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Esquerda pequeno-burguesa

Pressionar à esquerda ou se isolar do movimento real?

Matéria do PCB se coloca contra uma política de empurrar Lula à esquerda

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No último dia 17 de janeiro, foi publicado no sítio do PCB um artigo intitulado “Pressionar Lula? A pequena burguesia e a questão do poder”, onde é discutida a questão de impulsionar a candidatura de Lula à esquerda, ou seja, fazer pressão ou atuar para que Lula adote uma posição mais à esquerda.

Segundo o artigo, que não sabemos ser a posição oficial do PCB, já que é assinado por Rômulo Caires, seria um erro tentar fazer com que a candidatura de Lula se desloque para a esquerda. Para isso, são apresentados dois exemplos que, segundo o autor da matéria, refletiriam essa política de empurrar para a esquerda e que teriam terminado em desastre.

Um exemplo é a posição do PCB em relação a João Goulart em 1964 e a outra seria a eleição de Salvador Allende no Chile em 1970, até 1973 quando acontece o golpe de Pinochet.

Segundo o artigo, essa política teria dado terrivelmente errado nos dois casos. A discussão que se coloca, então, é a seguinte: devemos ou não devemos procurar fazer com que a candidatura de Lula se desloque cada vez mais à esquerda e, se devemos, como devemos fazer isso?

Primeiro é preciso contestar os exemplos históricos dados na matéria. Nenhum dos dois correspondem à realidade. Nenhum dos dois foram uma tática de empurrar o nacionalismo burguês à esquerda.

O autor afirma que

“Surge assim a palavra de ordem ‘pressionar Jango’ como uma tentativa de neutralizar as oscilações do governo e encaminhar sua orientação em direção às prometidas reformas de base. No centro de tal palavra de ordem estava a crença de um caminho gradual em direção ao projeto democrático-nacional, desestimulando agitações mais confrontativas à ordem, combatidas sistematicamente sob a rubrica do ‘sectarismo’, como também estimulando um grande pacto nacional a partir da união das forças ditas patrióticas.”

Pela própria formulação confusa do autor, já fica claro que a tática do PCB não era a de empurrar o nacionalismo à esquerda em 1964. Se o partido fez algo, foi oposto a isso: empurrou o governo para a direita. O PCB não procurava uma política que pressionasse o governo a adotar medidas que correspondessem à luta daquele momento e, como o próprio autor diz, “desestimulava agitações confrontativas à ordem”.

É importante lembrar que, ameaçado de golpe, o PCB e o resto da esquerda nunca efetuaram uma campanha dirigida a enfrentar os golpistas. Não chamaram os trabalhadores a enfrentar o golpe militar e nem sequer denunciaram o golpe. A história registra a famosa frase de Luís Carlos Prestes que declarou que “se a ala golpista das Forças Armadas levantasse a cabeça, a ala legalista das Forças Armadas cortaria a cabeça deles”. A história mostra que o PCB não tinha condições de empurrar ninguém à esquerda porque ele estava dominado pelas piores ilusões políticas possíveis. Na verdade, o PCB assumia uma posição direitista e ficava completamente a reboque do nacionalismo.

Quando João Goulart capitula diante do golpe sem nenhuma resistência, mesmo havendo uma vontade de amplos setores de resistir, o PCB capitula junto com o governo Goulart. Isso está muito distante de ser um exemplo de uma tática política para o deslocamento à esquerda.

Sobre o Chile, nova confusão:

“a experiência chilena do pré-73 possui uma similitude que pode ser generalizada aos países dependentes: a ausência de um amplo processo de consolidação democrática e de nacionalização da sociedade não pode ser resolvido a partir da recusa dos mecanismos de ruptura institucional, ou seja, da perspectiva revolucionária”

De fato, são similares os dois exemplos. E o próprio autor mostra que não se tratava de nenhuma tática revolucionária. O governo Salvador Allende estava dominado pelas ilusões nas Forças Armadas. Ele e o Partido Socialista achavam a mesma coisa que Prestes quando declarou que a ala legalista das Forças Armadas iria se impor. No final, quem deu o golpe foi justamente a ala “legalista”, o maior de todos sendo o próprio Augusto Pinochet. Não houve por parte da Unidade Popular nenhuma tática de empurrar o governo para a esquerda, pelo contrário, se reforçavam as ilusões institucionais.

Portanto, ao contrário do que o autor do artigo do PCB procura demonstrar, em nenhum dos dois casos ─ o Brasil de 1964 e o Chile do início da década de 1970 ─ houve o esforço por parte da esquerda mais radical para deslocar o nacionalismo reformista para a esquerda. Os dois exemplos utilizados pelo autor demonstram o equívoco completo de seu pensamento a respeito do que se passa no Brasil de hoje com a candidatura de Lula.

Esclarecidos esses problemas históricos, devemos discutir se a tática de empurrar outros setores de esquerda mais à esquerda é uma tática correta ou não.

Para entender o problema, é preciso lembrar o exemplo mais significativo para a política revolucionária que é e Revolução Russa de 1917. A política revolucionária é o resultado da análise da experiência positiva ou negativa do movimento operário e a Revolução Russa é a maior experiência positiva até hoje; portanto, a política seguida por Lênin, Trótski e o Partido Bolchevique na Revolução de 1917 é um exemplo para todos os partidos revolucionários. É aí que deveríamos buscar a orientação. E qual foi essa orientação?

A revolução começa e uma parcela da esquerda pequeno-burguesa, democrática, o Partido Menchevique e o Partido Socialista-Revolucionário formam um governo com a burguesia em fevereiro, após a derrubada do Czar. Qual foi a política de Lênin? Ele endereça a esses partidos uma proposta de acordo que ficou materializada na palavra de ordem de “todo o poder aos sovietes”.

Como o próprio Lênin explicou em artigo escrito ainda durante a revolução, tal palavra de ordem era para um acordo para a evolução pacífica da revolução, ou seja, o que ele queria dizer é que não é que os bolcheviques deveriam tomar o poder por meio dos sovietes, pois eles eram minoria nessas organizações ─ não havia ainda condições para isso.

O que queria dizer é que os partidos da esquerda reformista, pequeno-burguesa etc. deveriam tomar o poder; eles deveriam realizar um determinado programa político. Também em relação a esses partidos, foi endereçada a reivindicação de acabar com a guerra e realizar a reforma agrária. Fica claro que a política revolucionária durante a revolução, que acaba levando os bolcheviques ao poder fazendo avançar a revolução até a tomada do poder pela classe operária, era uma política de pressionar a esquerda reformista para que ela evoluísse à esquerda a fim de avançar para posições revolucionárias.

Lênin propunha um acordo que seria: “assumam o poder político, rompam com a burguesia e os bolcheviques apoiarão esse poder e farão oposição apenas e tão somente dentro da legalidade soviética”, ou seja, nos marcos do soviete e não fora. Essa política será sintetizada no Programa de Transição por Trótski na seguinte forma: “a principal exigência que nós fazemos a todas as forças que falam em nome da classe operária e dos camponeses é que rompam com a burguesia e criem um poder próprio dos trabalhadores”.

Portanto, a exigência que os revolucionários devem fazer aos partidos da esquerda reformista é que eles evoluam à esquerda. Logo, não só a ideia de pressionar esses partidos para irem à esquerda não é equivocada como é a ideia mestra da Revolução Russa de 1917. Numa situação em que os partidos predominantes no interior da classe trabalhadora não são revolucionários, não se deve afastar do movimento da classe operária e criar uma disputa pelo tudo ou nada. Essa é uma posição fictícia. Todo o problema da revolução consiste em que as massas trabalhadoras possam evoluir à esquerda e como essas massas estão sob a liderança de organizações reformistas, propõe-se a essas organizações que elas mesmas evoluam à esquerda. É uma proposta política de frente única, feita no marco da revolução, mas que serve para todas as situações.

Além disso, na medida em que os revolucionários exercem essa pressão, mesmo que a maioria das direções reformistas não logre uma evolução à esquerda e fique pelo caminho, suas bases certamente procederão no sentido dessa evolução à esquerda. Foi exatamente o que ocorreu com a Revolução de Outubro.

Essa explicação teórica é importante porque mostra qual deve ser a tática a ser seguida atualmente no Brasil. Não estamos numa situação revolucionária, mas ela é bem peculiar.

Foi dado um golpe de Estado, que atravessa uma crise política importante, e essa crise está ditada pelo fato de que os golpistas não conseguiram estabelecer um governo próprio nas eleições de 2018, que era sua política fundamental. A burguesia foi obrigada a apoiar a candidatura de Bolsonaro, que não era a candidatura preferencial, que não era a candidatura que a burguesia gostaria de eleger. Os golpistas passaram três anos tentando controlar o governo, conseguindo, apenas numa certa medida, impedir que Bolsonaro governasse como ele gostaria de governar.

O que está colocado é uma crise no interior do Estado a tal ponto que, com base na denúncia do golpe e no fracasso da política econômica e social dos golpistas até o momento, o que era previsível dada a situação internacional, temos o crescimento da candidatura Lula, sendo um resultado totalmente oposto àquilo que a burguesia pretendia. Ou seja, temos uma evolução política de um setor da esquerda ainda mais para a esquerda. E é o setor que, de longe, tem a maior base social, uma base operária e camponesa.

Nessa situação, temos a oportunidade de uma vitória legal e pacífica sobre o golpe, com eleição do próprio Lula. Se isso não acontecer ─ o que seria uma derrota imediata do conjunto da esquerda e dos trabalhadores ─ a luta terá que se desenvolver por outras vias, mas a eleição de Lula seria a melhor oportunidade, ao menos nesse momento, para a evolução política da classe operária e de todos os setores que lutaram contra o golpe.

Justamente o problema nesse momento é discutir como fazer para que a situação evolua à esquerda a partir do apoio à candidatura de Lula, que oferece a melhor oportunidade para essa evolução do conjunto do movimento operário e popular. Uma característica importante que não foi o que aconteceu nos exemplos dados pelo PCB é que essa política de levar as organizações majoritárias do movimento operário à esquerda não é uma política que possa ser feita simplesmente através de um apelo a essas organizações. Na realidade, é uma política que deve ser endereçada às amplas massas.

Ao mesmo tempo em que devemos nos relacionar com os partidos reformistas, também deve se relacionar com as massas, procurando mobilizar e fazê-las avançar. No que diz respeito à política do PCO, desde o começo é colocado que o movimento operário deve apoiar a candidatura Lula, que é a possibilidade de derrotar o golpe de maneira mais direta e legal. E esse apoio deve se dar com base numa discussão de um programa que levante as reivindicações populares, ações e o rumo político do movimento operário.

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