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Afonso Teixeira

Tradutor, formado em Letras pela USP e doutorado em Linguística com tese em tradução. Tem formação como músico, biólogo e cientista político.

Tradução

Editora Sundermann – Picaretagem Editorial

Da mesma forma que não é raro um tradutor plagiar, não é raro uma editora também o fazer


A “tradução” de A revolução traída, de Leon Trotsky, é, na verdade, uma tradução traída. A ficha catalográfica dá as seguintes informações: “Traduzido do original em russo e comparada com as versões em Português, Inglês por: Henrique Canary, Rodrigo Ricupero e Paula Maffei.

Todas essas informações são falsas. Não se trata de nenhuma tradução. É apenas uma cópia quase que integral de uma tradução feita em Portugal a partir do francês; tradução essa que foi copiada (não sei se com ou sem autorização) da editora portuguesa.

Quando comprei o livro, fiquei entusiasmado ao ver que os livros da “Coleção Bases” da Editora Global estavam sendo relançados. Mas me chamava atenção o fato de a própria Global, sendo dona de um catálogo tão grande e tão importante, engavetar esses títulos. Pensava em uma mudança de rumo editorial (o que de fato ocorreu); e pensava, também, numa mudança de orientação política (algo que ver com o fim da URSS em 1991). Mas não haveria nessa postura, também, o medo de um processo por plágio? Não sei. Se a Global tinha autorização para duplicar aquelas traduções, o caso seria outro. Mas o simples fato de ter mudado o nome do tradutor é indício de plágio.

A tradução feita em Portugal traz o nome dos tradutores M. Carvalho e J. Fernandes; a da Global, Olinto Beckerman (a única informação que se tem dele é ter compilado obras de Che Guevara).

Mas isso não importa. O que importa é que a Global cumpriu um papel relevante na edição dessas obras. Sem ela, os brasileiros demorariam décadas para lerem os trabalhos de Trótski, Lênin e outros. 

Temos hoje, porém, uma nova “tradução”: a do Instituto Sundermann. O exemplar que li é o de que tratamos nesta coluna. Enquanto lia, desconfiava que fosse uma tradução do russo, uma vez que conheço grande parte dos tradutores dessa língua para o português. Mas, prossegui na leitura. De repente, encontro as seguintes grafias: Kroupskaia, Potemkine, Souritz, Khintchouk. Ora, são grafias francesas de nomes russos. Em português, grafaríamos a letra russa Y por U, e não por OU. Se os franceses grafassem U, o som seria outro (algo entre o I e o U), som que não existe em russo. Apenas um francês grafaria o nome Patiônkin (ou Potiônkin) como Potemkine, pois, se o francês não colocasse o I à frente do N, teria a nazalização do IN (algo como Potencã). Se a tradução fosse feita diretamente do russo, o tradutor saberia diferenciar as vogais E e Ë (que soam, respectivamente, como e ). Apesar de o título do filme ser O encouraçado Potemkin (cujo nome nada tem que ver com o do revolucionário russo, mas sim com um almirante, amigo e amante da Imperatriz Caterina), a grafia correta seria O encouraçado Patiônkin (ou Potiônkin, uma vez que, em russo, o O átono é quase um A para os nossos ouvidos).

A partir de então, comecei a desconfiar de que a “tradução do original russo” fosse, na verdade, uma tradução da tradução para o francês. Então, confrontei com a tradução da Global. A cada dez linhas de texto, uma única palavra era modificada. Isso é impossível em uma tradução de qualquer língua eslava. E, mesmo se as duas traduções tivessem como base o texto em francês, a similaridade entre ambos não seria tanta. Trata-se, sem dúvida, de um plágio.

Posteriormente, deparei-me com uma edição portuguesa, enterior à publicada pela Global. O texto era, simplesmente, o mesmo. Quase idêntico. Mas havia uma outra edição, ainda, da Centauro. Era uma reprodução do texto português, mas citava o verdadeiro nome dos tradutores.

Enfim, o que o Instituto Sundermann fez nada mais foi do que tomar a edição da Global e promover algumas pequenas mudanças no texto. Mudanças ou correções. Algumas para melhor, outras para pior. Por exemplo, o título do primeiro capítulo, “O que foi alcançado”, está, na edição da Global como “O legado”. Na tradução para o inglês, de Max Eastman, encontramos “What has been achieved”, e em francês, “L’Acquis”, o que é quase o mesmo. E em russo, temos: “Что достигнуто?” (algo como “O que foi realizado?”). A diferença essencial é o ponto de interrogação. Por que, numa tradução direta do russo, omitir-se-ia o ponto de interrogação?

Mas isso é só um pormenor. A comparação entre os textos é mais reveladora. O texto da Global é este:

A insignificância da burguesia russa fez com que os objetivos demoráticos da Rússia retardatária, tais como a liquidação da monarquia e de uma servidão dos componeses meio-saídos da escravidão, só pudessem ser alcançados pela ditadura do proletariado. Mas tendo conquistado o poder à cabeça das massas camponesas, o proletariado não pôde se limitar a realizações democráticas.

O da Sundermann (em negrito, o que foi mudando; sublinhado, o que foi omitido):

A insignificância da burguesia russa fez com que os objetivos demoráticos da Rússia retardatária, tais como a liquidação da monarquia e da servidão dos componeses meio-saídos da escravidão, só pudessem ser alcançados pela ditadura do proletariado. Mas tendo conquistado o poder à custa das massas camponesas, o proletariado não pôde limitar-se a tarefas democráticas.

Sâo poucas mudanças. No início do Capítulo V, por exempo, temos um parágrafo de 11 linhas. Ao confrontá-lo com a edição da Global, encontramos apenas quatro diferenças: o termo “ziguezagues” foi substituído por “vaivéns” (duas vezes); “facção” por “fração” (duas vezes) e “oposição de esquerda” por “a chamada ‘Oposição de Esquerda’”. No mais, a ordem das palavras no texto, a pontuação (inclusive as vírgulas), os termos… tudo, tudo igual. E assim se comporta o livro no todo.

Não há dúvida: trata-se de um plágio descarado. O problema aqui é: o PSTU sabe disso (já que a Fundação Sundermann é associada ao Partido)? Ou pagou uns tradutores picaretas que afirmaram fazer uma coisa e fizeram outra (o que é comum no meio editorial brasileiro)? Mas, da mesma forma que não é raro um tradutor plagiar, não é raro uma editora também o fazer.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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