diariamente inúmeras dificuldades no que diz respeito à identidade.”
Observando esse problema, a Doritos, no auge das suas preocupações com situação dos transsexuais, propõs o seguinte:
“O movimento #RespeitaMinhaIdentidade se uniu à ANTRA (associação nacional de travestis e transsexuais) para apoiar e dar visibilidade, por meio de um abaixo-assinado, para a ação popular nº 1008800-39.2022.4.01.3500 (Novo RG – Decreto 10.977) que questiona a inclusão do campo “sexo” bem como a inclusão do “nome civil” e do “nome social” juntos no mesmo documento”
Sendo simples, o que está acontecendo aqui é o seguinte: Uma empresa norte americana (claro) que fabrica salgadinhos mexicanos está promovendo uma campanha contra o novo sistema de identificação civil do Brasil, porque algum agrupamento esquerdista desocupado criou, do fundo da sua falta do que fazer, a ideia de que um pedaço de plástico contendo um conjunto de números de identificação e informações a respeito de um indivíduo, oprime um setor da sociedade. Façam-me o favor!
O fato é que, como já dito acima, o novo RG é apenas um pedaço de plástico, que não só não oprime ninguém, como é, em alguma medida, um avanço na facilitação no dia a dia da população, sendo justo, a medida não visa que o novo RG não aconteça, mas que ele não contenha os campos “sexo” e “nome civil”, sendo este último, o nome original de uma pessoa, aquele com a qual o indivíduo foi registrado, fato que não só não torna a coisa menos absurda, como a torna ainda mais esdrúxula, pois quando visto desse lado, vemos que a preocupação é que na realidade, um conjunto de informações objetivas a respeito da fisionomia e do registro civil de um cidadão, escritos em um pedaço de plástico são os verdadeiros perigos.
Sinceramente, seria o caso de perguntarmos à Doritos, já que há uma clara preocupação da empresa com a situação dos oprimidos e esmagados da sociedade, o que ela tem a dizer sobre as condições dos trabalhadores que produzem os seus salgadinhos…





