Rubens Valente, jornalista da Sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, e autor do livro “Os Fuzis e as Flechas: História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura”, escreveu um texto no jornal em que debocha de “teorias conspiratórias de internacionalização da Amazônia” difundida em setores militares para encampar ocupação predatória da Amazônia, região que seria cobiçada por outros países, baseadas em supostos estudos que afirmam que ONGs e indígenas pretendem, em conluio com países estrangeiros, dividir a região por meio da independência de algumas de suas áreas. Haveria um plano secreto internacional para tomar essas porções de terra exuberantes e ricas, tenta ridicularizar o jornalista.
Valente afirma que tal ficção encontra solo fértil no governo de Bolsonaro, ao lembrar que no dia 11 de agosto o presidente declarou que a Alemanha não iria mais “comprar a Amazônia” e acusou outras nações de terem interesse “em se apoderar do Brasil”. Ele abriu mão de R$ 155 milhões do governo alemão em projetos para a Amazônia. O jornalista ainda se apoia em uma declaração feita no mesmo dia pelo ex-comandante do Exército e hoje assessor no influente GSI (Gabinete de Segurança Institucional), o general reformado Eduardo Villas Bôas, segundo o qual o Brasil é alvo de “ferramentas do moderno capitalismo” exercidas pelas críticas à política ambiental, mas que estava deixando de se submeter “a pressões” estrangeiras.
O Valente de Brasília parece atribuir essa suposta preocupação com a Amazônia a um certo nacionalismo dos militares brasileiros e cita vários projetos para “incorporar a região à nação” que foram levados a cabo pela ditadura, desde 1964, com o lema “integrar para não entregar”, destacando o “Projeto Ouro” ou “Projeto Garimpo”, que mobilizou 148 mil garimpeiros em dez estados no governo João Figueiredo (1979-1985). Segundo dados levantados pelo jornalista, de 1979 a 1981 foram produzidas 24 toneladas de ouro, sob controle direto do SNI, sendo a experiência aposentada em 1989 por decisão do presidente José Sarney (1985-1990). “Trinta anos depois, o governo Bolsonaro fala em abrir terras indígenas para a mineração”, parece criticar o jornalista da Folha, atribuindo a Bolsonaro uma motivação de defesa da ocupação do território nacional por brasileiros.
É uma grande confusão. Vamos por partes. Aliás, vamos começar pelo fim. Veja dois vídeos curtos abaixo:
No primeiro vídeo, Bolsonaro chama o Brasil de lixo e diz que a Amazônia não é mais nossa. No segundo vídeo, em campanha em condomínio de coxinhas em Miami (uma redundância), bate continência para a bandeira dos Estados Unidos em meio ao apupo geral “USA, USA,USA”.
É verdade que Bolsonaro e os militares das nossas Forças Armadas sejam nacionalistas, mas o nacionalismo deles é azul, vermelho e branco. No caso do general Villas Bôas, ele conseguiu um feito inédito: assumiu que é sub-comandado pelos Estados Unidos ao lotar o general de brigada brasileiro Alcides Valeriano de Faria Júnior no Comando Militar Sul dos Estados Unidos, baseado no Texas. Isso nunca tinha acontecido explicitamente na história do Brasil. Pela primeira vez um general brasileiro virou subordinado do Exército dos EUA desde março deste ano.

O Comando Sul, unidade militar dos Estados Unidos, coordena os interesses estratégicos do país na América do Sul, na América Central e no Caribe. O general brasileiro está submetido a qual cadeia de comando? Se os Estados Unidos invadirem a Amazônia, ele estará de que lado? O general Faria Júnior recebe seu soldo em qual moeda? Ele deve obediência a qual bandeira? Ou é tudo a mesma coisa?
O ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores, Celso Amorim, também diplomata, declarou quando da notícia de que um general brasileiro e, por extensão, o Exército Brasileiro, passaria a ser subordinado ao exército norte-americano: “É uma coisa tão insólita, tão inusitada, que eu não me lembro de nenhuma situação semelhante, a não ser em tempo de guerra”, salientou.
Numa escalada dos acontecimentos, desde o final de julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou o Brasil como aliado preferencial fora da OTAN. Tradução: em outras palavras, ao lado do Bolsonaro no encontro do G20, no Japão, ele poderia ter dito “we are one”.
Portanto, quando Bolsonaro arrota que a Alemanha não vai mais comprar o Brasil, recusa R$ 155 milhões do governo alemão para financiar projetos que protejam a Amazônia e também espinafre o dinheiro da Noruega, ele não está defendendo o Brasil, está defendendo os interesses dos EUA.
Quando ele alerta sobre “outras nações que têm interesse em se apoderar do Brasil”, está alertando os Estado Unidos, para quem ele e os outros militares já venderam o Brasil e estão entregando picadinho: vai a Embraer, vai o petróleo cru, vai um pedaço do Maranhão, e o entreguista Paulo Guedes, depois dos Correios, da Casa da Moeda (afinal, se o Brasil vai ser outro Porto Rico, não precisa mais fabricar seu próprio dinheiro), da Petrobras, da Eletrobras, de Itaipu e do Bando do Brasil, que ele abertamente defendeu em discurso em Dallas que deveria ser do Bank of America, o ministro fala até em entregar portos, aeroportos e estradas brasileiras aos norte-americanos.
Na verdade isso tudo não é novidade. Onde foram parar aquelas 24 toneladas de ouro extraídas do Brasil sob a supervisão direta do SNI? Não temos notícia de que nenhum dos 148 mil garimpeiros de Serra Pelada tenha ficado milionário. Um ou outro pode ter ficado um pouquinho rico, só para dourar o esbulho, manter o interesse e o ufanismo dos tempos da ditadura. O ouro mesmo é possível que esteja todo em Fort Knox.
Aparentemente, é a Folha e seu jornalista Valente que vivem numa fantasia. Não é uma teoria conspiratória de ocupação estrangeira da Amazônia ou do Brasil: já é a realidade. A defesa que os militares fazem do território e das riquezas brasileiras é contra outros países que não os Estado Unidos da América, a quem devem suas medalhas por bom comportamento e subserviência.




