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Marxismo

Sobre o partido “operário”

Texto escrito por Leon Trótski em 7 de agosto de 1940; artigo extraído da Fourth International, de outubro de 1940, e traduzido pelo Arquivo Marxista na Internet

Pergunta: Existiram, em sua opinião, diferenças políticas suficientes para justificar uma cisão?

Trotsky: Também aqui é necessário considerar o problema dialeticamente, e não mecanicamente. Que significa esta terrível palavra “dialética”? Significa considerar as coisas no seu desenvolvimento, não em uma situação estática. Se tomarmos as diferenças políticas tal como são, podemos dizer que não eram suficientes para uma cisão, mas se elas desenvolveram uma tendência para se desviar do proletariado, indo em direção aos círculos pequeno-burgueses, então essas mesmas diferenças podem ter um valor absolutamente diferente; um peso diferente; se estão ligadas com um grupo social diferente. Este ê um ponto importante.

Temos o fato de que a minoria cindiu conosco, apesar de todas as medidas tomadas pela maioria para não romper. Isto significa que seu sentimento social interno era tal que, para eles, é impossível prosseguirmos juntos. Éuma tendência pequeno-burguesa, não proletária. Se você deseja uma nova confirmação disto, temos um excelente exemplo no artigo de Dwight MacDonald.

O que caracteriza antes de tudo um revolucionário proletário? Ninguém ê obrigado a participar de um partido revolucionário, mas se participa tem que considerar o Partido de maneira séria. Se ousamos chamar os trabalhadores para fazerem uma mudança revolucionária da sociedade. assumimos uma responsabilidade que devemos considerar muito seriamente. E o que é a nossa teoria, senão o instrumento de nossa ação? Estes instrumentos são a nossa teoria marxista porque, até hoje, não encontramos melhores instrumentos. Um operário não atua caprichosamente com ferramentas fantásticas que não existem.

Burnham é um intelectual esnobe. Experimenta um partido, abandona-o, entra em outro. Um operário não pode fazer isto. Se se adere a um partido revolucionário, dirige-se gente, chama-se à ação; é o mesmo que um general na guerra — deve saber para onde está dirigindo essa gente. Que pensariam vocês de um general que dissesse que pensava que os fuzis eram maus; que seria melhor esperar dez anos até que se inventassem melhores fuzis, e que, enquanto isso, o melhor era irem todos para casa? Esta ê a forma como raciocina Burnham. Portanto, abandona o Partido. Mas continua havendo desempregados, a guerra se mantém. Estas coisas não podem ser adiadas. Portanto, só Burnham é que adiou sua ação.

Dwight MacDonald não é um esnobe, mas ê um pouco estúpido. Cito: 

“O intelectual, para realizar alguma função útil na sociedade, não deve enganar nem a si mesmo nem aos demais, não deve aceitar como boa moeda a que sabe que é falsa, não deve esquecer em um período de crise o que aprendeu durante um período de anos e décadas.” 

Bem. Absolutamente correto. Cito outra vez:

“Só se enfrentarmos os tumultuados e terríveis anos que temos pela frente com ceticismo e devoção — ceticismo em relação a todas as teorias, governos e sistemas sociais; devoção à luta revolucionária das massas — só então nos podemos justificar como intelectuais”.

Aqui está um dos dirigentes do chamado Partido “Operário”, que considera a si mesmo não proletário, mas sim um “intelectual”, Fala de ceticismo em relação a todas as teorias.

Nós nos preparamos para esta crise estudando, construindo um método científico, e nosso método é o marxismo. Então a crise chega e Mr. MacDonald diz “sejam céticos em relação a todas as teorias”, e logo fala de devoção à revolução, sem substituí-la por qualquer nova teoria. A menos que seja esta teoria cética, de sua safra. Como podemos trabalhar sem uma teoria? O que é a luta das massas e o que é um revolucionário? Todo o artigo é escandaloso, e um Partido que possa tolerar tal indivíduo como um dos seus dirigentes, não é sério.

Cito de novo: 

“Qual é então a natureza da besta (o fascismo)? Trotsky insiste, nem mais, nem menos, em que é um fenômeno familiar do bonapartismo, no qual uma camarilha se mantém no poder enfrentando uma classe com a outra, dando assim um caráter autônomo temporal ao poder do Estado. Mas estes regimes totalitários modernos não são assuntos temporais; quase mudaram a estrutura econômica e social subjacente, não só manipulando as velhas formas, como também destruindo sua vitalidade interna. A burocracia nazi é uma nova classe dirigente, e o fascismo uma nova forma de sociedade comparável ao capitalismo? Também isto não parece ser correto”.

Aqui, ele cria uma nova teoria, uma nova definição do fascismo, mas, não obstante, deseja que sejamos céticos em relação a todas as teorias. Assim, também dirá aos operários, que os instrumentos e ferramentas com que trabalham não são importantes, mas que devem ter devoção ao seu trabalho! Creio que os operários encontrariam uma expressão muito dura para tal declaração.

Isto é muito característico do intelectual desmoralizado. Vê a guerra, a terrível época que temos pela frente, com perdas, com sacrifícios, e tem medo. Começa a propagar o ceticismo e acredita que é possível unificar o ceticismo com a devoção revolucionária. Só podemos desenvolver uma devoção revolucionária se estamos certos de que é racional e possível, e não podemos ter tal certeza sem uma teoria operante. Aquele que propaga o ceticismo teórico é um traidor.

No fascismo analisamos diferentes elementos:

1. O elemento que o fascismo tem com o velho bonapartismo, é que usa os antagonismos entre as classes para dar ao poder de Estado a maior independência possível. Mas sempre sublinhamos que o velho bonapartismo se deu no tempo de uma ascendente sociedade burguesa, enquanto que fascismo é um poder de Estado decadente da sociedade burguesa.

2. Que o fascismo é uma tentativa da classe burguesa de superar, de ultrapassar a contradição entre a nova técnica e a propriedade privada, sem eliminar a ‘propriedade privada. É a “economia planificada” do fascismo. E uma tentativa de salvar a propriedade privada e, ao mesmo tempo, de controlar a propriedade privada.

3. Para superar a contradição entre a técnica nova, moderna, das forças produtivas nas limitadas fronteiras do Estado nacional. Esta nova técnica não pode ser limitada pelas fronteiras do velho Estado nacional e o fascismo tenta superar esta contradição. O resultado é a guerra. Já analisamos todos estes elementos.

Dwight MacDonald abandoará o Partido como fez Burnham, mas, possivelmente, como é mais preguiçoso, fá-lo-á. mais tarde.

Burnham foi considerado em certo momento como “um bom elemento”? Sim, o partido proletário em nossa época deve fazer uso de cada intelectual que possa contribuir para o partido. Gastei muitos meses com Diego Rivera, para salvá-lo para nosso movimento, mas não tive êxito. Mas cada Internacional teve uma experiência deste tipo. A Primeira Internacional teve problemas com o poeta Freiligrath, que era também muito caprichoso. A Segunda e a Terceira Internacionais tiveram problemas com Máximo Gorki. A Quarta Internacional, com Rivera. Em todos os casos, separaram-se de nós.

Burnham, é claro, esteve mais próximo do movimento, mas Cannon teve suas dúvidas sobre ele. Sabe escrever, e tem um pensamento formalmente construído, não profundo, mas hábil. Pode aceitar sua idéia, desenvolvê-la, escrever um artigo sobre ela — e esquecê-la logo. O autor pode esquecê-la — mas o operário não. Não obstante, quanto mais tempo pudermos utilizar esta gente, tanto melhor. Mussolini também foi, uma vez, um “bom elemento”!

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