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Ministério da Fazenda

Banqueiros: o problema não é Haddad, mas Lula

Em coluna publicada na Folha de S. Paulo, burguesia deixa claro que só aceitarão um ministro da Fazenda que seja do "mercado", ou seja, dos capitalistas


Na noite dessa terça-feira (29), Vinicius Torres Freire, colunista da Folha de S. Paulo, publicou um artigo no sítio online do jornal intitulado Um banqueiro explica quem implica com Haddad na Fazenda. No texto, uma espécie de registro do encontro entre o escritor e um “dirigente de um bancão [sic] nacional”, como ele mesmo chama, Freire relata a opinião detalhada do burguês acerca da possibilidade da nomeação de Fernando Haddad (PT) ao Ministério da Fazenda de Lula.

Como se estivesse em um filme de Hollywood, ao ser indagado sobre a nomeação do petista, o banqueiro revela possuir um registro detalhado de declarações de Haddad em entrevistas antigas, destacando declarações que mostrariam que ele não representa os interesses do chamado “mercado” (outro nome para a burguesia ligada ao capital financeiro).

“[…] O executivo ri e abre uma pastinha de cartolina com cópias de entrevistas antigas de Haddad, grifadas com marcador amarelo de texto. ‘Tem gente que implica com isso daqui’, diz, e cita trechos”, conta o autor do texto após perguntar ao banqueiro por que a “campanha contra Fernando Haddad no ministério da Fazenda”.

Então, o capitalista, que não teve sua identidade revelada, ressalta momentos em que Haddad se colocou contra a reforma trabalhista, disse que o PT atacaria o “patrimonialismo oligopólico” dos bancos e seus juros altos e que usaria parte das reservas internacionais para financiar investimentos públicos. Declarações que entram em contradição com os interesses dos banqueiros.

Decerto que tudo que foi relatado pelo colunista possa ser invenção, até pelo ar profundamente sinistro da postura do executivo. Entretanto, o mais importante é que, como fiel representante da burguesia brasileira e, consequentemente, dos banqueiros, a publicação do artigo pela Folha revela a política que os capitalistas estão defendendo para o governo Lula neste momento. Algo que – isso sim – pode ser analisado de maneira concreta.

Em primeiro lugar, é preciso relembrar que Haddad, nas palavras do próprio Lula, “é o mais tucano dos petistas”. Ou seja, é uma das figuras mais direitistas dentro do PT, alguém que, por isso, estaria mais propenso a seguir a política do “mercado”. Mesmo assim, como a matéria em questão explica, ele não seria aceito pelos banqueiros.

Para justificar essa posição, além dos recortes de entrevistas antigas apresentados pelo capitalista, ele afirma que o principal problema que se coloca quando Haddad é levado em consideração é o fato de que não se sabe quão independente este seria de Lula. Para o banqueiro, ele seria “muito leal a Lula”, sendo impossível saber “o que ele pensa agora ou o que ele vai poder pensar”, algo que é resumido pelo articulista:

“Não se sabe quanta autonomia teria Haddad ou quanto interesse ou capacidade teria de mudar opiniões de Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma Torres.

Fica claro, portanto, que o problema em questão não é Haddad, mas sim, Lula. Caso contrário, Haddad, caracterizado en passant como “o mais preparado dos que estão por aí”,  poderia até ser aceito se não fosse pelo fato de que, como disse o próprio banqueiro, é muito ligado a Lula e a sua política.

Se Haddad fosse, por exemplo, o Ministro da Fazenda de FHC, ou de alguém do PSDB, é provável que os banqueiros ficariam mais tranquilos com a sua nomeação. Todavia, o problema é que ele é do PT e, além disso, alguém que não consegue se desvencilhar de Lula.

Mais importante do que isso, a “entrevista” em questão revela que, neste momento, os banqueiros não enxergam Lula como um conciliador, um representante da política do capital financeiro. Mas sim, como um operário, um sindicalista ligado aos trabalhadores que pode jogar um balde de água fria nos planos dos capitalistas. Não é à toa que o executivo afirma, segundo Torres, que “Lula parece ‘mais cheio de si’ do que em 2002”, destacando que fez “discursos seguidos contra aqueles que cobram um programa de contenção de endividamento público”, ou seja, contra os patrões.

É uma confirmação de que Lula desempenha um papel muito mais similar ao que desempenhava em 1989, sua disputa eleitoral mais radicalizada até aqui, do que em 2002, quando entrou em comum acordo com o imperialismo e, logo, a burguesia. Podemos, inclusive, interpretar a afirmação de que Lula está “mais cheio de si” como uma preocupação por parte dos banqueiros de que, agora, depois do golpe de 2016 e de sua prisão, Lula indica que tentará aplicar uma política que deixe para a história um legado em seu nome. Uma espécie de novo Getúlio Vargas que pretende transformar o País apesar dos capitalistas.

Finalmente, Lula está, de fato, mais independente em relação aos banqueiros do que nunca. Seus recentes embates contra o “mercado”, repercutidos por toda a imprensa burguesa, mostram sua radicalização de maneira clara. É, portanto, uma preocupação chave para a direita que, por isso, não quer nem mesmo Haddad na Fazenda.

Temos aqui uma prova cabal de que não existe meio termo: os banqueiros não querem ninguém minimamente ligado a Lula, mas sim, que defenda os seus próprios interesses. As declarações em questão, ao lado de toda a campanha da burguesia contra a política econômica e a sua PEC da Transição, uma proposta moderada politicamente, representam uma confirmação de que a burguesia não quer Lula no poder em hipótese alguma. Afinal, se já estão tentando paralisar qualquer iniciativa de seu governo meses antes de tomar posse, o que esperar do futuro?

É possível que a burguesia tentará se livrar de Lula o mais rápido possível, assim como fez no segundo mandato de Dilma que, pouco tempo depois, foi derrubada. Ao que tudo indica, se a situação política continuar como está, ou, até mesmo, polarizar-se ainda mais, os banqueiros terão que partir para uma ofensiva abertamente golpista, algo que deve ser duramente combatido não só por Lula mas, principalmente, pela mobilização dos trabalhadores.

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