Teses confusionistas sobre o escândalo Sérgio Moro

Desde que os vazamentos recebidos pelo site de notícias The Intercept, cujo fundador é o jornalista americano radicado no Brasil Glenn Greenwald, começaram a ser divulgados, uma série de opiniões confusionistas vêm sendo espalhadas nas redes sociais e insinuadas em órgãos de imprensa da direita e até mesmo de setores da esquerda.

Em primeiríssimo lugar é preciso dizer que essas opiniões servem para tirar de foco o problema político chave da situação: os vazamentos e a profunda crise que eles provocam na Lava Jato e por consequência no próprio regime golpista. Esse problema, da importância política dos vazamentos, desenvolveremos mais à frente.

Tais opiniões sobre o caso são alimentadas por considerações maliciosas que são equivocadas ou secundárias em relação a Glenn Greenwald e ao The Intercept. Uma delas é a de que o sítio – e portanto o próprio Greenwald – é financiado por grandes capitalistas estrangeiros, portanto imperialistas, e que a conclusão disso, considerando que tais informações sejam realmente verdadeiras, é a de que o The Intercept seria um órgão como a Folha de S. Paulo, a Veja, o Estado de S. Paulo ou até mesmo a rede Globo. The Intercept faria parte, de igual para igual com esses órgãos, de um grande esquema de manipulação da informação servindo a interesses imperialistas escusos exatamente como fazem os monopólios da imprensa no Brasil e no mundo. Tal ideia peca pela completa falta de senso de proporção.

O site de Glenn Greenwald, independentemente de quem o financia e mesmo levando em consideração que seja um órgão da imprensa burguesa, é infinitamente menor que a qualquer dos órgãos da imprensa golpista brasileira. Só pelo poder de fogo do site já é poss;ivel perceber que ele não faz parte desse mecanismo de manipulação. Mas se ainda assim resta dúvida, basta lembrar que o site não apoiou o golpe de Estado no Brasil e continua não apoiando. Posição esta que se opõe pelo vértice de todo o monopólio da imprensa brasileira.

Portanto, não dá para equiparar o The Intercept com estes órgãos que são oficiais da grande burguesia, melhor dizendo, são porta-vozes da imprensa imperialista. O fato de ter um financiador imperialista não o faz automaticamente um órgão imperialista. Uma análise como esta nos impediria de tratar as coisas devidamente, na sua proporção e nos faria necessariamente chegar a conclusões erradas. Para se fazer parte do restrito círculo do monopólio da imprensa pró-imperialista é preciso muito mais do que um simples financiamento de um grande burguês.

É preciso diferenciar os órgãos pequenos e médios dos órgãos do grande capital. A imprensa imperialista funciona como um partido político dos capitalistas, dominando completamente a informação em um determinado sentido, exatamente como fez toda a imprensa golpista nesses anos do golpe. Já um órgão médio ou pequeno, mesmo sendo órgãos burgueses ou ligados à pequena-burguesia, não podem ser colocados – mesmo porque não há lugar ali para eles – no restrito clube do monopólio da imprensa capitalista. Podemos e devemos discordar de posições políticas desses órgãos, mas isso não os coloca em pé de igualdade com os órgãos da grande burguesia.

Greenwald é um jornalista com posições liberais, burguesas, muitas delas inclusive progressistas. Muito diferente, por exemplo, de figuras venais da imprensa golpista como Reinaldo Azevedo que está ali para defender o que mandam seus patrões, não importa o que seja. O que se conhece de Glenn Greenwald não é a atitude venal dos grandes jornalões.

É preciso lembrar também que Grrenwald fez a denúncia de Snowden, na época quando era jornalista do The Guardian – esse sim um órgão imperialista – o que não retirou a importância das divulgações da denúncia. Agora, Glenn publica os vazamentos que recebeu contra Sérgio Moro que são uma peça chave na situação política nesse momento.

Assim como o fato de ser do The Guardian não mudava o caráter da denúncia de Snowden, menos ainda tem relevância o que é o The Intercept no caso da denúncia contra Moro. Greenwald recebeu os vazamentos e está publicando as denúncias. Isto, por si só, já é um fato de extraordinária importância. Inclusive, por mais que se possa fazer críticas pontuais as métodos utilizados para a divulgação não há nenhuma evidência de que Greenwald estaria distorcendo ou escondendo informações. Criticamos mais de uma vez em nossa imprensa a “parceria” que Glenn decidiu fazer com a imprensa golpista – Folha, Veja, El País – mas mesmo isso não muda o caráter da denúncia em si.

Enfim, a ideia de que Gleen Greenwald seria um agente do imperialismo é uma tese completamente sem fundamento pois teríamos que chegar a conclusão absurda de que o imperialismo está atacando Sérgio Moro o que nos obrigaria a defender Moro contra o imperialismo e não denunciar o golpe e a Lava Jato. Por si só, essa tese é absurda e mais ainda completamente contrarrevolucionária. Toda a direita e a imprensa golpista se juntam nesse momento para proteger Moro e a Lava Jato.

Por fim, e mais importante, os ataques contra Gleen Greenwald, sejam eles por motivos parcialmente corretos ou totalmente errados, só pode ter como resultado desviar a atenção do que é essencial, que são justamente as denúncias contra a Lava Jato, Moro e portanto contra o golpe. Denúncias estas que são mais uma arma para a luta contra o governo Bolsonaro. Atacar Greenwald é, no final das contas, se alinhar com a direita golpista, que também o ataca justamente porque precisa esconder as denúncias e conter a crise.

Para terminar, é preciso lembrar que na história há outros casos muito significativos. As denúncias que levaram à renúncia de Nixon nos Estados Unidos em 1974 foram publicadas por jornalistas no Washington Post, este sim um jornal imperialista. Esse fato, no entanto, não retiram a importância da denúncia como um fator positivo que serviu para derrubar um governo muito direitista e que posteriormente se desenvolveria em uma crise do regime político norte-americano.

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