Itaú Unibanco, Asa Bank, Bank of America, JPMorgan e o Goldman Sachs, cortaram agressivamente as suas expectativas, passando a ver uma recessão.
Desde meados do mês de março, economistas e analistas de bancos internacionais têm dito que a economia brasileira não vai crescer em 2020. O tempo vai passando e eles continuam projetando uma crise maior ainda. Primeiro o crescimento era zero, agora chega a uma retração de até 3,4%. São estimativas com alto grau de incerteza, mas que acabam orientando a ação dos bancos e até mesmo do governo. De qualquer forma, o que se vê no mercado financeiro é uma crise de longo prazo. Isto é, o Brasil não vai se recuperar tão cedo.
Agora, os economistas ligados diretamente aos capitalistas, quer dizer, aqueles que têm pouco ou nenhum senso crítico em relação à natureza do capitalismo, acreditam que a crise atual e a anterior “é que enquanto o choque de 2008 se concentrou nos setores financeiro e imobiliário, a crise atual afeta todos os segmentos não financeiros da economia global” (Infomoney, 29/3/2020).
Na verdade, o que se observa é que a crise atual dá seguimento à anterior, aprofundando-a. A crise financeira é uma das expressões das contradições internas do capitalismo que exige a manutenção de altas taxas de exploração do trabalho para valorização do capital. Sem conseguir manter as taxas de lucro elevadas os capitalistas recorrem a vários expedientes para aumentar seus lucros e poder, acabam expandindo territorialmente o capitalismo, incorporando colônias, reforçam a exploração dos trabalhadores, produzem guerras, compram empresas nos países menos desenvolvidos a preços baixos e concentram mercados (no Brasil a última foi a Embraer comprada pela Boing), entre outras formas. Quando essas medidas falham ou se esgotam, novas crises aparecem.
Para os capitalistas, em 2008 o governo brasileiro tinha mais instrumentos para minimizar a crise transferindo recursos diretamente para os empresários e aumentando seus investimentos. Justificam dizendo que o governo havia reduzido muito os déficits públicos e, com isso, sobrava dinheiro em caixa. Isso para dizer que agora não há como fazer crescerem os investimentos, já que o governo tem acumulado déficits. Quer dizer, como resultado da análise dos economistas de mercado, o Brasil não tem de onde tirar recursos para investimento, seguindo exemplo de países europeus, nem para aumentar gastos públicos via transferências para bancar salários ou benefícios sociais, como estão fazendo todos os governos de países capitalistas desenvolvidos.
Para eles, a única forma de garantir esse dinheiro seria por meio de novos empréstimos, mas para isso, o Brasil teria que ter atrativos para o capital financeiro, que no momento está fugindo do país.
Evolução do PIB e do Salário Mínimo no Brasil de 1940 a 2014

Exemplo do grau de exploração dos trabalhadores brasileiros. Fonte: Dieese, 2019
A lógica do capital é a de explorar mais ainda a economia brasileira, transferir mais ainda a titularidade das empresas aos empresários internacionais ou privatizar até a última empresa estatal. E como observam que isso está acabando, dizem que o Brasil perde capacidade de atrair capitais.
Enquanto nos países centrais o capitalismo vê como solução o aumento dos investimentos estatais, no Brasil ainda exigem que se mantenha a contenção de gastos. Não aceitam rever a Emenda Constitucional que determina o teto dos gastos (sociais) e nem querem saber em elevar o endividamento dos governos estaduais e municipais, muito menos cortar ou deixar de pagar as dívidas estratosféricas infladas por malabarismos contábeis e contratos leoninos (dívidas pagas várias vezes ainda continuam altas).
O estopim da crise de 2008 foi o endividamento das famílias no mercado imobiliário norte-americano. Mas logo se observou que este não era o culpado. A dívida mundial ultrapassava em muito o mercado real, assim como o giro internacional do dinheiro estava há muito descolado da produção material.
O processo de endividamento após a crise de 2008 só tem aumentado. Como a BBC noticiou (15/2/2020), “o último ciclo, iniciado em 2010, mostra “o maior, mais rápido e amplo aumento” da dívida global desde a década de 1970”. A dívida global atingiu um recorde histórico de US$ 253 trilhões (aproximadamente R$ 1 quatrilhão).
No Brasil não foi diferente, no final de 2019 a Dívida Interna era de R$ 5.971.931.389.014,90 (cinco trilhões e 971 bilhões) e a Dívida Externa igual a US$ 574.254.660.131,65 (574 bilhões). Sendo o que PIB do Brasil em 2019 foi de R$ 7,3 trilhões. Isso faz com que o pagamento diário da dívida retire 2,8 bilhões de reais dos cofres públicos. Dinheiro que poderia estar sendo aplicado em políticas sociais, especialmente em saúde e educação, e movendo a economia para gerar empregos.
A dívida é uma forma de manter a exploração, a dependência e vulnerabilidade dos mercados chamados emergentes. O Instituto de Finanças Internacionais mostrou que foram esses mercados que mais contribuíram para o crescimento relativo da dívida mundial, “o maior crescimento relativo foi registrado no Chile, Coreia do Sul, Brasil, África do Sul e Paquistão” (Sputinik, 16/1/2020).
O Brasil estará mais pobre, mais endividado e mais privatizado no final da quarentena do coronavírus. E a crise mundial, se tiver algum arrefecimento, será por causa do aumento da exploração dos trabalhadores dos países pobres e dependentes. Os capitalistas internacionais estarão mais famintos e vão exigir mais e mais da vida dos trabalhadores e trabalhadoras.



