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Contra quem lutar?

Os inimigos são os brancos ou os bancos?

Em vez de lutar contra os bancos, os identitários preferem lutar contra os bancos, como se todo e qualquer branco fosse um privilegiado, o que só enfraquece a luta da classes

operários

Matéria publicada no sítio Portal Geledés, assinada por Ricardo Corrêa, sob o título ‘Consciência Negra: não perca tempo com o inconformismo racista’, faz retroagir o discurso sobre o racismo, principalmente porque, de maneira artificial, divide a sociedade entre brancos e negros.

Corrêa inicia seu texto com “Lá vêm os brancos questionando a legitimidade moral e institucional que sustenta a comemoração da Consciência Negra e Zumbi dos Palmares, ocorrida anualmente no dia 20 de novembro. Desde que a celebração foi sancionada (Lei nº12.519), lidamos com eles choramingando”. ‘Eles’ quem, os ‘brancos’? Quais brancos?

Colorismo

Antes de mais nada, é preciso dizer ao autor que a vida não é assim tão simples. A tentativa de dividir quem seja branco ou negro já atingiu mesmo aqueles que militam de alguma maneira contra o racismo. Em 2019, por exemplo, Djamila Ribeiro, uma celebridade identitária com mais de um milhão de seguidores no Instagram, entrou em uma polêmica com Andreza Delgado.

Andreza, que é contra o punitivismo, discordou da posição de Djamila sobre a condenação judicial do humorista Danilo Gentili. Ao que Djamila respondeu “Quero saber se quem defende Gentilli do manto do anti punitivismo, faz o mesmo com relação a população negra. Essa defesa me soa mais como corporativismo, legitimação do que Cida Bento denominou como pacto narcísico da branquitude”. Além de ter afirmado que apenas homens brancos ricos teriam discordado da condenação do humorista.

A resposta de Andreza veio em seguida: “Djamila Ribeiro soltou um texto desrespeitando a discussão posta por nós mulheres anti cárcere, chamou de coisa de branco. ”. Se sentindo ofendida, Djamila Ribeiro mandou uma notificação extrajudicial para Andreza apagar seu comentário. Ou seja, ameaçou jogar a justiça branca do Estado burguês  contra uma outra mulher negra. E ainda comentou algo como mulheres negras de pele clara têm sido as principais protagonistas de ataques a ela na rede e que por ter a pele retinta, Andreza negra de pele clara a atacou de maneira racista’.

Como vimos, se podemos simplesmente dividir a sociedade entre brancos e negros, também podemos dividir negros entre os de ‘pele clara’, os ‘retintos’ e ninguém sabe como isso termina.

Desigualdade

Ninguém vai negar que exista desigualdade, que os negros recebam menos, em média, que as pessoas brancas para exercerem a mesma função. Que os negros precisam de atenção redobrada quando entram em supermercados, que estão sempre com alguém os perseguindo pelos corredores do estabelecimento como se fossem praticar furtos; que jovens negros sejam os alvos preferenciais das polícias e que haja um verdadeiro genocídio contra a população negra. É isso que temos denunciado desde sempre e levado a palavra de ordem de fim das polícias.

O texto pretende denunciar o “privilégio branco, existente na subjetividade, que antecede  o campo concreto”. Ora, nada antecede o concreto. O fato de a população negra ter sido destinada a trabalhos subalternos é que a colocou nesta situação. Se observarmos, por exemplo, uma sociedade dividida em castas, teremos os mesmos problemas, com suas peculiaridades, claro. Se, no Brasil, a classe média é contra o sistema de cotas nas universidades públicas, na Índia os brâmanes não querem o sistema de cotas, ou Reservation, para os sudras ou pessoas de qualquer casta inferior.

Portanto, é a luta de classes, concreta, que determina o preconceito, ele não existe como uma forma pura, platônica, decidindo o comportamento social.

Moralismo

O argumento de que existe uma ‘subjetividade’ por trás do racismo só pode levar a luta para o campo moral, ou, em outras palavras, para um campo onde não será possível solucionar essa questão, pois a subjetividade na maior parte das vezes é irracional.

Ricardo Corrêa diz que “se os brancos insistirem nas críticas, priorize o “privilégio branco” como pauta. Nunca será demais colocá-los contra a parede acerca dos benefícios que gozam, e explicitar os problemas que isso acarreta ao nosso povo. E não deixe eles se esquivarem utilizando o argumento relacionado à classe econômica − sob essa ótica, somente os ricos têm privilégios”.

Como convencer um operário branco, pobre, que mora na favela ─ ou um morador de rua branco, que há aos montes ─ de que ele é um privilegiado, ou que goza de benefícios? A classe trabalhadora como um todo sofre enormemente com a política neoliberal. A fila do osso não escolhe a cor da pele. Podemos concordar que até aí é maior a presença de pessoas negras, mas isso tem um fundo político, econômico e social.

O argumento sobre as origens econômicas do racismo não é uma forma de se esquivar, como o texto propõe, é justamente o contrário. Enquanto persistir a divisão de classes na sociedade, persistirá igualmente o preconceito. Teremos uma minoria que enriquece cada vez mais, de um lado e, de outro, a grande maioria empobrecida e explorada. Se o negro passar a acreditar que o outro trabalhador é um privilegiado, ou se o negro retinto achar o mesmo do negro de pele clara, a única coisa que vamos conseguir é enfraquecer a luta com toda essa divisão, o que só favorece a minoria rica.

O que será?

O que temos visto, principalmente com o crescimento do identitarismo, é que se busca colocar pessoas negras em ‘posições de poder’, isso, no entanto, não muda nada a realidade social de milhões de negros. Se o secretário de justiça dos Estados Unidos é negro, isso não muda a situação dos povos oprimidos por esse país. Mesmo se Neca Setúbal colocar na gerência pessoas negras em todas as agências banco Itaú, ainda assim ficarão milhões de negros de fora e na miséria, como tem sido desde sempre.

Certo, talvez essa banqueira possa continuar calmamente fazendo demagogia nas páginas do Portal Geledés dizendo se tratar de uma pessoa branca, privilegiada, mas querendo a seu lado um país mestiço, diverso.

Enquanto houver banqueiros, que sugam mais da metade do orçamento do Brasil, teremos fome e miséria. Esses são os verdadeiros inimigos dos negros e de toda a população, temos de combatê-los e não nos juntarmos a eles. É preciso lutar contra os bancos e não contra os brancos.

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