Europa

Dois dias após greve geral, 250 mil marcham na França

Trabalhadores, estudantes e coletes amarelos mantêm mobilização contra Macron

A França voltou a registrar manifestações de massa neste sábado (7), apenas dois dias depois da greve geral que paralisou escolas, transportes e serviços públicos em todo o país. Segundo a intersindical estudantil, 250 mil pessoas participaram dos protestos contra a carestia e a política econômica do governo Emmanuel Macron. O Ministério do Interior reconheceu 146 mil manifestantes, distribuídos por 141 atos.

Em Paris, a estimativa das organizações juvenis foi de 75 mil participantes, contra 46 mil reconhecidos pela polícia. A manifestação percorreu o trajeto entre as praças da República e da Nação. Os atos também alcançaram cidades como Lyon, Marselha, Toulouse, Bordeaux, Lille, Grenoble, Nantes e Rennes.

A jornada foi a quarta mobilização nacional consecutiva realizada em um sábado. Embora a participação tenha sido inferior à registrada nas semanas anteriores, os protestos demonstraram a continuidade da luta contra o governo francês, que enfrenta manifestações praticamente ininterruptas desde setembro.

O sábado também mostrou que a greve geral de quinta-feira (5) não encerrou o movimento. Naquela ocasião, 1,6 milhão de pessoas foram às ruas, segundo as centrais sindicais. O Ministério do Interior estimou 575 mil participantes. A paralisação atingiu setores estratégicos da economia e fechou até mesmo a Torre Eiffel, um dos principais pontos turísticos franceses.

A mobilização reúne reivindicações de diferentes setores da população. Os trabalhadores exigem reajustes salariais, melhores aposentadorias e a preservação dos serviços públicos. Os estudantes protestam contra a falta de professores, a superlotação das salas, os problemas de infraestrutura e as restrições de acesso ao ensino superior.

Os coletes amarelos, movimento que protagonizou grandes manifestações contra Macron a partir de 2018, também participam da atual onda de protestos. Sua coordenação convocou aproximadamente 120 ações pelo país para este sábado, embora tenha organizado mobilizações separadas das centrais sindicais em algumas localidades.

Na capital, por exemplo, enquanto estudantes e sindicatos marcharam da República até a Nação, os coletes amarelos convocaram uma concentração na praça da Concórdia. O governo proibiu o ato nesse local.

A participação desses diferentes setores, ainda que por meio de organizações e iniciativas próprias, constitui um dos elementos mais importantes da crise enfrentada pelo governo francês. A luta deixou de ficar restrita às reivindicações particulares de cada categoria e passou a se concentrar também na oposição à política econômica de Macron.

70 mil policiais contra os manifestantes

Para enfrentar os protestos, o governo mobilizou novamente 70 mil policiais e gendarmes. A operação incluiu 25 veículos blindados Centaure, caminhões com canhões de água, helicópteros, veículos aéreos não tripulados (VANTs) e unidades especializadas na repressão de manifestações.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, determinou a manutenção do aparato utilizado nas jornadas anteriores. Prefeituras proibiram protestos em áreas centrais de diversas cidades e estabeleceram restrições aos percursos dos cortejos.

A repressão não ficou limitada à ameaça representada pela presença policial. Em Paris, houve disparos de granadas na praça da Nação, onde os manifestantes chegaram após percorrer o bulevar Voltaire. A polícia ordenou que a praça fosse esvaziada.

O Ministério do Interior informou que quase 40 mil pessoas foram submetidas a controles preventivos durante o sábado, especialmente em estradas e estações ferroviárias. Ao final da jornada, o número de detenções chegava a pelo menos 360 em todo o país, segundo informações divulgadas pela imprensa francesa.

A repressão também atingiu jornalistas responsáveis pela cobertura das manifestações. Na sexta-feira (6), a direção da Agência France-Presse (AFP) denunciou agressões cometidas por policiais contra seus profissionais, inclusive quando estavam devidamente identificados.

Durante a greve geral de quinta-feira, um fotógrafo da agência recebeu cinco golpes de cassetete, três deles no capacete. O jornalista sofreu uma fratura na fíbula. Outros profissionais foram atingidos por balas de borracha e jatos de água em manifestações anteriores.

A organização Repórteres Sem Fronteiras contabilizou 58 episódios de impedimento ou violência contra jornalistas durante os protestos, dos quais 40 envolveram integrantes das forças de segurança. Entre os casos de violência física, 21 foram atribuídos a agentes policiais.

Governo tenta conter a mobilização

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou representantes sindicais e patronais para uma conferência social nesta segunda-feira (9). Também está prevista uma reunião com organizações estudantis.

O governo anunciou algumas concessões na educação, incluindo a abertura de 15 mil vagas no ensino superior, a revisão de regras de avaliação e o cancelamento de cortes de postos de trabalho anteriormente previstos. As reivindicações estudantis, entretanto, abrangem problemas mais amplos, que vêm provocando bloqueios e manifestações há várias semanas.

A convocação das reuniões ocorre depois de sucessivas jornadas de mobilização e de uma greve nacional que reuniu centenas de milhares de trabalhadores. O governo procura abrir negociações enquanto mantém as medidas econômicas contestadas nas ruas.

O principal alvo das manifestações é o orçamento de 2027, cuja orientação de austeridade tem provocado a oposição dos sindicatos. Os trabalhadores rejeitam o comprometimento dos serviços públicos e exigem que os recursos do Estado sejam destinados às necessidades da população.

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