A 72ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes, terminou no último sábado, dia 25 premiando dois filmes brasileiros, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, do diretor cearense Karim Ainouz e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Já falei a respeito de “Bacurau” na coluna da semana passada, antes do resultado divulgado no sábado. Mas vale aqui ressaltar o caráter político e de protesto do novo filme de Kleber Mendonça Filho que depois do protesto no tapete vermelho em 2016, quando “Aquarius” concorria ao prêmio causou furou internacional. Este ano o protesto, segundo o diretor veio em forma de filme. “Bacurau” conta a história de resistência, armada, de uma população massacrada por um político autoritário no sertão pernambucano que para calar a voz do povo contrata mercenários norte-americanos.

Na premiação divulgada no último sábado, “Bacurau” ganhou o Prêmio do Juri, o terceiro mais importante do festival. O filme brasileiro dividiu o prêmio com o francês “Les Miserables”, de Ladj Ly. O prêmio principal ficou com “Parasite”, ou em português, “Parasita”, do sul coreano, Boog Joon-ho.
O que chamou a atenção entre esses filmes foi a temática, além de “Bacurau”, “Les Miserables” e “Parasite”, são filmes extremamente políticos que ressaltam a luta de classes de maneira bem latente.
Começando por “Bacurau”, temos uma cidade pequena, desprotegida do sertão nordestino que é tomada por estrangeiros, mais diretamente, norte-americanos, que enfrentam à bala, uma população sofrida, mas combativa, que não se curva e pega em armas para se defender. O filme é mais que isso, mistura ficção científica, filme de faroeste, terror B e também comédia, mas no essencial é a resistência, a luta contra o imperialismo representada pelos mercenários.
Em “Les Miserables”, o diretor Ladj Ly, mostra a repressão policial nas periferias parisienses para conter a população pobre, principalmente imigrante, que vivem às margens da cidade luz. No início, como ironia, o diretor mostra as comemorações entre todos, da vitória da França na Copa do Mundo de 2018, para depois mostrar que a integração, a harmonia, não existem e que os pobres de Paris, sejam nativos ou estrangeiros, são vigiados, controlados, reprimidos para não atrapalharem a “ordem” e eles reagem. Não à toa o filme tem o título de “Os miseráveis”, em referência clara ao clássico de Victor Hugo.

Já o prêmio principal, a Palma de Ouro, ficou com o sul coreano, “Parasita”, que pelo nome já delimita uma parcela da sociedade sul coreana que poderia ser qualquer uma do planeta. No filme é mostrado o contraste entre duas famílias, uma rica, a parasita, outra extremamente pobre. A rica vive no luxo exacerbado, em condições em que a minoria vive no mundo. Já a família pobre é muito pobre, daquelas famílias em que todos os membros estão desempregados, que passam fome, necessidades básicas, que vivem em condições subumanas. Até que essas duas famílias se cruzam e as diferenças sociais, de classe, ficam ainda mais evidentes e o que é melhor, se acirram.
Não é possível supor porque tamanha premiação para filmes tão políticos, já que Cannes é um dos mais versáteis e, falando no jargão da moda, plurais, festivais de cinema do mundo. Talvez o momento político extremamente propício fez aguçar o júri que escolheu estes filmes. Em tempos difíceis nada melhor cinema político para entreter.
https://youtu.be/JLIIxDQmjyg




