Um debate superado

Quais as tarefas que estão colocadas diante da agonia capitalista?

Polemizamos aqui com a entrevista de João Pedro Stédile, publicada pelo Resumen Latinoamericano, sobre a crise capitalista

No dia 9 de abril, o periódico Resumen Latinoamericano publicou uma parte de uma entrevista realizada com João Pedro Stédile, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Na discussão, Stédile se propõe a analisar o impacto da pandemia de coronavírus no mundo, sobretudo no próprio modo de produção capitalista.

Em um determinado momento da entrevista, Stédile apresentou a seguinte tese:

Também, creio que o pós-coronavírus, após a crise capitalista, assim, não será um tempo de que nós teremos a possibilidade de fazer revoluções ou caminhar rapidamente para o socialismo. No entanto, acredito que vão estar na mesa temas paradigmáticos, que incluem o que a esquerda não estava acostumada a debater ao idealizar uma sociedade igualitária. Nós viemos de uma tradição de esquerda em que pensamos apenas as mudanças que parte do poder político: derrubar o governo, tomar o Estado, substituir o Estado burguês por um proletário e popular, sendo que isso não é suficiente para os dilemas que virão adiante, que estão postos e que apareceram com o coronavírus, o que nos força a pensar a vida social seguindo outros parâmetros.

Muita gente se põe a refletir que vida familiar tinha, como tratava seus filhos, que tipo de educação lhes dava. Tampouco já não se contenta mais com apenas fazer eleições, conquistar o voto do outro: as pessoas não querem mais apenas votar, querem participar e, para isso, há mecanismos de participação popular no Estado, em cada decisão, por menor que seja. Talvez, agora com mais força teremos que recuperar o pensamento de Antonio Gramsci e aquela discrição do Estado ampliado. Ou seja, das múltiplas formas de poder político que existem na sociedade, na coletividade, em uma rádio, em um sindicato, em um bairro, em todos os espaços coletivos, e ali exercitar o poder político de uma forma diferente, participativa, unitária e igualitária.

O primeiro debate que é preciso ser feito em relação às considerações que Stédile coloca é em relação ao problema da revolução contra o regime capitalista. De maneira taxativa, o coordenador do MST resolveu declarar que não seria possível haver uma revolução. A que se deve, no entanto, essa declaração?

O capitalismo já se encontra apodrecido há mais de um século. O início de sua fase imperialista, inclusive, marca o fim de sua etapa de progresso. A cada ano, milhões de pessoas em todo o mundo são jogados para um cada vez mais numeroso exército de reserva. Nem mesmo um governo extremamente moderado, que se proponha a tomar medidas muito pequenas para compensar a devastação neoliberal, como foram os governos latino-americanos de caráter nacionalista, são tolerados pelo imperialismo. Não há qualquer espaço para uma vida digna se os capitalistas permanecerem no controle da produção.

Além de todos os argumentos e da teoria, há um fato que comprova, de vez, que a derrubada do capitalismo está colocada na ordem do dia: de 1917 até hoje, o mundo testemunhou várias revoluções. E revoluções, inclusive, que se desenvolveram com uma velocidade impressionante. Na Albânia, por exemplo, entre a formação do Partido Comunista, a criação do Exército de Libertação Nacional e a expulsão das tropas monarquistas, burguesas, fascistas e nazistas se passaram apenas 4 anos.

O fato é que a crise capitalista, em sua agonia mortal, coloca o poder da burguesia em uma situação extremamente delicada. A pandemia de coronavírus, em menos de um ano, poderá matar milhões de pessoas, jogar outros tantos milhões na miséria e dirigir a economia global para uma profunda depressão. Nessas condições, literalmente, a qualquer momento a corda poderá arrebentar em algum lugar, e a classe operária tomar o poder. Não é possível prever como ou onde, mas claramente as condições para isso acontecer estão mais do que dadas.

Se não é possível prever onde e quando a classe operária tomará o poder, mas, ao mesmo tempo, a destruição do capitalismo é inevitável, a tarefa da esquerda nesse momento não poderia ser a de prever que não haverá uma revolução após a pandemia do coronavírus, mas sim a de organizar os trabalhadores para que consiga, efetivamente, se livrar de seus inimigos. A pregação fatalista de Stédile, portanto, termina por ser um desserviço à revolução — se a revolução não está à vista, caberia à esquerda se organizar para a convivência com o regime capitalista.

A continuação da fala de Stédile comprova justamente isso que dissemos. No fim das contas, o que o coordenador do MST propõe não é a derrubada do Estado capitalista, mas sim maneiras de tornar o Estado mais “democrático”. Ao invés de destruir completamente a ordem social vigente, teríamos, portanto, de utilizar o regime a nosso favor. Isso, no entanto, não faz o menor sentido. O Estado é controlado firmemente por elementos como Ronaldo Caiado, que criou uma milícia fascista para assassinar o povo sem-terra, como Paulo Guedes, que prefere ver a população perecer de fome a os bancos quebrarem, como Jair Bolsonaro, que quer enquadrar o MST como organização terrorista, e tantos outros inimigos do povo. O Estado serve como balcão de negócios da burguesia, e a burguesia, portanto, não irá abrir mão facilmente desse que é o único meio de manter seus privilégios.

A luta pela derrubada do capitalismo urge. É preciso, sem demora, sem hesitação, utilizar todos os recursos possíveis para preparar a classe operária para tomar o poder.

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