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Peru

Golpe, contragolpe e golpe

Crise vem desde as eleições e situação é um alerta para Lula no Brasil

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Pedro Castillo, presidente do Peru, foi destituído após apenas um ano e meio no mandato, na terceira tentativa do Congresso de aprovar seu impeachment.

Ao meio-dia da última quarta-feira (08), Castillo, em meio a crise política constante, anunciou a dissolução do Congresso, um toque de recolher no país e que este seria governado por decreto. Isso, no então, foi por água abaixo e o Congresso derrubou Castillo, não só aprovando sua destituição como também sua prisão.

A crise no regime peruano data de anos, mas podemos começar com a própria eleição de Castillo. O agora ex-presidente foi eleito em oposição à Keiko Fujimori, candidata de extrema-direita e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, recebendo apoio da população e rechaço da burguesia. No segundo turno a campanha contra Castillo se intensificou, com a imprensa burguesa dizendo que o candidato transformaria o país numa ditadura comunista e outras afirmações direitistas do tipo.

No fim das contas, Castillo foi eleito com uma margem muito pequena em relação à Fujimori, com a burguesia perdendo o controle do rumo das eleições peruanas. Foi então que começou a tirar sua máscara: o presidente eleito tentou fazer diversos acordos com a burguesia, com o imperialismo, realizando um verdadeiro estelionato político — foi assim que perdeu a confiança do povo e do seu partido, Peru Libre, o qual eventualmente acabou rompendo com Castillo de maneira definitiva frente às inúmeras ações de capitulação.

Pedro Castillo tentou ser um político burguês profissional, algo o qual não possuía nenhum tipo de experiência. Sua história propagandeada o coloca como um professor que liderou algumas greves nos anos anteriores à eleição e que possui muita ligação com camponeses, ou seja, um cidadão peruano que não possui nenhuma grande experiência com política. 

Essa tentativa falhou miseravelmente e a burguesia peruana demonstrou que não queria Castillo nem pintado de ouro — a prova disso são as inúmeras tentativas de derrubar o governo que foram colocadas antes desse efetivo golpe ocorrido na quarta-feira. A instabilidade era constante e os pedidos de impeachment por parte do Congresso faziam uma pressão ainda maior, até chegar na situação descrita no início do artigo.

O que ocorreu, no fim das contas, era um processo inevitável. O golpe de Estado contra Castillo teve como a gota d’água as ações inconsequentes do ex-presidente, que simplesmente declarou um estado de sítio sem ter apoio de ninguém, seja da burguesia, das forças armadas ou do povo.

Sua guinada a direita fez o ex-presidente inclusive perder boa parte do apoio do povo, o qual, nessa situação, era um dos únicos que poderia manter Castillo no poder. Seu partido também o abandonou após inúmeras capitulações, e assim tudo que podia dar errado, deu.

No lugar de Castillo assumiu Dina Boluarte sua vice, a qual não perdeu tempo em se mostrar uma verdadeira agente da direita. Boluarte correu para assumir o cargo e já está sendo noticiada pela imprensa como “a primeira mulher presidenta do Peru”, mostrando também que a burguesia já está puxando a questão para o lado identitário, tentando amenizar a crise.

Uma das primeiras declarações de Boluarte foi que ela tinha pretensão de acabar com a corrupção do país — um discurso tão típico dos candidatos da direita que chega a doer os ouvidos da população. A atual presidente, tendo ocupado cargo de ministra, chegou até mesmo a renunciar devido a uma nomeação a qual não concordava para a casa de ministros, contribuindo para a desestabilização do governo.

Os aspectos de Boluarte foram inúmeros, mas não maiores do que como foi recebida pela burguesia como substituta de Castillo. O direitista Vargas Llosa, por exemplo, que já havia se oposto a Castillo, se pronunciou em favor de Boluarte, exaltando o fato de ser uma mulher, a primeira presidenta do Peru — mais uma prova de que o fundo político direitista dela atende aos desejos imperialistas, sobretudo frente a Castillo.

Por outro lado, líderes da América Latina que reconhecem o momento de crise o qual passam os regimes locais no momento, se opondo ao golpe em Castillo. Xiomara Castro e Manuel Zelaya, respectivamente a atual e o ex-presidente de Honduras, condenaram o golpe de Estado no Peru. Outra figura foi López Obrador, presidente do México que estava prestes a conceder asilo político a Castillo, o qual foi interceptado antes que chegasse a embaixada. Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, por sua vez, também denunciou o golpe não só em Castillo, mas também em Kirchner, na Argentina, e afirmou que a esquerda deveria se manter unida.

Desta maneira, outro ponto se destaca: Cristina Kirchner, vice-presidenta da Argentina, acabou de sofrer um golpe ao ser condenada a seis anos de prisão por corrupção. Uruguai e Paraguai possuem líderes da direita, o regime está instável na Bolívia e regimes como o da Colômbia e do Chile estão altamente suscetíveis a virarem para um regime altamente reacionário pelo caráter direitista de seus presidentes, além da inclinação desses de colaboração com o imperialismo.

Essa situação coloca em cheque a teoria de que os golpes na América Latina, iniciados em Honduras na primeira década do século, estariam sendo sucessivamente derrubados conforme governos de esquerda voltassem ao poder, como Lula, Petro, Boric, Kirchner, Castillo, Xiomara, entre outros. Isso, no entanto, se mostra como falácia a medida que boa parte deles procuram colaborar com a burguesia e o imperialismo.

Essa colaboração, como visto no caso de Castillo, não leva a lugar nenhum. É, na realidade, uma manobra da própria burguesia de desestabilização do regime que leva o país a situação a qual estamos vendo no Peru no momento. O imperialismo irá fazer de tudo para que governos que tenham o mínimo de apoio popular não subam ao poder, tentativa enfraquecida pela polarização popular.

Um exemplo disso são os próprios governos de esquerda eleitos. A polarização e o apoio popular levaram esses líderes ao poder, ao exemplo de Lula, por mais que eles não cumprissem totalmente esse papel. O fato desse apoio popular ser verdadeiro faz com  que essas figuras de fato representem uma ameaça a burguesia.

Toda essa situação, no fim das contas, é um alerta para Lula no Brasil. Em primeiro lugar, o fato da vice de Castillo ser uma direitista claramente contribuiu muito para que a situação se estabilizasse e a burguesia tivesse uma substituta para o presidente a qual pudesse confiar e, ainda por cima, fazer demagogia — não é difícil pensar que uma figura como Alckmin, por exemplo, faria o mesmo papel caso uma situação parecida acontecesse no Brasil.

Outro ponto é que a tentativa de acordos com a burguesia é um erro e que não leva um governo popular a nada. Como visto, a burguesia não se importa com quantas concessões você faça a ela, uma vez que qualquer político com apoio do povo e que provoque a polarização é uma ameaça para o sistema na situação atual de crise a qual vivemos.

Não devemos, portanto, perpetuar a ideia de que os casos de Castillo e Kirchner são isolados. É preciso prestar atenção ao cenário político para entendermos que a situação é crítica e turbulenta, que é preciso procurar o apoio da população, e não da burguesia, para que líderes de esquerda consigam governar verdadeiramente.

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