Derrubar Bolsonaro é a política da direita?

Em artigo intitulado “Impeachment é bandeira da direita; tarefa urgente é mobilizar”, publicado no sítio 247, Gilberto Maringoni, militante do PSOL e ex-candidato do partido ao governo de São Paulo, se opõe veementemente ao sentimento expresso por centenas de milhares de pessoas, no último dia 15, nas gigantescas mobilizações realizadas em mais de 300 cidades espalhadas por todo o País (bem como em outros inúmeros momentos como o carnaval, manifestações de 22 de março, shows etc.): de que é preciso colocar Bolsonaro para fora, exposto das mais variadas formas (“fora Bolsonaro”, “ei, Bolsonaro vai tomar no c*%$” etc.).

Buscando não se enfrentar diretamente com a palavra-de-ordem que domina as manifestações espontâneas, o “fora Bolsonaro”, defendida por setores da esquerda como o PCO, alas da esquerda do PT e dos movimentos sociais, o articulista do PSOL, apresenta sua crítica aos que defendem a luta pela derrubada do atual do governo, de forma desleal, com uma critica à proposta inexistente (entre a esquerda) de defesa do impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Afirma Maringoni que “para os setores populares, colocar impeachment em pauta é algo insensato”, acrescentando – sem citar fontes, fatos etc. – que  “parte da coalizão – militares e possivelmente o mercado – começam a desenhar tal solução” e que isso seria “a rota certa para Mourão assumir o cargo. Viria aí o autoritarismo e o neoliberalismo palatáveis e sem ruído entre os de cima”.

Dessa forma, a pretexto de se colocar contra a possível substituição de Bolsonaro pelo seu vice, ultrareacionárioe tão neoliberal quanto o presidente atual, general Hamilton Mourão, Maringoni se coloca – de fato – a favor da continuidade do governo Bolsonaro. Ou seja, como muitos setores da esquerda burguesa e pequeno burguesa vem fazendo, fingindo não ouvir os gritos de milhões a favor do “fora Bolsonaro”, o psolista se coloca na defesa da continuidade do governo Bolsonaro.

Na base desta afirmação, nada original, de Maringoni está a “análise”, sem base na realidade, de que o campo popular e progressista perdeu as eleições”, a qual constitui um reconhecimento da suposta legitimidade do governo Bolsonaro e do seu vice, Mourão, que teriam sido vitoriosos em eleições normais, democráticas. Isso quando Bolsonaro chegou à presidência em em meio a um do processos mais fraudulentos da história do País (se não o mais), que teve como base a condenação fraudulenta e prisão ilegal do ex-presidente Lula, o candidato que a maioria do povo queria votar, como apontavam as pesquisas de opinião que revelavam sua vitória já no primeiro turno das eleições. Fica evidente que Maringoni, não só não quer apoiar a luta pelo “fora Bolsonaro” como considera o governo Bolsonaro como um governo legítimo.

Como seus aliados do PSOL e de outros setores da esquerda, Maringoni aponta como única via para a situação esperar para que a esquerda consiga organizar “uma oposição a altura das necessidades do país, que impeça o desmonte do Estado e a entrega do país”. O que ele não esclarece em seu artigo, mas que entrevistas e declarações de seus aliados deixam evidente, daria-se em torno das articulações em torno das próximas eleições: 2020, 2022. Assim a imensa maioria do povo brasileiro que está “comendo o pão que o diabo amassou” com os ataques do governo golpista de Bolsonaro-Mourão estaria condenada a esperar pelas eleições e pela “oposição”.

Para Maringoni e outros setores da esquerda, que não apoiaram a candidatura de Lula ou defenderam abandoná-la diante da sua rejeição pela direita e que não lutaram e/ou não lutam pela liberdade do ex-presidente, uma questão central no enfrentamento com o regime político, não há nada fazer – de fato – se não esperar – uma vez que para eles não tem qualquer caráter decisivo a luta de classes e a enorme revolta popular que se desenvolve contra o governo e o regime golpistas e seus ataques contar o povo. Assim o ex-dirigente do PSOL “profetiza”: “a chance de Bolsonaro cair e novas eleições serem convocadas é praticamente zero“. E oferece como explicação o fato de que “a Constituição não define se a chapa toda ou apenas o titular serão destituídos em caso de impedimento a essa altura do campeonato”.

Os trabalhadores e a juventude teriam que ser avisados, segundo Maringoni, que não adianta reivindicar a derrubada do governo e a convocação de novas eleições, pois isso não está previsto na Constituição. Essa mesma Constituição que não tem mais valor algum, quando se trata de garantir os direitos democráticos da imensa maioria do povo brasileiro, que foi pisoteada um sem número de vezes pelos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff, sem crime, que mantém Lula, José Dirceu e outros, como presos políticos em um regime de arbítrio, teria que ser respeitada pelos milhões que se revoltam contra Bolsonaro, contra o desemprego, os cortes na Educação, a entrega do petróleo e de toda a economia nacional, o roubo da Previdência etc. etc. etc.

Para defender essa politica conservadora, reacionária e de apoio à subsistência do governo da direita, Maringoni afirma fala em “português claro”, que “impeachment é hoje bandeira da direita!”

E qual seria a “bandeira” da esquerda? A resposta do psolista é que, neste momento, quando o governo Bolsonaro está sendo levado à lona pelo crescimento das mobilizações, pela divisão interna da burguesia, pela perda de apoio entre os setores minoritários que apoiaram sua eleição, a esquerda teria que se limitar a defesa de reivindicações imediatas, abrindo mão de apresentar uma proposta de poder; deixar a política para os políticos burgueses, para os golpistas, Segundo ele, “a tarefa agora é acumular forças nas pautas próprias do movimento social“.

Essa política passiva é uma política de derrotas. Como já ficou evidente em diversos momentos da luta contra o golpe, nos últimos anos. Foi essa a política de setores da esquerda burguesa e pequeno burguesa que não se mobilizaram (ficar a esquerda acumular forças e lutar pelas pautas dos movimentos sociais) contra a derrubada de Dilma. É a mesma política dos que só saíram na defesa do “fora Temer, diretas” (sem defender a anulação do impeachment), pondo fé numa mudança na Constituição (com “chance zero” de acontecer no Congresso golpista) apenas quando setores da burguesia defendiam essa política; é a política de lutar contra as reformas (trabalhista, PEC 95, ensino médio etc.) sem lutar contra o golpe… que resultaram, todas elas, em derrotas dos trabalhadores, da juventude e das suas organizações de luta.

Essa politica reacionária precisa ser deixada para trás. A esquerda, os explorados e suas organizações não podem ficar assistindo à crise do governo Bolsonaro, à tentativa da burguesia golpista de achar uma “saída” e de manipular as manifestações (apresentando-as apenas como lutas por pautas específicas, quando são lutas contra o governo) sem buscar intervir nessa situação com uma política própria, independente.

Contra a tentativa da direita de impor uma “pauta” para a esquerda, como a defesa do impeachment e a posse de Mourão, as organizações de luta dos trabalhadores devem apresentar uma política própria como a defesa da derrubada do governo Bolsonaro e de todos os golpistas; por meio da mobilização revolucionária das massas, com a imposição (esteja ou não na Constituição) de novas eleições, livres e democráticas, com a conquista da liberdade de Lula e de todos os presos políticos, com Lula candidato e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, para por abaixo o regime golpista atual, revogar todas as “reformas” contra o povo brasileiro e a economia nacional, em favor do imperialismo e do grande capital “nacional”.

A geração de Maringoni foi embalada por uma canção que diz “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”; sua politica de esperar, “acumular” etc. em uma etapa de clara evolução das lutas populares, aponta na direção inversa, expressa por outra canção, “Bom Conselho”, de Chico Buarque: “Está provado, quem espera nunca alcança“.

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