Os grupos da esquerda nacional não param de dizer asneiras sobre a história do Brasil. Há um mês e meio, completamos 200 anos de independência e praticamente todos eles se pronunciaram. Encontramos mais um deles que, invariavelmente, despejam as mais grotescas verborragias.
“Toneladas e mais toneladas de açúcar, algodão, tabaco, ouro e pedras preciosas, dentre outros produtos, foram retiradas do nosso território e enviadas à metrópole. Milhares e milhares de vidas de africanos trazidos para o Brasil e dos povos originários foram ceifadas para atender a ganância do lucro do colonizador, promovendo um dos maiores genocídios vividos pela humanidade”, escreve o Luta Socialista, corrente interna do PSOL.
O Brasil, em sua visão, foi apenas vítima da colonização portuguesa. Apenas sofreu uma pilhagem e mesmo um genocídio ─ “um dos maiores genocídios vividos pela humanidade”!
Espanta que o Luta Socialista reivindique-se trotskista, isto é, marxista. Tal raciocínio extremamente raso é o avesso da análise marxista do desenvolvimento histórico da humanidade, é a antítese do materialismo, é um idealismo que nega o desenvolvimento dialético e propaga uma ideia que serve apenas aos interesses imperialistas de dominação atual sobre o nosso país.
É verdade que muita riqueza foi extraída do Brasil. Porém, isso foi algo necessariamente ruim? Em primeiro lugar, ao contrário do pensamento idealista desse grupo, devemos entender que a história da humanidade não pode ser classificada entre algo “bom” ou algo “mau”. As coisas foram o que foram. E foram, naquela época histórica, algo necessário. Necessário para o próprio desenvolvimento da humanidade, pois a extração das riquezas do Brasil alimentou o desenvolvimento do capitalismo, modo de produção que superou a economia feudal europeia, levou ao fim da escravidão e que é uma ponte inevitável para a transição ao socialismo ─ que, nos parece, a Luta Socialista procura reivindicar.
Não somos adeptos de nenhum tipo de revisão histórica, prática comum ao imperialismo, ao stalinismo e ao identitarismo. Não houve nada parecido com um genocídio em território brasileiro. A escravidão foi um modo de produção desprezível, atroz, mas foi, como dissemos, uma inevitabilidade histórica, natural ao desenvolvimento econômico da sociedade. E no Brasil, tanto ela como o processo colonizador em si, foi, para o espanto de muitos esquerdistas iletrados, muito mais “suave” do que em outros países no mesmo período, como a América Espanhola ou os Estados Unidos. O problema é que a análise da esquerda costuma ser anacrônica, costuma-se enxergar o que ocorreu há 400 anos com o mesmo olhar que mira os acontecimentos contemporâneos, sem se dar conta da situação política, econômica e social das distintas épocas.
“Diferente da maioria dos jovens países nas Américas, a nossa independência não veio de uma guerra prolongada contra o colonizador, não promoveu a alforria dos escravos, não concedeu cidadania aos nativos e mestiços pobres e, muito menos, garantiu um Estado Nacional republicano e laico. Pelo contrário, a nossa independência veio de cima pra baixo – sem envolvimento dos setores populares –, pelas mãos do filho do monarca português que desejava um dia substituir seu pai no trono português” ─ ou seja, foi uma farsa! A nossa história, segundo os exímios pensadores psolistas, é toda uma farsa!
Sabemos que o ensino brasileiro de História é uma tristeza. Mas alguém que se pretenda fazer uma análise séria da independência do Brasil, ainda mais buscando atrair para si os setores mais avançados da sociedade, precisa se esforçar para estudá-la e compreendê-la. Dizer que a nossa independência não foi fruto da luta do nosso povo é, ainda, um ataque contra o próprio povo brasileiro. Foram várias as lutas, cada uma delas conduzida pelos setores mais avançados de sua época ─ como a própria independência, que naturalmente não poderia ter sido liderada pelos escravos nem mesmo pelos trabalhadores ou pelas mulheres, que não tinham força naquela época. Dom Pedro I era um dos representantes dessas lideranças, tal como Simón Bolívar ou Artigas foram em seus países, só que ainda mais importante e decisivo.
Tecendo críticas ao fato de sermos uma “monarquia entre várias jovens repúblicas” e à suposta farsa de nossa independência, o texto se esquece de lembrar que o Brasil foi, por outro lado, o país que mais se desenvolveu, mais se enriqueceu e que, portanto, está mais próximo de uma revolução proletária do que qualquer outro país da América Latina levando em conta as condições objetivas. Como a Luta Socialista explica isso?
Logicamente que essa aparente contradição não pode ser explicada utilizando o raciocínio ignorante do texto da organização, mas sim entendendo que, na verdade, a colonização do Brasil pelos portugueses foi algo progressista, e não reacionário, como apresentam. E que nossa história, apesar dos reveses impostos pelas classes dominantes e pelo imperialismo, é uma história gloriosa de progresso e desenvolvimento.
Uma organização que se pretende revolucionária não conseguirá nunca sequer brincar de fazer revolução se não dominar o marxismo e, portanto, não souber interpretar corretamente a história, que é a história do desenvolvimento da sociedade. Vai, pelo contrário, fazer coro com toda a propaganda da burguesia vassala e do imperialismo, que busca a todo o momento rebaixar a nossa história para impedir que nosso presente seja compreendido para que o futuro seja nosso.





