Esquerda confusa

Atacar a liberdade de manifestação para defender as instituições?

O PSOL, o partido da " liberdade" entra com ações judiciais contra o direito de manifestação

“Nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade” grita (não nas ruas, mas nas redes sociais) a corrente Resistência/Psol. Aparentemente, parece que a esquerda-pequeno burguesa é “combativa” e “defensora das liberdades democráticas” pois é uma opositora “revolucionária” dos grupos da extrema-direita.

A esquerda pequeno-burguesa se encontra em casa, de quarentena, seguindo as orientações “cientificas” dos governadores de direita. Mas isso não significa que os “combativos” da esquerda pequeno-burguesa estejam inertes, afinal estão junto com ex-bolsonaristas arrependidos, batendo panelas nas sacadas dos apartamentos, demostrando indignação e “lutando” pelo “Fora Bolsonaro”. Bem, é verdade, que a esquerda pequeno-burguesa demorou mais de um ano para aderir, mas hoje compensa o atraso com milhões de menes contra Bolsonaro e em defesa da “vida”, bem como realizando ad nauseam lives nas redes sociais a todo momento.

Acontece que essa esquerda que se reivindica antifascista, também condena as manifestações e os atos antidemocráticos dos bolsonaristas, e, assim como a esquerda reformista, não se digna a sair de casa e enfrentar os bolsonaristas nas ruas, (afinal, respeitam o “isolamento social”), apresentando como solução a interdição das manifestações bolsonaristas por meio de ações judiciais.

No texto “Proibir os atos golpistas do bolsonarismo”, o articulista André Freire, membro da coordenação nacional da Resistência/Psol, afirma que, diante da gravidade dos protestos bolsonaristas, é preciso partir para a “ofensiva”. Qual seja? Partir para o enfrentamento com a extrema-direita? Não, não é isso que fazem pessoas mansas e bem-comportadas. “Devemos sim assumir uma postura ofensiva de cobrar do Congresso Nacional e do STF, entre outras instituições, a imediata proibição destes protestos.” ( site esquerdaonline)

“É a própria defesa das liberdades democráticas que tornam inadiável essa postura ousada da esquerda e dos movimentos sociais. Portanto, é correto que os partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais façam ações judiciais e cobrem de governos e da Justiça a proibição destes protestos criminosos e ilegais.” (idem)

Para o articulista do esquerdaonline, a “ação” ou melhor o “papel da esquerda e dos movimentos sociais” é tão somente dar entrada com pedaço de papel no judiciário e “pressionar” para que as instituições do regime político, controladas pelas forças burguesas que deram o golpe de Estado em 2016, possam conter os manifestantes da extrema-direita. Além disso, o que surpreende é o espanto com que a Resistência vê a atuação “moderada” das instituições diante da escalada golpista dos bolsonaristas

“Inclusive, chama muita atenção a forma incrivelmente moderada com que instituições – como o Congresso Nacional e o STF – vêm lidando e reagindo a estas ações abertamente golpistas, mesmo sendo evidente que suas pautas sejam um atentado direto contra pontos fundamentais contidos na Constituição do país.” (esquerdaonline)

No texto, André Freire demostra indignação contra a “combinação dantesca” presente nas manifestações bolsonaristas : 1) pelo desrespeito “às liberdades democráticas e ao próprio regime político” e 2) por atentar contra as regras do distanciamento social. Diz ele: “a gravidade destes protestos golpistas se encontra na combinação dantesca entre os ataques irresponsáveis a vida da maioria, com as graves ameaças às liberdades democráticas, e ao próprio regime político” (idem)

“As seguidas manifestações, organizadas por apoiadores de Bolsonaro, contrariam diretamente as regras distanciamento social, estabelecidas pelas autoridades sanitárias, inclusive do próprio Ministério da Saúde.” (idem)

No texto clássico sobre a ascensão do Nazismo na década de 1930, Leon Trótski, revolucionário russo, assinalou que o fascismo não é um simples sistema de repressão, mas visa à exterminação dos “elementos da democracia proletária na sociedade burguesa”, como o funcionamento dos sindicatos e dos partidos de esquerda. Por isso, era fundamental a frente única para enfrentar os nazistas para evitar o extermínio inclusive físico da vanguarda e dos trabalhadores. Para combater os fascistas, era preciso enfrentar fisicamente por meio da defesa revolucionária às agressões físicas da extrema-direita.

O grupo Resistência apresenta uma série de erros políticos graves. Primeiro, é totalmente equivocado atribuir às instituições do regime político um elemento de contenção da extrema-direita; depositar confiança no “regime político” como a garantia das “liberdades democráticas” é alimentar uma profunda ilusão no capitalismo e no regime democratizante. É importante assinalar que Trótski colocava não a defesa das instituições democráticas em abstrato e do regime político, mas a defesa dos elementos da democracia proletária na sociedade burguesa.

Além da crítica à posição ultra-esquerdista do stalinismo na recusa da frente única com a social-democracia contra os nazistas, Trótski ressaltou que a social-democracia teve uma política nefasta de preparação das condições da vitória do fascismo, e da sua própria liquidação política, na medida em que se recusou a enfrentar a extrema-direita e acreditou que as instituições dominadas pela burguesia seria suficientes.

Além do mais, a posição defendida na época pela social-democracia na ascensão do Nazismo, e hoje com a frente ampla pela esquerda brasileira, inclusive o próprio PSOL leva a desmoralização política, e ajuda na campanha demagógica da extrema-direita. Depositar no judiciário e na polícia a esperança do “combate aos fascistas” não somente é errado, como tem o efeito contrário, uma vez que a proibição do direito de manifestar atinge não somente a extrema-direita, mas também, e sobretudo, a própria esquerda.

A Resistência argumenta que seria uma “ingenuidade” permitir “liberdade” para quem é contra a liberdade; mas, no fundo, quem está sendo “ingênuo” é o articulista do Psol. Nesse sentido, a defesa da repressão pura e simples se voltará inevitavelmente contra os trabalhadores e suas organizações.

Um outro ponto relevante é a defesa da proibição das manifestações da direita em nome da suposta defesa da “vida”, ou seja o respeito às regras do isolamento social. Isso comprova que a adesão da esquerda, e da Resistência em particular, à campanha #fiqueemcasa colocou como uma defensora do uso dos meios repressivos contra o povo, que deve aceitar todas as imposições em nome do “isolamento social” como medida “cientifica” em defesa da vida. Além disso, a quarentena é completamente seletiva; os trabalhadores continuam trabalhando, mesmo sem condições de proteção sanitária, e não existe investimento efetivo na rede de saúde pública para proteger a saúde da população.

Assim, no texto da Resistência, a defesa das “liberdades democráticas” não passa de uma justificação do regime político “democratizante”. Mas, por isso mesmo, o uso das regras de confinamento é apresentadas como premissas não somente suficientes, mas até mesmo inquestionáveis. Notem que o Psol, o partido da “Liberdade”, constantemente entra na justiça contra o elementar direito de expressão, pois advoga que “ofensas” devem ser proibidas, e, agora, no momento em que a tendência é o desenvolvimento de manifestações políticas, as ações de ruas, ou seja, o direito de manifestação é transformado em crime de “saúde pública”.

A Resistência condena ir às ruas para enfrentar a direita, e exalta inclusive as ações judiciais do Psol nesse terreno: “acerta o Psol quando denuncia o acampamento golpista de Brasília ao Ministério Público Federal, caminho que também está sendo trilhado por algumas lideranças do PT. Da mesma forma, está corretíssima a ação do Psol de Ribeirão Preto (SP), conseguindo uma liminar da Justiça local proibindo a realização de uma das ‘caravanas da morte’ em sua cidade.”

O morenismo não é apenas uma forma de revisionismo trotskista, expresso em agrupamentos políticos oportunistas, mas é também um estilo picareta de fazer política da pequena burguesia desclassificada. O texto da Resistência afirma, nas conclusões, que as ações judiciais proibindo qualquer manifestações para defender o regime político e em defesa da “vida”, são nada mais nada menos do que uma preparação para o enfrentamento direto nas ruas “para possíveis e prováveis conflitos políticos – e até físicos – contra estes setores neofascistas.”

 

“Estas ações judiciais, na verdade, devem ser encaradas como um passo no sentido de uma tarefa ainda mais importante: preparar a nossa volta às ruas (…) Inclusive, em nossas futuras manifestações, devemos nos preparar para possíveis e prováveis conflitos políticos – e até físicos – contra estes setores neofascistas.”

Curiosamente, no fim do texto, depois de ter justificado exaustivamente a proibição das manifestações, promete, para depois da pandemia (quando mesmo?), a volta às ruas, e o enfrentamento físico com os fascistas. Enquanto isso, a resistência fica a cargo das instituições burguesas, como o judiciário acionado pelas petições da esquerda capituladora.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.