Fora Bolsonaro

O que falta para a derrubada do governo?

Debatemos, neste artigo, com a tese levantada pelo cientista político Vitor Marchetti, para quem a "popularidade" do governo Bolsonaro não permitiria sua queda.

Em artigo publicado pelo portal Rede Brasil Atual no dia 17 de abril, o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC (UFABC), defende que não há condições para que Bolsonaro sofra um processo de impeachment. Segundo ele, isso se daria porque o governo ainda seria suficientemente popular para se manter:

Vamos demorar para sair da crise econômica e sanitária. Isso vai afetar emprego e economia. Bolsonaro de fato está isolado politicamente. Mas falta saber por quanto tempo ele vai conseguir manter a base popular, já que tem mostrado fôlego para mobilizar sua base sem entregar resultado concreto de política pública.

Desse modo, segundo a análise do cientista político, apesar de o governo está imerso em uma crie profunda, o parlamento não estaria disposto a derrubar o governo porque ele se apoiaria em uma base popular, com a qual o regime político não iria querer se indispor. Como Vitor Marchetti explicaria em outro momento, o que chama de “base” do governo não seriam os poucos setores pequeno-burgueses de tipo fascista que ainda apoiam o presidente ilegítimo, mas basicamente a população brasileira de conjunto:

Como a população brasileira vai se comportar diante desse cenário é uma incógnita. É uma população que já acreditou em mamadeira de piroca e em terra plana.

As confusões apresentadas em ambas as passagens se complementam e acabam por formar uma conhecida tese formulada pelos ideólogos da esquerda pequeno-burguesa, segundo a qual Bolsonaro teria vencido as eleições de 2018 porque gozaria de uma popularidade imensa — ou, dito em outros termos, que o mesmo povo que, havia poucos meses, iria votar no maior líder popular do país, de repente teria virado fascista. Outros intelectuais da esquerda nacional, que compartilham das impressões de Marchetti, chegaram a dizer que haveria uma onda conservadora no mundo, da qual o povo brasileiro teria pego carona.

Em primeiro lugar, é preciso refutarmos a ideia de que a vitória eleitoral de Bolsonaro seria o resultado de um deslocamento dos trabalhadores à extrema-direita. O fascista não foi eleito pela maioria da população — mas sim, por cerca de 1/3 do eleitorado, se considerados os votos colhidos pelo seu adversário, Fernando Haddad, e os votos brancos e nulos. Além do mais, as eleições aconteceram em circunstâncias extraordinárias, em que o principal candidato, o ex-presidente Lula, foi impedido de concorrer, e que o terror tomou conta das ruas. Uma eleição, portanto, fraudulenta, e que não pode ser considerada como forma de avaliar a popularidade do vencedor. Na verdade, é justamente o contrário: o fato de que Bolsonaro e o regime político precisaram lançar mão de tantos recursos para vencer uma eleição mostra que a rejeição à direita é gigantesca.

É preciso, portanto, colocar as coisas em seu devido lugar. O resultado eleitoral não pode ser confundido com a base militante da extrema-direita. O que é, de fato, base do governo é o que já vimos em inúmeras ocasiões: grupos minoritários, que só ganham alguma projeção quando são fortemente financiados pela burguesia. Muitas vezes, no entanto, nem poderosos caminhões de som são capazes de esconder a artificialidade das manifestações da extrema-direita. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, nenhuma organização popular cai nas mãos do bolsonarismo: não há registro de importantes sindicatos, de movimentos de luta pela moradia ou pela terra ou de partidos de esquerda que tenham apoiado Bolsonaro.

Por último, o que Marchetti não compreende é que, se a base bolsonarista já era minoritária em relação ao movimento popular, ela ficou ainda mais desmoralizada com as gigantescas manifestações de maio de 2019 e com as próprias manifestações carnavalescas de 2019 e 2020. As palavras de ordem contra o governo são cada vez mais frequentes, seja em um festival de rock, como o Rock in Rio, seja nas manifestações nas janelas durante a quarentena atual, em que o Fora Bolsonaro é escutado a todo o instante.

As razões pelas quais o Congresso Nacional ainda não se propôs a derrubar o governo Bolsonaro vão justamente no sentido oposto: como o regime político já está extremamente desgastado perante os olhos da população, qualquer ação que vá no sentido de ampliar a crise política irá, inevitavelmente, aumentar as chances de uma intervenção direta dos trabalhadores na situação política. Isto é, não é o excesso de popularidade que mantém o governo Bolsonaro, mas sim a impopularidade do regime político como um todo. É preciso, portanto, superar a indisposição do regime político de se livrar do genocida Jair Bolsonaro. É preciso, portanto, mobilizar os trabalhadores para derrubar, imediatamente, o governo Bolsonaro e aqueles que o sustentam. Fora Bolsonaro e todos os golpistas!

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